quarta-feira, 30 de outubro de 2013

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Geografando o 6: A Capacidade de Cada Um

Geografando o 6: A Capacidade de Cada Um: Eis dois vídeos que mostram a importância do professor para a sociedade e sua formação: a campanha do governo federal e, mais significativa...

Blog do Cláudio Andrade: Vídeo com voz atribuída à secretária de educação c...

Blog do Cláudio Andrade: Vídeo com voz atribuída à secretária de educação c...: "Os profissionais da educação de Campos estão revoltados com a publicação de um vídeo na internet onde eles são chamados de idiotas....

A difícil arte de ser ateu

Blog da REA

MARCELO GRUMAN*
Quando meu avô materno morreu, em 2000, eu, sentado no sofá de sua casa, tentando assimilar a perda de alguém que eu admirava muitíssimo e que deixava um vazio na minha vida, ouvi de uma vizinha, cuja intenção era consolar-me, uma frase curta do tipo “Deus quis assim” ou “ele foi pra um lugar melhor”. Tempos depois, conversando com um rabino ortodoxo na época em que realizava trabalho de campo para minha dissertação de mestrado, quase fui fazer companhia a meu avô, naquele “lugar melhor”, ao ouvir que o assassinato dos judeus pelos nazistas, incluindo bebês recém-nascidos, era fruto de pecados neste ou noutro mundo. E Deus puniu a todos, perdoar pra quê, escreveu não leu, o pau comeu. Em ambos os casos, por culpa da educação recebida em casa, não respondi à altura os insultos.
Num pequeno texto, intitulado Abraão e Isaque, Luis Fernando Veríssimo imagina um diálogo entre pai e filho, em que o filho, magoado, questiona a submissão do pai e sua disposição de imolá-lo porque alguém ou algo mandou que assim procedesse. Um trecho do diálogo segue assim:
- O fio do cutelo encostou na minha garganta.
- Mas eu não o matei!
- Porque Deus não deixou. Porque Deus mudou de ideia.
- Meu filho…
- Eu sei. Faz muito tempo. É melhor esquecer. Vou conseguir sobreviver às minhas memórias e aos meus pesadelos. Como você sobreviveu ao que sabe.
- O que eu sei?
- Que deve tudo que tem, seu poder e sua glória, a um Deus volúvel. A um Deus incerto do que faz. A um Deus que volta atrás. A um Deus inconfiável.
- Ele estava me testando.
- Então é pior. Um Deus frívolo e cruel.
Frívolo, cruel e, acrescento eu, sádico. Por outro lado, a atitude do pai desnaturado é perfeitamente aceitável se admitirmos que o outro lado da moeda seja a proteção contra o Mal, o conforto de saber que o destino já está traçado, que não se tem responsabilidade sobre ele por mais que o discurso religioso confira ao livre arbítrio um status positivo. A onisciência e a onipotência divina, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, foi magistralmente transposta para o plano humano por Woody Allen, naquela cena antológica em que a mãe judia (quem mais?) aparece como um fantasma sobrevoando a cidade de Nova Iorque. Quem não se lembra do susto, medo, alegria e alívio do personagem que vê sua mãe desaparecer no meio de um show de mágica?
A alternativa ao outro mundo é dolorosa. Romeu e Julieta representam bem a transformação de uma sociedade até então construída única e exclusivamente sobre a Tradição, sobre a reprodução de papéis sociais, onde o presente reproduz o passado e antecipa o futuro. A Tradição significa, tomando emprestado de Sartre uma expressão usada para caracterizar o pensamento racista, “a constância da pedra”, é a imutabilidade, é a chatice em estado puro porque não abre espaço para o livre pensar, para o questionamento.
A tragédia dos Montecchio e Capuleto fala de um momento em que o indivíduo enquanto valor, não apenas corpo com fronteiras físicas bem definidas, passa a dar as cartas, a construir sua história, é quando podemos começar a falar de projeto de vida, de biografia, de construção de identidades. Na realidade, a própria noção de identidade só faz sentido na Modernidade, porque diz respeito à forma como nos vemos e queremos ser vistos pelos outros, e esta definição acontece no processo de interação, não é dada a priori. Aqui, sim, podemos falar de livre arbítrio e das consequências de nossos atos, boas ou más, cuja punição acontece de forma mais pungente na nossa cabeça (tirando, claro, crimes passíveis de punição pelo sistema judiciário).
