sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Os brasileiros têm uma percepção equivocada da realidade?

por Caroline Oliveira — publicado 07/12/2017 17h01      Carta Capital
O Brasil está entre os primeiros países em que a população menos tem noção da realidade em que vive, segundo a pesquisa “Os Perigos da Percepção”

Intervenção MilitarNo Brasil, acredita-se que a cada 100 pessoas presas, 18% são provenientes de outro país, quando o dado oficial é de apenas 0,4%. Assim como acredita-se que o percentual de garotas entre 15 e 19 anos que dão à luz anualmente é de 48%, mas na realidade é de 6,7%.

As comparações são da pesquisa “Os Perigos da Percepção”, divulgada nesta quarta-feira, 6 de dezembro, e realizada pelo Instituto Ipsos Mori, que mede do Índice de Percepção Equivocada. Dentre 38 nações, os brasileiros são a segunda maior população com uma percepção do contexto da sociedade diferente da realidade do País.
Segundo Danilo Cersosimo, diretor da Ipsos Public Affairs, o deslocamento da realidade a partir da percepção está relacionado à desigualdade no acesso à formação educacional e cultural. “Quando observamos os itens da pesquisa, como população carcerária, imigração e gravidez entre jovens, vemos que a população não se apropria desses temas”, afirma Cersosimo, cuja análise também aponta a falta de acesso à informação como um dos pontos estruturantes deste quadro.
“Existe uma questão crônica de falta de debate, que deveria começar na escola para formar pessoas com mais senso crítico. Qual modelo de sociedade estamos formando? Quais ferramentas o Brasil está provendo para seus cidadãos?”, questiona.

Para realizar a pesquisa, entre setembro e outubro de 2017, mais de 29 mil pessoas ao redor do mundo responderam a perguntas sobre dados da realidade, posteriormente comparados aos números oficiais. Ainda que as perguntas fossem diferentes em 2016, naquele ano o Brasil alcançou a posição do sexto lugar.
“A mudança de perguntas é uma maneira de tornar a pesquisa dinâmica de um ano para o outro. Mas a lógica é a mesma: testar a percepção em relação à realidade, até porque nem todos os dados mudam anualmente. Existem informações do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) que serão atualizadas daqui a dez anos”.
Cersosimo explica que o perigo maior da percepção equivocada é o “tornar-se um cidadão vulnerável a qualquer tipo de discurso e informação que não necessariamente seja correta”, ainda mais em um contexto de novas tecnologias.
“Os Perigos da Percepção”
Segundo a pesquisa, no Brasil acredita-se que num universo de 100 pessoas do sexo feminino, entre 15 e 24 anos, 24% cometeram suicídio. O dado oficial é 4,3%. Quando analisadas pessoas do sexo masculino, a percepção sobe para 25% e o número real desce para 3,3%.
Quando do assunto é acesso a itens eletrônicos. Os brasileiros têm a percepção de que, num universo de 100 pessoas, 47% possuem smartphones. Quando na realidade, o dado oficial cai para 38%.
Quanto a homicídios, 76% dos entrevistados acreditam que atualmente a taxa é maior do que no ano 2000. No entanto, o percentual é igual ao daquele ano.
"Em todos os 38 países analisados, cada população erra muito em sua percepção. Temos percepção mais equivocada em relação ao que é amplamente discutido pela mídia, como mortes por terrorismo, taxas de homicídios, imigração e gravidez de adolescentes", afirmou Bobby Duffy, diretor de pesquisas do instituto, em entrevista à Folha de S. Paulo.
Na mesma esteira de percepção da realidade, uma pesquisa realizada pela Oxfam e o Instituto DataFolha mostra que para 46% dos brasileiros é necessário ter uma renda de pelo menos 20 mil reais para fazer parte dos 10% mais ricos do País. Quando o valor oficial é de apenas três salários mínimos, 2.811 reais.
Perfil
A pesquisa foi realizada online, o que limita o alcance do estudo à percepção da população com acesso à Internet no País. De acordo com a Pnad do IBGE (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), o Brasil alcançou 102,1 milhões de pessoas na Internet. Essa amostragem tende a ser urbana, estar mais presente em capitais e regiões metropolitanas. No entanto, “isso não significa que não tenham sido contempladas cidades do interior”, afirma Cersosimo.

