quarta-feira, 12 de setembro de 2012

João Batista Damasceno: Farsas e factoides

O Dia


Rio -  A 5 de agosto de 1954, um atentado ao jornalista Carlos Lacerda, opositor do presidente Getúlio Vargas, na Rua Tonelero, em Copacabana, matou o major da Aeronáutica Rubem Vaz. Os jornalistas Armando Nogueira, Otávio Bonfim e Deodato Maia, que trabalhavam num jornal antigetulista, testemunharam o fato e viram Lacerda caminhar normalmente após os disparos. Mas, no dia seguinte, Lacerda apareceu com a perna engessada, desconsiderando que não se engessa ferimento.
As acusações ao presidente Vargas, que não sabia do atentado, com desrespeitoso discurso de Afonso Arinos no dia 13 de agosto e um inquérito paralelo de militares golpistas da Aeronáutica, levaram o presidente ao suicídio no dia 24 de agosto.
Em 1989, na eliminatória para a copa de 90, o goleiro chileno Rojas promoveu seu factoide no Maracanã. No quarto minuto do segundo tempo, Bebeto cruzou para Careca, que chutou cruzado e fez o gol que classificaria o Brasil. Vinte minutos depois, o goleiro chileno apareceu na tela envolto em fumaça, com a mão no rosto e sangrando. Galvão Bueno exclamava, indignado: “Podia acontecer tudo! Menos isto! Foi atingido por um rojão, fogos de artifício, o arqueiro (sic!) Rojas!”
A atiradora do rojão foi tratada pela mídia como inimiga pública número um. Analisados os fatos, concluiu-se que não se tratava de um rojão, mas de um sinalizador, sem poder ofensivo, e que não tinha atingido o goleiro. Dois meses depois, a Fifa absolveu o Brasil. Ficou provado que Rojas fora ferido no supercílio por uma lâmina escondida na luva e que o médico chileno derramara mercuriocromo no jogador para simular sangramento.
A cada eleição candidatos promovem factoides para ganhar exposição na mídia. Tiros em pneus de carros de candidatos e espancamentos de cabos eleitorais podem ser reais. Mas, em alguns casos, trata-se de fogo amigo, provocado sob encomenda. Pelo Brasil não faltam os atentados cuja apuração concluiria pela falsa comunicação de crime.
João Batista Damasceno é doutor em Ciência Política pela UFF e juiz de Direito. Membro da Associação Juízes para a Democracia

Marcelo Nitsche: E se fosse com a filha da Dilma ou do Obama?

O Dia


Rio -  Outro dia estava pensando como no Brasil algumas questões têm diferentes pesos e ganham diferentes ‘finais’ pelo simples fato de acontecerem com as pessoas ‘certas’. Certas não pelo fato de algo ruim acontecer; mas porque talvez com elas o desenrolar seria outro.
Aproximamos-nos de seis anos do talvez maior acidente do espaço aéreo brasileiro, a tragédia causada pelo jato Legacy, que matou 154 pessoas do voo 1907 da Gol e que ainda espera punição para os culpados.
E se a filha da presidenta Dilma estivesse a bordo? Será que os culpados estariam sem punição? Será que os órgãos competentes não teriam feito uma denúncia internacional? Ou ainda, se fosse alguém próximo ao presidente Obama, será que os culpados ainda teriam seus brevês e continuariam voando livres nos EUA?
Ninguém enxerga que os anos passam e ninguém teve a punição, por menor que ela tenha sido, dada em primeira instância? Mas e as vidas interrompidas? Mais 154 números em um país de estatísticas?
Até um leigo como eu já entendeu que foi comprovada a culpa por negligência, imperícia ou imprudência dos pilotos do Legacy.

Será mesmo que duas pessoas que entram num avião, sem qualquer responsabilidade não deveriam ser condenadas por homicídio doloso? A quem se pede socorro no Brasil, se na situação em que se falta fazer justiça, não tinha ninguém filho de alguém com patente?
Talvez então eu deva torcer para isso acontecer numa próxima tragédia. Mas seria justo isso? Desejar o mal de alguém inocente apenas para que as pessoas ‘certas’ façam cumprir leis e acordos internacionais?
Marcelo Nitsche é técnico mecânico de aeronave, membro da Associação de Familiares e Amigos das Vítimas do Voo 1907 

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Mundo moderno, cérebro antigo