A Modernidade significa a “psicologização” da vida, a crescente angústia pela indeterminação do dia de amanhã, desde questões triviais como a necessidade de escolhermos o que comer no café da manhã e que roupa vestir para ir ao trabalho até decisões um pouco mais importantes, como a escolha da pessoa com quem se quer dividir o mesmo teto, decisão angustiante ainda que a escolha, condizente com os tempos modernos, não seja inevitavelmente definitiva apesar dos votos recitados ad nauseam na troca das alianças. A escolha do parceiro também é diária, e a eventual separação não é isenta de sofrimento.
A Modernidade abriu espaço e legitimou a existência daqueles que não acreditam na existência de um ser, entidade ou força superior independente de nossa vontade. Ela permitiu que Nietzsche, apesar de não fazer a apologia do ateísmo, chegasse à conclusão de que “Deus está morto”, como observamos nesta passagem de A Gaia Ciência:
Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar, nós os algozes dos algozes? O que o mundo possuiu, até agora, de mais sagrado e mais poderoso sucumbiu exangue aos golpes das nossas lâminas. Quem nos limpará desse sangue? Qual a água que nos lavará? Que solenidades de desagravo, que jogos sagrados haveremos de inventar? A grandiosidade deste ato não será demasiada para nós? Não teremos de nos tornar nós próprios deuses, para parecermos apenas dignos dele? Nunca existiu ato mais grandioso, e, quem quer que nasça depois de nós, passará a fazer parte, mercê deste ato, de uma história superior a toda a história até hoje!
Abriu espaço aos ateus. Ser ateu no Brasil não é fácil, a declaração provoca reações que vão do espanto ao medo, passando pela incredulidade (crentes incrédulos?) como se o interlocutor fosse dotado de rabo e chifres (talvez seja…), um fruto exótico ou podre, uma anormalidade pensante. Ser ateu no Brasil significa ser parte de 0,4% da população, segundo os últimos números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Talvez seja possível reivindicar cotas, sob o manto da intolerância, da perseguição, do bullying.
Os ateus sofrem bullying cotidianamente ao ligarem a TV aberta, concessão estatal, e se depararem, dependendo da hora do dia, com pregações religiosas em metade dos canais disponíveis; quando, num final de domingo melancólico, são obrigados a ouvir, de dentro de suas casas, os cantos e orações da igreja que fica bem longe, mas dotada de potentes alto-falantes; quando são obrigados a ouvir de um interlocutor que o parceiro teve de acabar com o relacionamento porque, sendo o interlocutor de outra religião, estaria fadado a viver em companhia do Coisa Ruim; quando veem grupos obscurantistas e intolerantes tomando de assalto o Congresso Nacional; quando tem cerceado seu direito constitucional de ir e vir, por conta de eventos religiosos propositadamente mal planejados com o intuito de “dar mídia”.
Devo confessar que invejo aqueles que creem, que tem em quê se apegar nos momentos difíceis, nunca estão sós. Quero ter fé, mas não consigo. Serei um caso perdido? Talvez parte da humanidade tenha substituído Deus pelos psicanalistas, talvez os psicanalistas sejam os deuses modernos, trocaríamos seis por meia dúzia e não aliviaríamos nossas angústias, nosso mal-estar.
Pensando bem, é preferível uma relação em que uma das partes possa ser demitida, com a qual temos uma relação afetiva, sim, mas, principalmente, pecuniária, do que uma relação em que uma das partes tem o direito de vida e morte sobre a outra. O difícil vai ser explicar pro meu filho que, depois daqui, voltamos ao pó.