Os números representam “o público conectado, ou seja, da classe A e B majoritariamente. É uma população, digamos, com um perfil de mais acesso à informação, o que é contraditório se olharmos para a posição do Brasil no ranking”
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terça-feira, 5 de dezembro de 2017

"Mídias sociais favoreceram a imbecilidade"

Cortella comenta a cultura do ódio que se disseminou pelo país: na internet todos têm uma opinião, mas poucos têm fundamentos para ancorá-la
Fonte: Carta Capital
Por Renata Martins
A instantaneidade e conectividade das mídias sociais fomentam um ambiente hostil em que todos têm "alguma opinião sobre algo, mas poucos têm fundamentos refletidos e ponderados para iluminar as opiniões", diz o filósofo e professor universitário Mario Sergio Cortella, em entrevista à DW Brasil. 
Cortella é uma figura influente na sociedade brasileira como palestrante, debatedor e comentarista de rádio. Com mais de um milhão de livros vendidos entre seus 33 títulos lançados, Cortella traduz à linguagem coloquial e adapta à realidade atual do Brasil complexos temas filosóficos, existenciais e políticos como "se você não existisse, que falta faria?" ou "o caos político brasileiro". Nesta entrevista, ele analisa como a cultura do ódio é alimentada por "analfabetos políticos".
DW Brasil: Etimologicamente, a palavra "cultura" (culturae, em latim) originou-se a partir de outro termo, colere, que indica o ato de "cultivar". Podemos considerar que a "cultura do ódio", que se vê eclodir na sociedade brasileira, é algo que já estava presente nas relações sociais, vem sendo cultivado e agora encontrou o tempo ideal para a "colheita"?
Mario Sergio Cortella: O ódio é uma possibilidade latente, mas não é obrigatório. Contudo, não havia tanta profusão de ferramentas e plataformas para que fosse manifestado e ampliado como nos tempos atuais no Brasil. A instantaneidade e a conectividade digital permitiram que um ambiente reciprocamente hostil – como o da fratura de posturas nas eleições gerais do final de 2014 – encontrasse um meio de expressão mais veloz e disponível, sem restrição quase de uso e permitindo que tudo o que estava aprisionado no campo do indivíduo revoltado pudesse emergir como expressão de discordância virulenta e de vingança repressiva.
DW: Qual o papel das redes sociais nesse fenômeno? Você concorda com Umberto Eco, para quem as mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis?
MSC: As mídias sociais favoreceram, sim, o despontar de um palanque também para a imbecilidade e a idiotia. Antes delas, era preciso, para se manifestar, algum poder mais presente ou a disponibilidade de uma tribuna mais socialmente evidente. Agora, como efeito colateral da democratização da comunicação, temos o adensamento da comunicação superficial, na qual todos têm (e podem emprestar) alguma opinião sobre algo, mas poucos têm fundamentos refletidos e ponderados para iluminar as opiniões. Como dizia Hegel: "quem exagera o argumento, prejudica a causa".
DW: Por que pensar e se expressar de forma distinta daquilo "com o que eu concordo" passou a ser o estopim para reações de ódio exacerbado no Brasil?
MSC: Uma sociedade antes fragmentada concentrou-se em ser mais dividida. Isto é, dois lados em confronto, agora dispondo de arsenais mais contundentes de propagação e, por outro lado, vitimadas por poderes comunicacionais dos quais desconhece a face e o interesse. O salvacionismo moral sugerido por alguns em meio a uma crise de valores republicanos e à degradação econômica encontrou fácil disseminação. Como se diz em português: "para quem está com o martelo na mão, tudo é prego..."
DW: Como explicar casos de "cidadãos de bem" sendo atores de ações de censura, de extrema intolerância e violência, verbal e física, contra outros cidadãos, igualmente "de bem"?
MSC: O "cidadão de bem", entendido como aquele que não faz o que faz por maldade, é a encarnação do que Bertolt Brecht chamava de "analfabeto político". Isto é, alguém que, portador de boas intenções, age em consonância desconhecida com as más intenções de quem almeja uma situação disruptiva e oportunista.
DW: Quem se beneficia dessa explosão de ódio?
MSC: Todos os "liberticidas" e todos os "democracidas" são herdeiros dessa seara incendiadora que exclui o conflito (divergência de ideias ou posturas) e alimenta o confronto (busca de anulação do divergente).
DW: Aonde essa cultura do ódio e intolerância no país pode nos conduzir? Tempos sombrios estão por vir?
MSC: Tempos sombrios podem vir, sempre. Contudo, podem ser evitados se houver uma aliança autêntica em meio às diferenças entre aqueles e aquelas que recusam a brutalidade simbólica e física como instrumento de convivência. Não há um caminho único para o futuro. Não há a impossibilidade de esse caminho parecer único. Não há inevitabilidade de que um caminho único venha.
DW: "Até nos tempos mais sombrios temos o direito de ver alguma luz", disse a filósofa alemã Hanna Arendt. Qual seria a luz para começar a responder a essa cultura do ódio?  
MSC: A luz mais forte é a da resistência organizada e persistente de quem deseja escapar das trevas e não quer fazê-lo sozinha, nem excluir pessoas e muito menos admitir que impere o malévolo princípio de "cada um por si e Deus por todos". Seria praticando cotidianamente o "um por todos e todos por um". Afinal, como dizia Mahatma Ghandi, "olho por olho, uma hora acaba.