Folha de São Paulo
Suzana Herculano-Houzel


É tão fácil botar a culpa na internet, no mundo moderno, nas novas tecnologias, ou em tudo isso junto.
Falta de atenção é consequência de janelas demais piscando no monitor; abundância de informação é um convite à superficialidade; violência é resultado de videogames; falta de tempo é culpa de e-mails demais por responder. O estresse da vida moderna, portanto, é culpa... do mundo moderno.
Eu discordo. O problema não está no que o mundo moderno faz com nosso cérebro, e sim nas limitações que nosso cérebro sempre teve --e em como nós nos deixamos sucumbir a tentações e imposições que nos são apresentadas por meio das novas tecnologias.
Para começar, não entendo a queixa de que "a internet" reduziria nosso tempo de atenção sustentada e tornaria nosso conhecimento superficial.
Pelo contrário: jovens, hoje, são capazes de passar horas ininterruptas em frente a videogames ou em sites de busca que permitem a qualquer um se tornar um profundo conhecedor de política internacional ou de biologia das fossas abissais sem sair de casa.
É uma questão do uso que se escolhe fazer de um mundo inteiro agora acessível.
Falando de atenção, aliás: nós sempre fomos limitados a prestar atenção em apenas uma coisa de cada vez. É uma restrição, de fato, mas que tem enormes vantagens, já que a maior parte da informação disponível a cada instante é irrelevante, mesmo.
Por causa dessa limitação, sempre há mais informação disponível do que conseguimos processar --e isso não é culpa da internet. Sabendo dela, quem tem problemas para se manter focado pode se ajudar reduzindo o número de tarefas que disputam sua atenção a cada instante.
O mesmo vale para o e-mail e o estresse associado às demandas que nos fazem. Poder responder imediatamente a e-mails não significa ter que fazê-lo --embora seja fácil sucumbir à pressão externa e à cobrança, no dia seguinte, por uma resposta que, poucos anos atrás, só chegaria pelo correio no prazo de uma semana.
Como hoje a maioria de nós não precisa se estressar sobre a disponibilidade de alimento ou teto, sobra espaço para nos cobrarmos respostas imediatas a todas as demandas eletrônicas que nos fazem.
O problema continua sendo o mesmo: gerenciar estresses. A dificuldade é se convencer de que o mundo não acaba se você não responder a todos os e-mails ainda hoje --e, de preferência, não cobrar isso dos outros.
Suzana Herculano-Houzel
Suzana Herculano-Houzel, carioca, é neurocientista treinada nos Estados Unidos, França e Alemanha, e professora da UFRJ. Escreve às terças, a cada duas semanas, na versão impressa de "Equilíbrio".

domingo, 9 de setembro de 2012

Dificuldade para dormir pode ser sintoma inicial de Alzheimer

Jornal do Brasil


Dormir mal pode ser uma indicação inicial de Alzheimer, aponta um estudo realizado em camundongos na universidade de Washington.
Acredita-se que um componente chave da doença seja a formação de placas de proteína no cérebro.
No estudo divulgado na publicação científica Science Translational Medicine, os pesquisadores mostraram que os camundongos têm o sono interrompido quando essas placas começam a ser formadas.
Especialistas dizem que se a relação entre esses dois fatores for comprovada, a informação pode ser uma importante ferramenta para o tratamento da doença.
É consenso na literatura médica de que quanto mais cedo se descobrem os sinais de Alzheimer, mais efetivo tende a ser o tratamento contra a doença.
Portadores da enfermidade não apresentam problemas de memória ou clareza de pensamento até estágios mais avançados e, quando isso ocorre, partes do cérebro já foram destruídas, dificultando ou mesmo impossibilitando o tratamento.
Os níveis de proteína amilóide oscilam naturalmente, tanto em camundongos quanto pessoas, ao longo de um período de 24 horas. Mas, com o Alzheimer, tais placas são formadas permanentemente.
Na pesquisa conduzida em Washington, os pesquisadores afirmaram que camundongos de hábitos noturnos costumam dormir 40 minutos a cada hora, mas tão logo as placas começam a ser formadas, o período de sono é reduzido para 30 minutos.
"Se estas anormalidades começam cedo assim no desenvolvimento do Alzheimer humano, elas podem nos fornecer um sintoma facilmente perceptível (da doença)", disse um dos pesquisadores, David Holtzman.
Mas descobertas em camundongos nem sempre são aplicáveis a humanos e podem existir outros motivos para a interrupção do sono.
Especialistas dizem que são necessários mais estudos para que se tenha uma visão mais clara do problema.

