Rio -  A campanha eleitoral às prefeituras tem muito de temperamental. No início, candidatos majoritários prometiam evitar baixarias e se pautar pelos compromissos elencados nos programas partidários. Nos primeiros debates no rádio e na TV, cada candidato se esforçava para convencer o eleitor de que a nova administração municipal (ainda que de um candidato à reeleição) será melhor que a anterior. Haverá avanços no atendimento à saúde, na qualidade da escola pública, no transporte coletivo, na coleta de lixo, etc. Gerenciar bem a cidade é o que importa.
Então surgiram as pesquisas sobre a chance de vitória de cada aspirante a futuro prefeito. Candidatos com índices insuficientes de preferência eleitoral e também aqueles que, à frente no páreo, se sentem ameaçados pelos concorrentes tendem, nesta reta final, a esquecer as promessas administrativas e partir para a agressão verbal, acusações que possam afetar os rivais.
Ocorre que, com raras exceções, acusadores e acusados na esfera municipal são, ainda hoje, aliados na esfera federal. O que revela uma política cada vez mais despolitizada, sem ideologia, atrelada à mera fome de poder.
A questão de fundo dessa conjuntura reside na cultura (a)política que respiramos nesse clima de neoliberalismo. Nenhum candidato questiona o sistema em que vivemos. Já não se fala em aproveitar o período eleitoral para “conscientizar e organizar a classe trabalhadora”.
Estamos todos sendo progressivamente domesticados pela mídia controlada pelo grande capital, de modo a trocar liberdade por segurança, opinião própria por consenso, espírito crítico por venerável anuência à palavra do líder. Corremos o risco de ter, no futuro, uma sociedade de invertebrados políticos.
Escritor, autor de ‘Conversa sobre a fé e a ciência’, em parceria com Marcelo Gleiser