domingo, 26 de novembro de 2017

A Diva Negra

 carioca que enfrentou o racismo e virou cantora lírica

Rio - O sorriso largo da foto ao lado e o carinhoso beijo do tenor francês Albert Lance retratavam a triunfante volta por cima de Maria D'Apparecida. A cantora lírica carioca nascera Maria de Aparecida Marques em 1935 e, até se firmar na difícil e excludente música erudita, enfrentou o racismo sem jamais desistir de seu sonho. D'Apparecida retornava ao Brasil em agosto de 1965 para a montagem da ópera 'Carmen', de Bizet. Eram tantas as expectativas e os elogios que o Theatro Municipal teve de programar uma apresentação extra. Os ingressos se evaporaram em questão de horas.

Maria D'Apparecida e o tenor Albert Lance, EM entrevista na Maison de France, no Rio, um dia da estreia companhia da Opera de Paris no Theatro Municipal, com 'Carmen'Arquivo O Dia

Maria foi criada na Tijuca, por uma família que a adotou. Professora formada no tradicional Instituto de Educação, chegou a lecionar em uma escola pública na Pavuna e ainda trabalhou como modelo e locutora de rádio, funções 'toleradas' para uma jovem negra na segunda metade do século 20. Mas o desejo de cantar era maior. Maria se formou no Conservatório Brasileiro de Música do Rio, apesar de ouvir de muitos que uma negra não poderia ser cantora de ópera do Municipal.
Foi aí que começou a metamorfose de Maria em D'Apparecida. A mezzo-soprano foi em 1961 para a França, onde adotou o nome artístico pomposo que, no entanto, não lhe tirou o amor pela cultura brasileira e ajudou a moldar seu repertório.

Maria aos 30 anosArquivo O Dia

Lá fora, cantou eruditos brasileiros como Villa-Lobos e Ernani Braga. Com o disco 'Chants Brésiliens', com participação do músico Turíbio Santos, conquistou em 1967 o prêmio Orfeu de Ouro da Academia Nacional de Disco Lírico de Paris. Também foi condecorada com a Medalha da Legião de Honra, entregue pelo presidente François Mitterrand.
O jornalista Henrique Marques Porto tinha 15 anos naquele 1965 e estava na plateia com o pai, Marques Porto, então crítico de música do DIA. "Era um desafio, e ela fez uma Carmen absolutamente original, uma Carmen negra, com a sensualidade da mulher carioca", lembra.
Um acidente de carro nos anos 1970, que lhe custou cirurgias em um dos olhos acabou por afastar a cantora da música erudita, mas a aproximou da música popular brasileira. Gravou um disco com Baden Powell em 1977. Ao Brasil voltou algumas vezes, para reencontrar irmãos e sobrinhos,e em uma delas, 1981, foi jurada do desfile das escolas de samba.
O fim de Maria foi melancólico. Ela morreu este ano, em 4 de julho, sozinha em Paris, aos 82 anos. Seu corpo correu o risco de ser sepultado como indigente. O funeral só ocorreu dois meses depois por causa da demora em se localizar um familiar dela no Brasil.
Reportagem da estagiária Luana Dandara, sob supervisão de Eduardo Pierre