Ainda Paulo Coelho

Blog da REA


ELOÉSIO PAULO*
Cada dia é mais difícil, neste país, fazer a diferença entre jornalismo e ficção. A prática contemporânea da difusão de informações radicalizou o conceito de edição, que, bem considerado, já era familiar a Homero e São Jerônimo. Para as mentes que entendem melhor os exemplos que os conceitos, falemos um pouco da entrevista do escritor Paulo Coelho ao telejornal Bom Dia, Brasil de sexta-feira, 31 de agosto. Começando por um advérbio mal (ou bem, dependendo do valor que se atribuir a certos conceitos) colocado: ao falar do novo livro do escritor, Chico Pinheiro disse (ou melhor, recitou, pois é isso que faz um apresentador de telejornal) que, apesar de ter sido lançado há um mês, já está na lista dos mais vendidos.
Um texto mais honesto – e por enquanto estamos falando apenas de jornalismo – diria que, mesmo depois de um mês de lançado, o Manuscrito encontrado em Accra aindaestá na lista dos mais vendidos. Afinal, faz parte da obrigação de um jornalista levantar dados sobre o fenômeno que reporta. E qualquer pessoa com um pouco de memória lembra que, quando realmente vendia muitos livros no Brasil, Paulo Coelho chegou a ter três ou quatro títulos na lista dos mais vendidos da Veja. E nas primeiras posições! Ao contrário, seu mais recente livro esteve em sétimo lugar na mesma lista na semana anterior e, na última semana de agosto, entrou já em nono. Não tinha como dar outra: no dia 2 de setembro você abre a Veja e o Manuscrito nem figura mais entre os dez.
Não só esse detalhe, mas toda a reportagem atesta o tipo de tratamento que a imprensa brasileira dispensa a Paulo Coelho ou a qualquer outra famosidade: bajulação simbiótica. Sim, pois ao mesmo tempo que ajuda a promover ainda mais o entrevistado, passa ao público a impressão de que o próprio veículo de comunicação integra uma espécie de maçonaria do sucesso. Cada veículo tem seus queridinhos, mas em alguns casos existe uma espécie de convênio no qual se troca a exposição contínua do famoso por uma quase exclusividade. Caso Globo/Ronaldão, por exemplo. Ou SBT/Gretchen, talvez (a famosa em decadência não é aqui uma casualidade).
O engraçado é que o gancho da matéria nem foi o livro, sobre o qual não se disse uma palavra. Ele seria uma notícia (= fato recente, né?), apesar de atestar um fracasso relativo para quem já ostentou vendagens astronômicas. Mas o motivo da notícia era o sucesso de Paulo Coelho, representado pelo impressionante número de 150 milhões de exemplares vendidos – ao longo de toda a sua carreira literária, que já dura mais de 30 anos. Não é nenhuma novidade, essa marca já é antiga para ser notícia. Além de a informação, colocada dessa forma, parecer mais um tópico de necrológio. Falando claro, tudo indica que a Globo mais uma vez integra o esforço de catapultar as vendas de um escritor cujo livro mais recente, ele mesmo declara na dita entrevista, havia sido um redondo fracasso. O vencedor está só não vendeu lhufas, assim como a tão anunciada e noticiada biografia de Coelho preparada – com requintes de subserviência – pelo também tradicional campeão de vendas Fernando Morais, aquele do livro sobre Cuba, lembram?
Oh, museu de grandes novidades! Que Paulo Coelho mora em Genebra já faz alguns anos, que ele é milionário já faz muitos mais. O que a Globo está de fato noticiando? Que a publicação de um livro do escritor não dispõe mais do aparato publicitário capaz de fechar uma rua em Bolonha, por exemplo. Que a mágica está definhando e cada vez menos leitores se interessam pela mercadoria que ele vende.
Antes de tratar desse ponto, porém, esclareçamos outro. Ninguém venha citar a frase de Tom Jobim sobre o brasileiro ter raiva de quem faz sucesso. Tom Jobim era outros quinhentos. Pelé era outros quinhentos. Ambos eram de fato os melhores no que faziam. E também deixemos de lado a tópica da inveja: qualquer escritor tem inveja do outro que vende milhões, viaja para onde quer e não precisa ter um emprego para sustentar, nas horas vagas, o vício solitário da literatura. Do que ninguém em pleno gozo das faculdades mentais pode ter inveja é do escasso valor da obra paulocoelhana como literatura ou da miséria existencial do escritor, certamente a mesma de muitos outros famosos que vivem sorrindo nas vitrines da pseudofelicidade. Um sujeito que se obriga a ridiculamente declarar na frente das câmaras que “tem um pacto com Deus”. Esqueçam o que eu vivi, embora seja sobre isso, em suma, que eu escrevo.