* MARCELO GRUMAN é Doutor em Antropologia Social pelo PPGAS/MN/UFRJ, Antropólogo e Especialista em Gestão de Políticas Públicas de Cultura.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O legado que o papa Francisco nos deixou

Leobardo Boff
Jornal do Brasil

Não é fácil em poucas palavras resumir os pontos relevantes das intervenções do papa Francisco no Brasil. Enfatizo alguns com o risco de omitir outros importantes. O legado maior foi a figura do papa Francisco: um humilde servidor da fé, despojado de todo aparato, tocando e deixando-se tocar, falando a linguagem dos jovens e as verdades com sinceridade. Representou o mais nobre dos líderes, o líder servidor que não faz referência a si mesmo mas aos outros com carinho e cuidado, evocando esperança e confiança no futuro. 
No campo político encontrou um país conturbado pelas multitudinárias manifestações dos jovens. Defendeu sua utopia e o direito de serem ouvidos. Apresentou uma visão humanística na política, na economia e na erradicação da pobreza. Criticou duramente um sistema financeiro que descarta os dois polos: os idosos, porque não produzem, e os jovens não criando-lhes postos de trabalho. Os idosos deixam de repassar sua experiência, e os jovens são privados de construir o futuro. Uma sociedade assim pode desabar.
O tema da ética era recorrente, fundada na dignidade transcendente da pessoa. Com referência à democracia cunhou a expressão “humildade social”, que é falar olho a olho, entre iguais, e não de cima para baixo. Entre a indiferença egoista e o protesto violento apontou uma opção sempre possível: o diálogo construtivo. Três categorias sempre voltavam: o diálogo como mediação para os conflitos, a proximidade para com as pessoas para além de todas as burocracias e a cultura do encontro. Todos têm algo a dar e algo a receber. “Hoje ou se aposta na cultura do encontro ou todos perdem”.
No campo religioso foi mais fecundo e direto. Reconheceu que ”jovens perderam a fé na Igreja e até mesmo em Deus pela incoerência de cristãos e de ministros do evangelho”. O discurso mais severo reservou-o para os bispos e cardeais latino-americanos (Celam). Reconheceu que a Igreja, e ele mesmo se incluíu, está atrasada em suas formas de presença no mundo. Conclamou não apenas a abrir as portas para todos mas a saírem em direção do mundo e para as “periferias existenciais”. Criticou a “psicologia principesca” de membros da hierarquia. Eles têm que ser pobres interior e exteriormente. Dois eixos devem estruturar a pastoral: a proximidade do povo, para além das preocupações organizativas, e o encontro marcado de carinho e ternura. Fala até da necessária “revolução da ternura”, coisa que ele mostrou viver pessoalmente. Entende a Igreja como mãe que abraça, acaricia e beija. Essa atitude materna os pastores devem cultivar para com os fiéis. A Igreja não pode ser controladora e administradora mas servidora e facilitadora. Enfaticamente, afirma que a posição do pastor não é a posição do centro mas a das periferias. Deu centralidade aos leigos para junto com os pastores decidirem os caminhos da comunidade.
O diálogo com o mundo moderno e a diversidade religiosa: o papa Francisco não mostrou nenhum medo face ao mundo moderno; quer trocar e inserir-se num profundo sentido de solidariedade para com os privados de comida e de educação. Todas as confissões devem trabalhar juntas em favor das vítimas. Pouco importa se o atendimento é feito por um cristão, um judeu, um muçulmano ou outro. O decisivo é que o pobre tenha acesso à comida e à educação. Nenhuma confissão pode  dormir tranquila enquanto os deserdados deste mundo estiverem gritando. Aqui vige um ecumenismo de missão, todos juntos, a serviço dos outros.
Aos jovens dedicou palavras de entusiasmo e de esperança. Contra uma cultura do consumismo e da desumanização convocou-os a serem “revolucionários” e  “rebeldes”. É pela janela dos jovens que entra o futuro. Criticou o restauracionismo de alguns grupos e o utopismo de outros. Colocou o acento no hoje: ”no hoje se joga a vida eterna”. Sempre os desafiou para o entusiasmo, para a criatividade e para irem pelo mundo espalhando a mensagem generosa e humanitária de Jesus, o Deus que realizou a proximidade e marcou encontro com os seres humanos.
Na celebração final havia mais de três milhões de pessoas, alegres, festivas e na mais absoluta ordem. Desceu um aura de bem-querença, de paz e de felicidade sobre o Rio de Janeiro e sobre o Brasil, que só podia ser a irradiação do terno e fraterno  papa Francisco e do Sentimento Divino que ele soube transmitir.
* Leonardo Boff escreveu 'Francisco de Assis e Francisco de Roma: Uma nova primavera na Igreja?' (Editora Mar de Ideias, Rio, 2013).

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Os cadáveres (e os fantasmas) insepultos da ditadura militar

Blog da REA

ANGELO PRIORI*
monumento
Um espectro incômodo e persistente acompanha a política e a sociedade brasileira atualmente. De vez em quando ele aparece nas páginas dos jornais, nas ondas dos rádios, nas telas das tevês e agiganta-se nas páginas da internet. Trata-se do “fantasma” dos mortos e desaparecidos políticos em confronto com a Ditadura Militar brasileira (1964-1985). Agora mesmo, ele reaparece com toda a força, trazendo consigo justificativas, debates, polêmicas, discursos e notas informativas (oficiais ou não), alimentando paixões de um lado e de outro, despertando sofrimentos e feridas que estavam lentamente se cicatrizando, reascendendo a chama por justiça e dignidade.