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Um País Chamado Desastre

Por Renato Cortez
O mundo está assombrado com o Brasil. Pelo menos esta é a conclusão após a leitura de um pesado artigo publicado no portal The Conversation. O título, em tom grave, dá a medida do assombro: Brasil, desastre à vista. Os motivos? Uma perversa aliança entre o neoliberalismo, a direita religiosa e o Macartismo tropical com a sua surreal paranoia anticomunista visando eleger um presidente em 2018 para terminar de retroceder nos tímidos avanços experimentados pela população brasileira nos últimos 13 anos.
Sustentado pelas afirmações do ex-Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, o artigo diz que o Brasil é atualmente administrado por uma quadrilha criminosa responsável pela deposição de uma presidente eleita de forma legítima em eleições livres e plurais, afirmando categoricamente que Michel Temer participou ativamente da conspiração que resultou no golpe de Estado de 2016. Completa dizendo que este grupo criminoso está disposto a qualquer coisa para se manter no poder.
Um breve inventário dos crimes de Temer e seu grupo político ilustram as afirmações, com destaque para as duas recentes denúncias enviadas pela PGR solicitando autorização da Câmara dos Deputados para dar início às investigações da quadrilha. Os R$ 51 milhões de Geddel e os R$ 500 mil na mala de Rocha Loures, bem como a promiscuidade na liberação de verbas para aliados em troca de proteção, terminam de desenhar a situação.
Em tom irônico, o artigo afirma que Michel Temer não terá a oportunidade de se defender das acusações, visto que literalmente comprou a sua proteção via recursos públicos transferidos para aliados na forma de emendas parlamentares. Aqui, citam 8 bilhões de Euros gastos na operação, aproximadamente R$ 30 bilhões. O afrouxamento na fiscalização do trabalho escravo e a tentativa de entregar as riquezas do nosso subsolo para os estrangeiros completam a saída encontrada pela organização criminosa para fugir da justiça.

Perseguição política

A miopia da imprensa corporativa e de setores do Poder Judiciário não ficaram de fora da análise. Causa espanto aos gringos a desenvoltura com que Aécio Neves desfila pelos espaços, mesmo sendo acusado – com provas – de diversos atos ilícitos praticados ao longo da vida, incluindo os pedidos de propinas a Joesley Batista flagrados em áudios. Em contraste, citam a implacável perseguição ao ex-presidente Lula e a condenação referente ao “triplex do Guarujá”, apontado no artigo como mera denúncia que carece de comprovação.
Assim com foi feito um histórico dos crimes de Temer, o artigo também procura situar quem foi Luis Inácio Lula da Silva para o povo brasileiro. Citam a sua saída da presidência com a aprovação recorde de 87% da população, as mais de 30 milhões de pessoas que deixaram a pobreza absoluta durante os seus governos, o pleno emprego e a inserção do Brasil como player importante nas relações internacionais.
Embora seja alvo de uma sistemática campanha de difamação, o artigo afirma que Lula segue firme como um forte candidato para as eleições de 2018 e que, até o momento, não foi viabilizado um opositor com chances de derrotá-lo. Entretanto, o artigo também afirma que dificilmente Lula terá condições de se candidatar em virtude desta sistemática perseguição política.