Ainda antes daquele ponto: bem na época do lançamento do Manuscrito encontrado em Accra, o jornal Folha de S. Paulo dava inadequado destaque à opinião de Paulo Coelho sobre Ulysses, quase unanimemente considerado o maior romance do século XX. Uma opinião rasteira e amadora, que despreza decênios de leituras qualificadas do livro de Joyce para dizer que ele não tem enredo, que a história podia ser resumida numa única frase. Ora, isso vale para a Bíblia! Deus criou o mundo, arrependeu-se e resolveu destruir tudo, mas arrependeu-se do arrependimento. E vale para a Divina Comédia. Um cara visitou o inferno, o purgatório e o paraíso.
Existem escritores e escritores. A maioria deles gostaria de viver do que escreve. Uma boa parte não tem tino comercial, então passa a vida escrevendo o que pensa, lembra e sente, não aquilo que certamente interessará a um grande número de pessoas e, portanto, poderá traduzir-se em vendas e prestígio social. Alguns acertam sem querer e, escrevendo livros nos quais espremem o sumo de si mesmos, acabam fazendo sucesso. Outros logo descobrem uma fórmula para vender e não pensam em outra coisa o resto de suas vidas. Finalmente, há os que solenemente desprezam o público e de propósito escrevem apenas para si e para seus amigos, eventualmente acabando por encantar os detentores das chaves que dão acesso ao Olimpo do cânone. Camões e Joyce viveram na merda, mas serão para sempre a glória dos idiomas em que escreveram. Ser lido de verdade, isso é outra história.
Todas as opções acima são válidas. Escrever, como viver, é muito perigoso. O errado é ficar tentando confundi-las. E a isso tem-se dedicado Paulo Coelho nos últimos dez anos, nos quais o sucesso de sua obra revelou-se cada vez mais um sucesso inercial: ela vende em um número cada vez maior de países devido ao prestígio acarretado pelas vendas iniciais em dois ou três idiomas, porém vende cada vez menos onde primeiro vendeu. A equação é simples como qualquer daquelas pirâmides da riqueza, em que alguém precisa indicar alguns amigos, que indicarão outros de maneira que, matematicamente, logo os primeiros estarão milionários. Ocorre que o número de seres humanos é finito, e ainda um pouco mais o de otários. Nunca é demais lembrar que El Conejo, como executivo de gravadora, foi responsável pela invenção do pseudocigano Sidney Magal. E, isso poucos sabem, inventou no início dos anos 80 um esquema de falsos concursos literários que resultava em antologias publicadas pela editora-fantasma Xogum: todo mundo entrava, desde que pagasse. Esta a verdadeira gênese da atividade especificamente literária do escritor, sendo as letras de música outra conversa que não cabe aqui.
Desde O Zahir (2005) já ficará patente o esgotamento da fórmula “sapiencial” da literatura paulocoelhesca. O enredo daquele romance demonstra um alter ego do autor em plena crise existencial, alguém entrando em parafuso e atirando paranoicamente em todas as direções contra a crítica literária, que em geral se recusa a assinar embaixo da opinião dos leitores – no caso, melhor definidos como fãs. Coelho tentava convencer a si mesmo de que era um grande escritor, não contente com a evidente grandeza mercadológica. Agora, ele sabe melhor do que ninguém que até mesmo esta vem decaindo. Sem dúvida, os milhões acumulados são suficientes para um final de vida bem tranquilo, mas o pecúlio estritamente literário é muito escasso para que o autor sobreviva à própria morte. E essa compensação simbólica talvez seja a mais importante para a maioria dos escritores. Seu reino não é deste mundo, embora não fosse nada mau espojar-se, como faz nosso fenômeno, nas pompas que ele oferta aos bafejados pela sorte.
O Paulo Coelho verdadeiro, sem a edição edulcorante praticada por toda a grande imprensa brasileira, é um escritor de terceira categoria. Em termos puramente literários, sua ficção é muito inferior à de Adelaide Carraro, que nos anos 1960 era considerada subliteratura e hoje só existe na lembrança de tarados extemporâneos e arqueólogos literários.
Mas ele ainda conta com a enorme simpatia que os mídia têm pela famosidade, na maioria das vezes criada por eles mesmos a partir do quase-nada. Dos efeitos práticos dessa simpatia, além da exposição contínua dos eleitos, faz parte também um feroz cerco a quem propõe discutir qualquer assunto a sério. Este escriba aqui, por exemplo, publicou há cinco anos um livro chamado Os 10 pecados de Paulo Coelho e ele foi solenemente ignorado por toda a grande imprensa. Ninguém deu uma linha, nem mesmo para dizer “vejam só, um invejoso tentando demolir o prestígio do grande escritor”. Jornalistas de duas grandes publicações disseram que divulgariam o lançamento, depois tiveram que desdizer, certamente por ter sido a matéria “embargada” (sabia que existe esse termo na grande imprensa?) pelos seus editores. Aliás, editor brasileiro hoje em dia se chama de “publisher”.

