Rio -  A 5 de agosto de 1954, um atentado ao jornalista Carlos Lacerda, opositor do presidente Getúlio Vargas, na Rua Tonelero, em Copacabana, matou o major da Aeronáutica Rubem Vaz. Os jornalistas Armando Nogueira, Otávio Bonfim e Deodato Maia, que trabalhavam num jornal antigetulista, testemunharam o fato e viram Lacerda caminhar normalmente após os disparos. Mas, no dia seguinte, Lacerda apareceu com a perna engessada, desconsiderando que não se engessa ferimento.
As acusações ao presidente Vargas, que não sabia do atentado, com desrespeitoso discurso de Afonso Arinos no dia 13 de agosto e um inquérito paralelo de militares golpistas da Aeronáutica, levaram o presidente ao suicídio no dia 24 de agosto.
Em 1989, na eliminatória para a copa de 90, o goleiro chileno Rojas promoveu seu factoide no Maracanã. No quarto minuto do segundo tempo, Bebeto cruzou para Careca, que chutou cruzado e fez o gol que classificaria o Brasil. Vinte minutos depois, o goleiro chileno apareceu na tela envolto em fumaça, com a mão no rosto e sangrando. Galvão Bueno exclamava, indignado: “Podia acontecer tudo! Menos isto! Foi atingido por um rojão, fogos de artifício, o arqueiro (sic!) Rojas!”
A atiradora do rojão foi tratada pela mídia como inimiga pública número um. Analisados os fatos, concluiu-se que não se tratava de um rojão, mas de um sinalizador, sem poder ofensivo, e que não tinha atingido o goleiro. Dois meses depois, a Fifa absolveu o Brasil. Ficou provado que Rojas fora ferido no supercílio por uma lâmina escondida na luva e que o médico chileno derramara mercuriocromo no jogador para simular sangramento.
A cada eleição candidatos promovem factoides para ganhar exposição na mídia. Tiros em pneus de carros de candidatos e espancamentos de cabos eleitorais podem ser reais. Mas, em alguns casos, trata-se de fogo amigo, provocado sob encomenda. Pelo Brasil não faltam os atentados cuja apuração concluiria pela falsa comunicação de crime.
João Batista Damasceno é doutor em Ciência Política pela UFF e juiz de Direito. Membro da Associação Juízes para a Democracia