E reaparece de forma solene, com pompas e circunstâncias, no salão azul do Palácio do Planalto. Falo do lançamento do livro-relato, produzido pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos, através da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos: Direito à memória e à verdade.[1]
A Comissão Especial sobre os Mortos e Desaparecidos Políticos foi instituída pela Lei No. 9.140, de 04 de dezembro de 1995. O objetivo principal da comissão tinha como ponto de partida o reconhecimento de pessoas que participaram ou foram acusadas de participação em atividades políticas no período de 02 de setembro de 1961 a 15 de agosto de 1979 [2], ou que faleceram em circunstâncias não naturais, em dependências policiais ou assemelhadas do Estado. Outros objetivos da comissão eram de envidar esforços para localizar as pessoas (ou os restos mortais) desaparecidas, além de emitir pareceres sobre possíveis requerimentos de familiares que solicitavam indenização. A lei No. 9.140 ainda reconhecia, oficialmente, 136 pessoas, que tinham sido mortas por participar ou acusadas de participar em atividades políticas no período estabelecido.[3]
Posteriormente foram publicadas mais duas leis sobre o assunto. A Lei No. 10.536, de 14 de agosto de 2002, que autorizou a Comissão Especial a ampliar o reconhecimento das pessoas que tivessem participado ou sido acusadas de participação nas atividades políticas no período de 02 de setembro de 1961 até 05 de outubro de 1988 (data da publicação da nova Constituição Brasileira). E a Lei No. 10.815, de 01 de junho de 2004, que ampliou os objetivos da Comissão Especial, autorizando que a mesma emitisse pareceres sobre as pessoas falecidas em virtude de repressão policial em manifestações públicas ou em conflitos com agentes do poder público; e ainda que tenham falecidas em decorrência de suicídio praticado na iminência de serem presas ou por seqüelas psicológicas resultantes de atos ou torturas praticados por agentes públicos.
O livro traz o relato do trabalho da Comissão Especial, que durante os 11 anos desde a sua instituição, analisou 339 casos de mortos e desaparecidos, além dos 136 casos constantes no anexo I da Lei No. 9.140, sendo que um deles foi excluído da relação, conforme informado na nota número 3. Além desses 474 casos, o livro traz informações de mais 30 pessoas (a grande maioria camponesas) que desapareceram em circunstâncias não esclarecidas durante a repressão à Guerrilha do Araguaia.
O livro está organizado cronologicamente. Num primeiro momento, faz uma breve análise dos casos de pessoas mortas ou desaparecidas antes do golpe militar de 1964. Depois, dedica mais de 2/3 das suas páginas para apresentar as vítimas da ditadura, entre os anos de 1969 e 1985. O livro rompe com o estilo cronológico em apenas dois momentos: quando apresenta as vítimas da Guerrilha do Araguaia, que faz em um único conjunto (p. 195 a 271) e quando dedica algumas páginas aos argentinos desaparecidos no Brasil.
Geralmente faz um breve histórico de cada pessoa, informando a data de nascimento e a data da morte ou do desaparecimento, qual tipo de militância que essa pessoa exercia (em partidos ou organizações de esquerda, em sindicatos, nas igrejas, nas organizações camponeses etc.). No breve histórico que apresenta de cada pessoa, o livro procura mostrar um pouco da história de vida e identificar as fontes que sustentam as suas atividades políticas e, conforme o caso, das sevícias e torturas sofridas pelos órgãos de repressão da Ditadura Militar.
É importante frisar que o livro também reconhece que os enfrentamentos entre os órgãos de repressão e os militantes políticos de oposição ao regime também produziram vítimas entre os militares. Embora uma coisa seja certa: estes tiveram a facilidade em recolher os seus mortos e sepultá-los com todas as honras e reverências imanentes desses casos.
Na realidade, do ponto de vista das informações, o livro não traz nenhuma novidade. Os casos já são sobejamente conhecidos e já foram detalhados em outras publicações, como por exemplo, nos livros: Brasil Nunca Mais e Dos filhos deste solo.[4] A única novidade e, diga-se, extremamente importante e histórica, é a publicação ser oficial. Ou seja, o livro-relato é um documento oficial produzido pelo Estado, reconhecendo que houve mortes e desaparecidos políticos durante a ditadura militar; e que essas “mortes” e “desaparecimentos” foram frutos das ações violentas e sanguinárias do Estado.
Como muito bem enfatizaram os editores do livro na apresentação [5], a publicação de um documento como esse mostra, de um lado, o fortalecimento das instituições democráticas do país nas últimas duas décadas, mas de outro, a dificuldade em superar os obstáculos de se evidenciar a verdade e os acontecimentos que ocorreram nos porões da ditadura e as lamentáveis atrocidades que ocorreram no nosso período recente.
O livro, evidentemente, é um primeiro passo importante. Mas só um primeiro passo. Existem dois outros que são profundamente necessários. Um, do ponto de vista humanitário: proceder a localização dos restos mortais das pessoas desaparecidas e entregá-los aos familiares, para que estes possam realizar os seus rituais religiosos de enterrar os seus entes queridos. E outro, do ponto de vista histórico e social: a abertura dos arquivos da repressão.
Uma sociedade que está construindo a sua democracia às duras penas, como a nossa, não tem o direito de esconder o seu passado. Ele precisa constantemente ser revisitado, estudado, esquadrinhado, para que os nossos erros sejam purgados, para que a nossa memória seja preservada, e para que, à luz da nossa história, possamos construir um futuro melhor. E não se trata apenas de buscar a abertura dos arquivos da ditadura militar, fundamental, enfim, para entender a nossa história recente. Existem muitos arquivos, públicos e privados, que precisam ser abertos.
Os arquivos militares guardam mais coisas do que apenas os acontecimentos durante o período da ditadura. Só para citar um exemplo que conheço bem: o arquivo (ou o depósito) da 5a. Região Militar, sediada em Curitiba, tem informações relevantes sobre a Guerra do Contestado, sobre as revoltas camponesas que ocorreram no Estado do Paraná e em Santa Catarina, sobre o período do Estado Novo, sobre a presença de italianos, japoneses e alemães durante o período da segunda Guerra Mundial, além evidentemente, das ações dos movimentos sociais e políticos durante o período militar. Mas essas informações não estão disponibilizadas para a sociedade. Um outro caso, são os arquivos das polícias políticas de diversos estados do país, que ainda não foram franqueados à sociedade e aos pesquisadores.
E por fim, mais um exemplo: quantas dificuldades os historiadores encontram para acessar os arquivos judiciais de cidades de zonas de fronteiras (negados, geralmente por juízes inescrupulosos), que revelam crimes do cotidiano, mas também a violência contra os camponeses, os posseiros e as populações pobres que labutam e lutam pela terra?
Trata-se, evidentemente, de um debate mais amplo e necessário. Nem tanto aos militares, que criticam o debate sobre a abertura desses arquivos, vendo-o como uma forma de vingança da “esquerda” ou, como eles rotulam: para facilitar “a indústria da indenização de criminosos políticos” [6]; e nem tanto a algumas organizações (entre elas a dos familiares que, aliás, tem os seus motivos) que acham que a punição dos culpados resolve tudo. A abertura dos arquivos é um direito da sociedade, que interessa, sobretudo, à política e à história. Não precisamos temer os nossos fantasmas. Cabe-nos o direito de exorcizá-los a favor de uma sociedade mais humana e democrática.