É assim, de silêncios e falações, que se faz um mito. Mas os mitos ou têm lastro ou esboroam-se em pouco tempo. Se Deus está morto, imagine Paulo Coelho…

* ELOÉSIO PAULO é professor da Universidade Federal de Alfenas e autor do livro Os 10 pecados de Paulo Coelho (Ed. Horizonte)

terça-feira, 4 de setembro de 2012

ORQUESTRANDO A VIDA: TOCAR E LUTAR, LUTAR E TOCAR


Para ler e divulgar...

APELO DO MAESTRO JONY WILLIAM, PRESIDENTE DA ONG ORQUESTRANDO A VIDA, NO FACEBOOK:

Prezado Amigo, estamos com vários projetos a serem abertos, um deles é em uma comunidade carente de nossa cidade, a “Baleeira”, mas para esse projeto ser aberto, precisamos de alguns instrumentos (cerca de 80 violinos, 10 violoncelos, etc). Precisamos acolher essas crianças que tem sede de aprender música e terem a oportunidade de orquestrar suas vidas.

Nós podemos saciar essa sede, mas também não temos condições de arcar com a compra de tantos instrumentos. Por isso estamos pedindo ajuda.

Colabore com este belíssimo projeto, ajudando a transformar a realidade de muitos outros jovens, fazendo parte da construção de um futuro melhor para todos.

Esse grande espetáculo tem que continuar! Você pode colaborar.Fizemos orçamentos dos instrumentos necessários em algumas lojas de nossa cidade. 

O violino está saindo em torno de R$ 199,00 e o violoncelo de R$ 999,00, nas Lojas “Marcos Music” e “Hudson Music”, fica a critério do doador, onde comprar ou se preferir doar em dinheiro , pode ser pessoalmente na ONG ou em conta bancária. Sendo em conta bancária, enviamos o recibo no valor da doação.

Caso haja interesse , por favor me procure, estarei à disposição.

Desde já agradeço a atenção.  

Gianny Carneiro –Orquestrando a Vida - tel: 22- 9985.2901, 8119.9512 ou no tel do Centro Cultura Musical – 22- 2723.3816

Fonte: Blog Estou procurando O Que Fazer.