Desfile do arbítrio

O vale-tudo proporcionado pela direita conservadora para garantir sucesso nas eleições de 2018 e seus reflexos na sociedade mereceram destaque no artigo. Tendo PSDB e DEM à frente, a composição política acabou por fortalecer a ultradireita com a ascensão de Jair Bolsonaro e seu elogio à tortura, ao racismo, à homofobia e misoginia. O pouco apreço aos preceitos democráticos e a defesa do assassinato sumário contra pessoas acusadas de crimes completam o perfil daquele que materializou o ódio patrocinado por partidos que, incapazes de derrotarem os adversários nas urnas, militam pela sua extinção.
A aceitação deste discurso preconceituoso e assassínio é vista com preocupação, especialmente em face de um temor irracional do “comunismo” manifestado pelos simpáticos aos ideais fascis
tas propagados por Bolsonaro. Movimentos como o MBL são apontados como responsáveis por instigar no seio da sociedade tais ideais extremistas fazendo uso de uma agenda ultra neoliberal e um moralismo ultra conservador, dialogando diretamente com os medos e preconceitos enraizados no senso comum da população. A recente investida contra artistas e obras de arte, arrogando a defesa dos valores da “família tradicional”, seria um exemplo desta conduta.
O avanço do conservadorismo é articulado. Além de ideais extremistas e uma pueril defesa dos bons costumes, iniciativas que visam cercear o pensamento e a sua manifestação seguem avançando dentro da sociedade. A mordaça conhecida como “Escola Sem Partido”, que visa abolir a crítica e a contextualização do conhecimento produzido e propagado nas salas de aula, é uma realidade em muitos municípios. Com o objetivo declarado de impedir a “doutrinação” de nossa juventude, o que de fato está por trás é impedir o debate de temas fundamentais que constituem a vida em sociedade, criando adultos acríticos docilmente adestrados para exploração sistemática do tal “mercado”.
Dando suporte a este cordel de retrocessos, a direita religiosa abarcada sob o nome genérico de “Igrejas Evangélicas”. Com uma pauta muito bem definida, não escondem o que desejam: restringir liberdades, retirar direitos das mulheres e minorias e a destruição do que resta de secularismo no Brasil (se um dia existiu). Ataques às religiões de matriz africana ou o vago combate à “cultura pagã” foram utilizados como balão de ensaio durante as eleições municipais de 2016 no Rio de Janeiro, quando um membro da Igreja Universal do Reino de Deus venceu a disputa para a prefeitura.
Desde então, cresce o movimento que prega trocar a Constituição Federal pela Bíblia. Pasmem, mas pelas ruas da capital carioca podem ser vistos carros ostentado adesivos com esta ideia! Tal situação é ainda mais bizarra se lembrarmos que os funcionários públicos do Rio de Janeiro há meses não recebem seus salários em dia.

Desastre iminente

O artigo finaliza com um panorama nada animador para o Brasil. Cita a fragmentação da esquerda e as manobras empreendidas pela organização criminosa instalada no Palácio do Planalto e os partidos políticos que a sustentam no Congresso Nacional para se perpetuarem no poder e fugirem das investigações de seus crimes.
A operação Lava-Jato, em curso desde 2014, já deu sinais de que tem como única preocupação criminalizar a Esquerda e lideranças políticas do campo progressista. O pouco apreço do povo brasileiro à Democracia e a inclinação por soluções fáceis empreendidas pelo herói nacional da vez, somadas às sucessivas revelações de escândalos e a seletividade na punição de corruptos e corruptores, podem levar a população brasileira a ser seduzida pelo discurso vazio e moralista que toma força na sociedade.
Mas ao contrário da Itália, que serve de inspiração para a inquisição irradiada desde Curitiba e que resultou em uma figura controversa como Berlusconi, para dizer o mínimo, por aqui esta política do vale-tudo empreendida pelos derrotados de 2014 pode gerar como resultado uma aliança entre o neoliberalismo mais agressivo e o evangelismo mais hipócrita que poderiam existir.
Que as deusas tenham piedade do Brasil.
Fonte: mídia Ninja

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Canalhice

Agora de manhã, no Bom Dia Brasil, a Globo sendo a Globo, defendendo com veemência a reforma da previdência, alegando que será boa para os mais pobres. Isso depois de , estes dias, mostrar uma reportagem colocando a culpa da crise nas contas públicas nos salários pagos aos funcionários públicos. É, não existe corrupção nem desmandos com o dinheiro publico.
Imagine um trabalhador braçal ter que trabalhar 40 anos -para se aposentar. Não se aposentará nunca. 
Na realidade a reforma é o fim da aposentadoria do brasileiro. Seguem as perguntas: políticos se aposentam com quantos mandatos mesmo? Quantos assessores cada deputado mantém com o dinheiro público? Quanto do dinheiro público é gasto com os auxílios inúmeros que os deputados recebem? Quanto o "presidente" Temer já gastou para conseguir a aprovação da reforma trabalhista e da reforma da presidência?