* 
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ANGELO PRIORI é Professor Associado da Universidade Estadual de Maringá, Paraná, Programa de Pós-Graduação em História e no Departamento de História; Doutor em História e Sociedade pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Publicado originalmente na REA, nº 76, setembro de 2007, disponível emhttp://www.espacoacademico.com.br/076/76priori.htm
[1] Brasil. Secretaria Especial dos Direitos Humanos. Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos.Direito à memória e à verdade. Brasília: SEDH, 2007. 400p. Livro lançado oficialmente no Palácio do Planalto, no dia 29 de agosto de 2007. A versão eletrônica do livro pode ser consultada em:www.presidencia.gov.br/estrutura_presidencia/sedh/.
[2] Esse período toma como referência as datas em que os militares tentaram impedir a posse de João Goulart, como presidente constitucional, até a publicação da Lei de Anistia.
[3] Posteriormente, uma pessoa das relacionadas no anexo I da Lei No. 9.140 foi encontrada viva e retirada da relação.
[4] ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO. Brasil: Nunca mais – um relato para a história. Petrópolis: Vozes, 1985. MIRANDA, Nilmário; TIBÚRCIO, Carlos. Dos filhos deste solo – mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar: a responsabilidade do estado. São Paulo: Fundação Perseu Abramo / Boitempo Editorial, 1999.
[5] A apresentação do livro foi realizada pelo Ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi e pelo atual Presidente da Comissão Especial, Marco Antônio Rodrigues Barbosa.
[6] CANTANHEDE, Eliane. Militares criticam livro que acusa ditadura por torturas. Folha de S. Paulo. Caderno Brasil, p. A13. 28 ago. 2007.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

O povo voltou às ruas, Lamu!