Milton Cunha: Evocação e futuro

O Dia


Rio -  Agora ele está procurando a gravação de ‘Moça’, de Wando, para possuir. Posse mesmo: ter, comprar, armazenar o arquivo, guardar preso para sempre dentro do coração, junto com as outras do ritual. Ele, na penumbra, com seu álcool preferido, ouve sem parar, para sempre, músicas que evocam um passado, que eu não sei se para ele era melhor que hoje — minha hipótese é que, naquele tempo, ele sonhava e tinha 20 anos, o futuro pela frente, e agora, aos 50, deve sonhar com o sonho que tinha e que poderia se transformar em real.
Não sei se o sonho sobrou. Só sei que 30 anos se passaram e ele os perdeu para a concretização de algum devaneio que ficou lá. Por isso, ele hoje volta perdido no túnel do tempo. São as pessoas que conhecemos e que ficam evocando coisas lá de trás. Umas, imobilizadas, cultuam o ido. Outras, curtem o breve passeiozinho e voltam. Me lembro de uma vizinha que sábado pegava a enceradeira e deixava a sala lustrando, ouvindo na vitrola sempre o mesmo LP de Martinho, da década passada. Trabalho feito, desligava a vitrola e voltava para curtir o resto do fim de semana. Sua evocação do sonho tinha dia e hora marcada.
Um outro, sempre que pode, volta aos desfiles antigos da Marques de Sapucaí: põe o fone no ouvido e fica cantando os sambas daqueles anos. Canta a pulmões abertos, volta à arquibancada de concreto e descreve em frases curtas como estava, o que fazia, qual o sanduíche que comera, etc e tal. São relâmpagos de prazer absoluto. Sabe que hoje a vida é melhor, só passeia na memória para dizer: éramos pobre, e muito felizes. Depois de tudo, dia amanhecendo, pegavam o ônibus de volta para Maricá. Não há melancolia no cansaço, é tudo pra cima. Será que ele volta para os antigos desfiles para dizer “Graças a Deus, melhorei”? Ou o prazer morre ali mesmo, sem conexão com a vida presente? Que tipo de humanos somos, que precisamos voltar ao passado?
Vendo-os, um preso na quimera do sonho sonhado, e outro liberto pelo prazer de regurgitar o que passou, fico de cabelo em pé comigo mesmo: não tenho tempo para o passado. Não o evoco em sistema, não procuro, senão por motivo rápidos, sempre profissionais. Mas paro andando numa rua se ouço, de repente, canção de outrora. Revivo o cheiro, relembro os personagens mortos na estrutura da memória, e num átimo de segundo sigo em frente me esquecendo do que já tinha me esquecido. Meu presente é total, absoluto, porque depois da tempestade, sempre virá a bonança. Jamais o passado se configura íntegro como o presente, porque ele foi-se, e resta agora a glória de viver o resto de meus dias. 

Paulo César Régis de Souza: Mudanças demográficas e a Previdência Social

O Dia


Rio -  A Organização Mundial da Saúde está desenhando um cenário em que a humanidade ainda desconhece e para o qual suas políticas multilaterais de água limpa, vacinação, esgotamento sanitário e controle de endemias e epidemias foram contributivas. Neste aspecto, o cenário é alentador, pois revela que os seres humanos estão vivendo mais, como consequência da melhoria da qualidade de vida nos países ricos e pobres.
Nos últimos 50 anos, a população brasileira passou de 70 milhões, em 1960, para 190,7 milhões, em 2010, quase triplicando. O crescimento do número de idosos, no entanto, foi ainda maior. Em 1960, 3,3 milhões de brasileiros tinham 60 anos ou mais e representavam 4,7% da população. Em 2000, 14,5 milhões, ou 8,5% do total, estavam nessa faixa etária. Em 2010, o crescimento foi ainda mais expressivo, com 20,5 milhões com 60 anos ou mais, representando 8% da população.
No âmbito da Organização Internacional do Trabalho, o que se pensa é incorporar mais e mais idosos, mesmo aposentados, no mercado, o que chamou de upsizing, para lhes dar ocupação e ajudar a financiar o seu projeto final de vida. O ponto de partida é ampliar para 70 ou 75anos a idade mínima para aposentadoria e adotar mecanismos restritivos nas pensões. Esta alternativa europeia não alcança a África, Ásia e Américas.
Na América Latina, o proselitismo, o assistencialismo, o clientelismo e o populismo desfiguraram a Previdência Social contributiva e fortaleceram a Assistência Social. Por aqui a bomba-relógio da demografia vai produzindo pessoas que vão precisar de proteção social e que não têm condições de contribuir para se aposentar.
Paulo César Régis de Souza é presidente da Associação Nacional dos Servidores da Previdência e da Seguridade Social 