domingo, 19 de novembro de 2017

O PODER DA IGNORÂNCIA NA MANUTENÇÃO DO STATUS QUO

Disseram certa feita que podem tirar tudo de nós, menos o nosso conhecimento. A capacidade que o ser humano tem de refletir criticamente sobre a vida é o que determinada em grande medida a sua liberdade. Dito isso, caso o indivíduo esteja preso em círculos de pensamentos que não são seus, isto é, seja tão somente um reprodutor de um discurso que lhe é passado, torna-se impossível ser livre e, consequentemente, será um escravo do sistema.
Na contemporaneidade, a escravidão não se dá nos moldes antigos, baseada na coerção e na força, mas sim, no controle do pensamento, alienando o indivíduo e transformando-o em um autômato incapaz de escrever uma linha da sua vida com suas próprias mãos. Sendo assim, a classe dominante cria amarras invisíveis, a fim de que os indivíduos se mantenham subjugados sem que percebam a prisão que os envolve.
Essa cegueira se dá em virtude da falta de reflexão crítica que os indivíduos possuem, de modo que se torna muito fácil moldá-los à realidade que os dominantes julgam como necessária à manutenção do status quo. O enquadramento ao modus vivendi determinado pela classe dominante se dá pelo que George Orwell chama de controle da realidade ou duplipensar que “quer dizer a capacidade de guardar simultaneamente na cabeça duas crenças contraditórias, e aceitar ambas”.
Dessa forma, a realidade é construída pelos detentores do poder nas relações de força na sociedade de maneira que ela seja modificada e ajustada de acordo com os interesses do momento histórico. Os dominados ou a “prole”, como Orwell prefere, apenas aceita a verdade imposta, ainda que esta seja contraditória e vise à manutenção das discrepâncias sociais.
Posto que não há como aceitar duas crenças simultaneamente, os indivíduos, confusos, não conseguem entender a verdade por trás do que lhes passam como realidade, de modo que permanecem em uma ignorância contínua. Essa ignorância é apresentada como sinônimo de força pelo Partido na obra 1984. Não é preciso dizer que o lema do Partido realmente produza força, mas apenas para os que detêm o monopólio dela nas micro-relações de poder no âmbito social.
Estendendo à nossa realidade, o Partido pode ser lido não somente como a classe política, mas como todos aqueles que se propõem a subjugar as classes inferiores a fim de manterem-se no poder. Para tanto, fazem de tudo para que sejamos massa de manobra em suas mãos, nos modelando de acordo com os seus interesses. Somos despersonalizados para que não consigamos exercer a capacidade reflexiva, o que levaria a questionar as mazelas sociais.
O pensamento, dessa maneira, é controlado através de elementos como a mídia e a publicidade. Exerce-se, portanto, o poder da polícia do pensamento, como aparece no livro, mas sem o uso da coerção física, como já foi dito. Utilizam-se outros elementos, como a sedução da sociedade de consumo, com as suas inúmeras fórmulas de felicidade e prazer apresentadas nas propagandas.
Todavia, o controle do pensamento se dá do mesmo modo, sendo, inclusive, mais eficaz, visto que inexistindo uma coerção física para os que se afastam da linha, há um trabalho muito mais forte de sedução, para que voluntariamente os indivíduos tornem-se servos e abdiquem do seu direito de pensar.
Assim, excetuando poucos indivíduos que ousam questionar o sistema e procuram exercer a sua capacidade reflexiva, a grande maioria está totalmente adequada ao sistema, vivendo felizes em sua ignorância. Vivendo vidas mecânicas, são incapazes de tirar as vendas que os dominantes, sob os seus consentimentos, colocam em seus olhos.
Ainda que as condições sejam difíceis, há a possibilidade de não se condicionar a esse sistema opressor. Todavia, cada vez mais facilmente as pessoas têm aceitado as crenças contraditórias da classe dominante, permanecendo imersas na sua pobreza e ignorância, mesmo que não percebam ou não queiram perceber a venda nos seus olhos.
Embora livres e pensativos, estamos condicionados a viver de forma servil, sendo oprimidos por um sistema que apenas visa ao bem-estar de poucos. No entanto, se mudarmos as condições, podemos mudar as respostas e, assim, tomaremos as rédeas das nossas vidas, podendo pensar por nós mesmos e não sendo meros reprodutores de um discurso opressor e hierarquizante.
Quando aprendermos, como diz Orwell, que a verdade não é questão de estatística, seremos seres pensantes e como indivíduos capazes de produzir o próprio conhecimento, seremos livres, pois deixaremos de ser condicionados e ignorantes, uma vez que:
“De maneira permanente, uma sociedade hierárquica só é possível na base da pobreza e da ignorância.”
Por Erick Morais