Blog da REA

WLADIMIR POMAR*
Lamu é o nome que estou dando à uma cambada da cientistas políticos e associados que saíram à liça para criticar, por todos os lados, o retorno das manifestações populares. Para Lamu, essas manifestações seriam obra de grupos radicais de esquerda, de fora e de dentro do PT. E não seriam compatíveis com a democracia, por ficarem protestando difusa e romanticamente por questões econômicas, quando haveria outros assuntos mais importantes a tratar. Os reajustes dos ônibus teriam sido inferiores à inflação e, se houvesse insatisfação com os governos, os líderes das manifestações deveriam ter convocado a população para reclamar, em Brasília, dos preços dos alimentos.
Não contente em desqualificar as manifestações por supostos assuntos menores, Lamuse esforçou por desmerecer os próprios manifestantes. Seriam pessoas irritadas, procurando extravasar suas frustrações. Seriam baderneiros, prontos para depredar, espancar e realizar enfrentamentos. E seriam os quase invisíveis radicais de esquerda, sempre prontos a colocar gasolina, ou vinagre, no fogo, sem qualquer pauta sensata de reivindicações. Portanto, não passariam de pequenos grupos, cuja ação de quebra-quebra os levaria rapidamente ao fim, não só pela firme e correta ação policial, mas também pela falta de apoio popular.
Pobre Lamu, que viu ruir todas as suas análises científicas no dia 17 de junho, quando as manifestações em quase todo o país reuniram dezenas de milhares de manifestantes, demonstrando sua insatisfação. O povo voltou às ruas, Lamu, ao chamado do Movimento Passe Livre – MPL, não só para apoiar a reivindicação de revogação dos reajustes das tarifas de transportes urbanos, mas também para expressar sua oposição ao custo de vida, às prioridades dos investimentos, e ao autoritarismo dos governos que querem impor travas às reivindicações e manifestações populares.
Manifestações populares, em ruas e praças, são um direito reconquistado especialmente nas lutas contra a ditadura militar, no movimento das Diretas Já!, nas greves operárias do ABC, e nas passeatas pela anistia política e contra o custo de vida, nos anos 1970 e 1980. São conquistas democráticas, totalmente compatíveis com a democracia. Como compatível com a democracia é o direito de grupos, de esquerda, radicais ou não, de convocarem tais manifestações. Incompatível com a democracia, embora faça parte do aprendizado popular para saber tratar com esses fatos, é a ação secreta de policiais e provocadores, para promover quebra-quebras, e das tropas de choque, para realizar confrontos e reprimir violentamente os manifestantes, como aconteceu em várias capitais.
Insatisfações populares, Lamu, sempre se materializam, incialmente, em pequenas manifestações, tomando como ponto de partida um ou alguns aspectos da vida popular que mais incomodam. Conservadores e reacionários, como você, acham um absurdo essa espontaneidade popular que, no mais das vezes, tem a juventude, em especial a estudantil, como porta-bandeira. Como expressam, também em geral, a insatisfação de grandes massas da população, têm a capacidade de superar as repressões e provocações que procuram criminalizar as manifestações, e mobilizar grandes multidões não só pelos aspectos inicialmente apresentados, mas também pelo conjunto dos problemas que afligem as outras camadas populares.
Ao contrário do que proclamam os governos, os reajustes dos preços dos transportes são uma herança indexada dos anos 1990, cujo acumulado nos últimos anos é muito superior à inflação. É, portanto, uma aberração que sufoca tanto aos estudantes, que reivindicam passe livre, quanto a milhões de trabalhadores, para os quais um aumento de 20 centavos pode representar a gota d’água que arromba seus parcos rendimentos. Mas você, Lamu, que só anda em carro próprio e não conhece o sacrifício de viajar em transportes lotados e pouco seguros, não pode entender isso. Acha-a difusa e romântica, e é incapaz de enxergá-la como a ponta do iceberg do custo de vida.
Custo de vida que não se prende aos aumentos sazonais dos alimentos agrícolas e industriais, em parte causados pela crescente falta de apoio à agricultura familiar, responsável por mais de 80% de todos os alimentos que o povo consome. Num enorme descompasso com o financiamento do agronegócio, a agricultura familiar vem definhando e sendo expropriada  pelas grandes lavouras de commodities, o que se reflete em preços altos nas feiras e supermercados. Custo de vida que se reflete também nos preços de monopólio praticados pelas corporações industriais que produzem bens de consumo corrente. Na falta de concorrência, essas corporações tornaram os preços brasileiros um dos mais altos do mundo. Se se agregar os juros praticados no mercado, pode-se ter uma ideia do tamanho do bode que a maior parte das famílias brasileiras tem em sua sala.
Esses milhões de famílias, muitas das quais se beneficiaram com as políticas de elevação do salário mínimo, de crescimento do emprego e de transferência de renda para propiciar educação e saúde, também começaram a se dar conta das disparidades existentes nos investimentos. A rapidez dos investimentos em praças esportivas, para atender aos compromissos com as Copas de Futebol e as Olimpíadas, é flagrante. Como flagrante é a lerdeza dos investimentos em saneamento básico, na construção de moradias, na reforma e construção de ferrovias, portos e aeroportos, na melhoria dos transportes urbanos, na instalação de novas plantas fabris que mantenham o ritmo de criação de empregos, e na reestruturação da educação e da saúde.
Os governos podem até alegar que os novos estádios e instalações esportivas geraram emprego e renda para boa parte da população, como até Lamu reconhece. Mas cada um dos demais investimentos necessários para o Brasil sair da quebradeira herdada dos governos neoliberais também pode gerar o mesmo volume de emprego e renda, com a vantagem de que seus benefícios à população serão superiores. Em outras palavras, as manifestações estão chamando a atenção dos governos para o fato de que querem discutir as prioridades dos investimentos, o que Lamu considera um absurdo, incompatível com sua noção de democracia, segundo a qual essa é uma missão delegada pelas eleições, e não um direito romântico.
Nessas condições, se o governo federal se ressentia da falta de uma mobilização social massiva para avançar mais rapidamente nos planos de desenvolvimento, agora tem o dever não só de reconhecer como democráticas e legitimas as manifestações e as reivindicações populares. Ele precisará tomá-las como ponto de partida, e apelar a seu apoio, para desindexar a economia, tomar a sério o apoio estratégico à agricultura familiar, redirecionar investimentos para reestruturar a indústria de bens de consumo corrente, e agilizar os investimentos em infraestrutura. Ou seja, agir prioritariamente naqueles setores capazes de reduzir o custo de vida, e criar novos mecanismos de diálogo com a população em luta.
Ao voltar às ruas, o povo está criando uma nova conjuntura social e política, favorável à democracia e ao desenvolvimento econômico, social e ambiental. Para desespero deLamu e de todos os que não suportam cheiro de povo.