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

A base biológica da espiritualidade

Jornal do BrasilLeonardo Boff*

Assinalamos anteriormente, nestas páginas, que o espírito representa a dimensão do profundo humano. Espiritualidade que dele se deriva é um modo de ser, uma atitude fundamental, vivida na cotidianidade da existência: na arrumação da casa, no trabalho na fábrica, dirigindo o carro, conversando com amigos. De repente, irrompe como que um lampejo de algo mais profundo e inexplicável. É o espírito que se anuncia. As pessoas podem conscientemente se fazer abertas para o profundo e para o espiritual. Então se tornam mais centradas, serenas e irradiadoras  de paz. Propagam estranha vitalidade e entusiasmo porque têm Deus dentro de si.  Este Deus  interior é amor, o qual nas palavras de Dante, no final de cada livro da Divina comédia, “move os céus e as estrelas”,  — e nós acrescentamos: e nossos próprios corações.  
Esta profundidade espiritual, dizem pesquisas científicas, tem uma base biológica. Realizadas do final do século 20 e conduzidas pelos neuropsicólogos MichaelPersinger e Ramachandran, pelo neurologista Wolf Singer e pelo neurolinguista Terrence Deacon, outrossim por técnicos usando scanners modernos para fazer imagens cerebrais, detectaram o que eles chamaram de “o ponto de Deus no cérebro” (God spot ou God module).  
Pessoas que em suas vidas deram espaço significativo ao profundo, ao espiritual, revelam nos lóbulos frontais do cérebro uma excitação detectável acima do normal.  Estes lóbulos são ligados ao sistema límbico, o centro das emoções e valores. Aí se dá uma concentração naquilo que tais cientistas chamaram de “mente mística" (mystical mind).  Tal estimulação do "ponto de Deus" não está ligada a uma ideia ou a algum pensamento objetivo. Ele é ativado sempre e quando a pessoa se sente emotivamente envolvida com os contextos globais que conferem sentido à vida ou quando, de forma autoimplicada, se referem ao Sagrado, a temas religiosos ou diretamente a Deus. Trata-se de emoções e não de ideações, de fatores ligados a experiências de grande sentido que implicam um percepção do Todo e de algo incondicional.  
Estudos mais recentes apontam que pode haver de fato não apenas uma mas  múltiplas regiões do cérebro estimuladas pela experiência de totalidade  e de sacralidade. Isso indica que o "ponto de Deus" pode ser, na verdade, uma "rede de Deus" compreendendo regiões normalmente associadas a emoções profundas e carregadas de significação.  Outros pesquisadores como Eugene D’Aquili e Andrew Newberg chamaram a esta realidade, como temos referido acima, a  ”mente mística”. 
Esta mente mística pertence ao processo mais geral,  antropogênico-cosmogênico. Ela representa uma vantagem evolutiva da espécie homo. Como externamente somos dotado de sentidos pelos quais apreendemos a realidade através do ouvido, do olho, do tato e do olfato, assim seríamos internamente enriquecidos com um órgão pelo qual captamos o Mistério do Mundo, o que nos faz sensíveis àquela Energia poderosa e amorosa que perpassa de ponta a ponta todo o Universo e que subjaz à nossa existência. As tradições religiosas a chamaram de Deus. 
Se ela está em nós  e nós somos parte do Universo, significa então que esta inteligência espiritual constitui uma propriedade do próprio Universo. Só porque está no Universo pôde estar em nós.  É por esta razão que a filósofa e física quântica Danah Zohar e o psiquiatra Ian Marshall afirmam que o ser humano não é apenas dotado de inteligência intelectual e emocional, mas também de inteligência espiritual. Esta é um dado de realidade com o mesmo direito de cidadania que a libido, a autoafirmação, a inteligência e o amor (QS: inteligência espiritual - Record, 2000). 
Hoje faz-se urgente, mais que antes, dar realce à inteligência espiritual. Porque vivemos numa cultura entorpecida pelo materialismo e pelo consumismo induzido. O efeito deste modo de ser é bem relatado pela literatura contemporânea: sentimentos de náusea (Sartre), de estar-de-sobra (Marcel), de alienação (Marx), de “derelição-abandono”(Heidegger), de estrangeiros na própria pátria (Camus). Numa palavra, padecemos de graves doenças de sentido como denunciaram os psicanalistas Rollo May e Victor Frankl. Tudo isso porque embotamos a inteligência espiritual. 
A espiritualidade nos ajuda a sair desta cultura doentia e agonizante. A integração da inteligência espiritual com as outras formas de inteligência — intelectual e emocional — nos abre para uma comunhão amorosa com todas as coisas e para uma atitude de respeito e de reverência face a todos os seres, muito mais ancestrais do que nós.  Só assim, poderemos nos reintegrar no Todo, sentirmo-nos parte da comunidade de vida e acolhidos como companheiros na grande aventura cósmica e planetária. 
* Leonardo Boff, escritor, é teólogo e filósofo. - lboff@leonardoboff.com

Em Campos dos Goytacazes As Coisas Não Mudam...