domingo, 12 de novembro de 2017

"O Brasil pode estar caminhando para uma fase que no futuro chamaremos de "2º Período Colonial", no qual a soberania popular foi substituída pela partilha do país entre as grandes corporações estrangeiras, a escravidão foi reimplantada de forma mais sofisticada e as igrejas fundamentalistas passaram a doutrinar ideologicamente a massa emburrecida pelo jogo de aparências das redes sociais.
Da mesma forma que o Chile de Pinochet foi o laboratório do neoliberalismo via "doutrina de choque", o Brasil de Temer é um tubo de ensaio para um novo colonialismo com a destruição dos Estados e nações, tendo o consentimento das oligarquias locais que rejeitaram um projeto de país e que aceitaram serem sócias menores do grande capital apátrida.
Enquanto isso, grupos privados bilionários financiam "movimentos" de direita para convencerem pessoas desinformadas a acreditarem que a agenda dos bilionários de privatização e desmanche do Estado é boa para a população.
Agora, até grupos separatistas aparecem como se surgissem por geração espontânea, sem sequer ser investigado quem os financia.
O Brasil sangra enquanto sua riqueza é roubada e seu povo explorado. Proliferam oportunistas de toda espécie e a resistência está no Facebook, preocupada em saber quantas curtidas terá, sem se ligar que esta rede social é parte central no processo de controle social e ideológico das massas.
Se tenho esperanças? Sim, por que enxergo as coisas numa perspectiva histórica. Mas já estou preparado para viver uma idade das trevas e a dar a contribuição que for possível para revertê-la no longo prazo."
Thomas de Toledo
Professor de Relações Internacionais da UNIP, historiador pela USP, mestre em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp e especialista em BRICS

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Retrocesso

Após três anos de ausência minha esperança era, após o período, retornar com notícias melhores, pessoas melhores, cenário melhor. Doce ilusão. Nunca vi um período tão pobre no Brasil, e infelizmente não falo apenas do setor econômico.
Eu, sinceramente, não sei se o que houve foi a derrubada das barreiras que represavam a falta de educação, o racismo, o machismo; ou se parcela do povo brasileiro mudou para pior.
O que vemos são pessoas incapazes do diálogo, com a certeza de que a opinião individual é a única válida; homens convictos de que matar uma mulher que se nega a ele é extremamente válido. Os que não chegam a tanto espancam e ameaçam para a manutenção de suas vontades. De qualquer modo, violência é violência.
Ser diferente virou também motivo para a ereção dos tribunais populares: gordos, deficientes, homossexuais, transexuais, negros, todos são vistos como o alvo fácil da vez. E o pior que tudo isso em um país no qual boa parte da população se afirma cristã. Não consigo localizar em nenhuma parte dos evangelhos pregação cristã para a morte de gays, discriminação de negros, destruição de locais religiosos de culto diferente do do agressor, para a pena de morte de bandidos (destaque-se os negros e pobres, pois ninguém fala em pena de morte para os bandidos de colarinho brancos, para os filhos da elite).
Sendo assim, contraditoriamente, não me causa espanto ouvir pessoas que se dizem cristãs, ouvir pessoas que são, teoricamente esclarecidas, declarando seu voto em Bolsonaro, ou pedindo o retorno da ditadura. A opção pelo viés autoritário é a opção dos preguiçosos, daqueles que não querem se dar ao trabalho de lutar pelos seus direitos, lutar contra a corrupção, analisar a política de forma profunda antes de fazer suas escolhas. O segredo é o seguinte: se voltar a ditadura e as coisas não derem certo,a culpa não é minha, mas do governo. Afinal, é uma ditadura. Se Bolsonaro for eleito, idem, afinal, não tenham dúvida, será um governo autoritário. Ninguém assume nada, assim como os que bateram panelas não assumiram o baticum, assim como os que fizeram campanha para Aécio "nunca a fizeram".
Ah, você então é petralha. Nem petralha nem coxinha. Enquanto os bobos perdem tempo nessa batalha patrocinada pela mídia, os políticos "deitam e rolam". Perde-se tempo, e mais uma vez ninguém analisa profundamente a situação.
Agora, se a eleição do ano que vem se polarizar, use a cabeça. Vote no candidato com histórico favorável ao trabalhador ( a não ser que você seja banqueiro, empresário ou coisa que o valha).

terça-feira, 5 de agosto de 2014