* WLADIMIR POMAR é escritor e analista político. Publicado no Correio da Cidadaniaem 19/06/2013 e aqui sob autorização do autor.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

As consoladoras mensagens cotidianas

Jornal do Brasil
Leonardo Boff

 Por mais que estudemos e pesquisemos, buscando decifrar os mistérios da vida e vislumbrar os desígnios do Criador, na verdade, somos guiados por poucas mensagens que costumamos colocar sob o vidro de nossa escrivaninha ou dependuramos à frente de nossa mesa de trabalho. Elas são sempre lidas e relidas e possuem uma força secreta de nos tirar da opacidade natural da vida. Outras vezes, são fotografias de entes queridos, de pais, de filhos e filhas que amamos e que nos aliviam no trabalho, geralmente fastidiante e até penoso. 

Assim, vi há dias na mesa do director de um banco uma frase que tirou da Imitação de Cristo, um livro que há mais de 800 anos ilumina tantas pessoas:”Ó Luz eterna, superior a toda luz criada, lançai do alto um raio que penetre o íntimo de meu coração. Purificai, alegrai, iluminai e vivificai o meu espírito com todas as suas potências para que a Vós se una em transportes de pura alegria”. Disse-me que, durante o dia, reza com frequência esta oração, entre negociações,  cálculos de taxas e de porcentagens de juros nos empréstimos.  
Eu, de minha parte, possuo dependurados à frente de minha escrivaninha, onde passo muitas horas pesquisando e escrevendo, vários cartões com mensagens que nunca deixam de me consolar e inspirar. 
Em primeiro lugar, uma imagem, tirada da famosa Sagrada Face de Turim mas retrabalhada com traços fortes.  O rosto é desfigurado, com sangue escorrendo pela testa e os cabelos desgrenhados pela tortura. Os olhos são profundos, cheios de enternecimento e com uma força tal que nos obrigam a desviar o olhar. Parece que nos penetram na alma e nos fazem sentir todos os padecimentos da humandiade sofredora na qual Ele está encarnado e sofrendo conosco, como diria Pascal, até o fim do mundo.  
Ao lado, uma foto de uma irmã querida, segurando ao colo, num gesto da Magna Mater, o filhinho pequeno, irmã arrancada da vida, aos trinta e três anos, por um enfarte fulminante. Aí há tanta ternura e serenidade que custa a conter as lágrimas. Por que uma flor foi quebrada quando ainda não acabara de desabrochar? Por quê? A resposta não vem de nenhum lugar. Apenas uma fé, que crê para além de todas as razoabilidades, sustenta o tormento desta pergunta.  
Logo acima, presa ao braço da lâmpada, uma mensagem em alemão que encontrei quando ainda fazia meus estudos no exterior e que me inspira durante toda essa fatigante existência: ”Eu passarei uma única vez por esta vida. Se eu puder mostrar alguma gentileza ou proporcionar alguma coisa boa a quem está ao meu lado, então quero fazê-lo já, não quero porstegá-lo nem negligenciá-lo, pois eu nunca mais voltarei a passar novamente por este caminho”. Aqui se diz uma verdade pura, simples e sábia.  
Viajo muito por muitos meios e por muitos caminhos. Nunca se está livre de riscos. Quantos não são aqueles que partem e nunca chegam? E aí leio num cartão à minha frente a frase tirada do Salmo 91,11: ”Deus ordenou a seus anjos que te protejam, pelos caminhos que tomares”. Não é consolodar poder ler esta mensagem como se tivesse sido escrita diretamente para você, um pouco antes de partir para uma viagem qualquer, sem poder saber se voltará são e salvo?  
Mais consolador é ainda este outro cartão, colocado num vaso cheio de canetas, no qual Deus pelo profeta Isaias me sussurra ao ouvido: ”Não temas; eu te chamei pelo nome; tu és meu” (43,1). Como temer? Já não me pertenço. Pertenço a Alguém maior que conhece meu nome e me chama e me diz  “tu és meu”. A alma serena, as angústias da humana existência se acalmam, apenas ressoa a palavra bem-aventurada: ”Tu és meu”. 
Aqui há algo que antecipa a eternidade quando Deus nos revela nosso verdadeiro nome. Segundo o Apocalipse, somente Deus e a pessoa  conhecem esse nome e ninguém mais. Aí seguramente Deus repetirá: ”Tu és meu”. E a pessoa retrucará: “Eu sou teu”. Essa comunhão do eu e do tu se prolongará pela eternidade afora, numa fusão sem distância nem limites pelos séculos dos séculos, sem fim. 
Não serão, por acaso, coisas singelas como estas que orientam nossa vida e nos trazem alguma luz no meio de tanta penumbra e de questões sem  resposta?  
* Leonardo Boff, teólogo e filósofo, é também escritor. Entre outros livros, escreveu 'Experimentar Deus: A transparência de todas as coisas' (Vozes. 2011). -  lboff@leonardoboff.comBoff


quarta-feira, 26 de junho de 2013

Novas postagens

Pessoal, eis mais três textos interessantes sobre os últimos acontecimentos no Brasil. Boa leitura!

A respeito das manifestações ocorridas no Brasil: movimentos sociais baseados em rede ou o que diz a voz do povo

Blog da REA

MARLENE NOVAES*
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O que foi isto? O que aconteceu para que mais de 1 milhão e meio de pessoas em 19 capitais e mais de 100 cidades brasileiras saíssem às ruas protestando? Qual é a natureza e o sentido das manifestações que tomaram o país, configurando o maior movimento popular da história do Brasil? Para qual direção apontam? São perguntas que persistem duelando com nossas inteligências. Como fenômeno social complexo, os atuais movimentos sociais intrigam analistas que aspirem às interpretações definitivas, haja a vista que a velocidade vertiginosa dos acontecimentos impede inferências sobre as tendências futuras. De todo modo, é intrigante refletir sobre os constrangimentos e as perspectivas abertas pela dinâmica dos movimentos neste tempo de redes sociais ativas.
Em Brasília, quando manifestantes violentamente chutaram o prédio do Congresso Nacional, espectadores pareciam torcer para que o mesmo não resistisse aos golpes e caísse de podre. Se as coisas por lá não estão podres, ao menos fedem muito. O descontentamento com o cenário nacional levou às ruas sujeitos de diferentes percursos sociais. O Movimento Passe Livre São Paulo (MPL) chamou mesmo foi para ir até ali na esquina, em passeata pela revogação do aumento da tarifa de ônibus. Mas, a multidão que se foi constituindo nas avenidas vinha com mais fome que os pobres que tem fome na rua. Uma fome velha, sentida, batida, dobrada e redobrada por respeito aos direitos de cidadania plena, pela partilha nas decisões do Estado, por uma vida civil com saúde, trabalho, moradia e educação e, sobretudo, fome de doer entranhas pela moralização na administração política da coisa pública.
Como lembra Todorov (2010), as guerras civis são o resultado da intolerância dos dominadores. O povo descontente tomando as ruas aos borbotões, a ameaça de generalização dos quebra-quebras, a violência desferida contra os espaços de poder constituídos, entre outras coisas, obrigou a imprensa a um movimento de câmera mais solidário com o povo. Diante dos fatos, era preciso soprar com calma a fogueira explosiva em que se transformou o Brasil, de 10 a 21 de junho de 2013. Veículos de comunicação reacionários, como a Veja, apoiaram as manifestações, difundindo temores de ordem persecutória. Muitos aventaram a hipótese de golpe de Estado e a direita provou, mais uma vez, sua inegável inteligência e habilidade para produzir a acomodação das massas. Ainda assim, o povo saia às ruas.
A emergência dos acontecimentos, tendo lugar no contexto global da sociedade em rede, foi fartamente favorecida pelos usos sociais das redes sociais. A constituição de uma nova cultura tecnológica e suas formas correlatas de relações sociais em rede teve papel decisivo no desenho, curso e desdobramentos dos ocorridos.
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A oportunidade para que a multidão apresentasse publicamente seu seleto elenco de inconformismos abriu-se quando a insatisfação social atingiu índices intoleráveis em paralelo com as atuações do #VemPraRua, #ChangeBrazil e #AcordaBrasil, responsáveis por ampliar as pautas de luta do movimento. Facebook, twitter e suas hashtags funcionaram como condição necessária, mas não suficiente, para a emergência dos movimentos sociais baseados em redes, estes que inquietam pela rapidez com que aglutinam sujeitos em suas mais destacáveis pluralidades. E a vantagem da pluralidade reside, como sabemos, no fato de garantir, a cada um, a liberdade de pensar e julgar.
As perspectivas abertas pelos movimentos sociais baseados em rede parecem promissoras. Uma nova cartografia política tem sido ali desenhada a partir da ativação de uma sociabilidade crítica calcada no julgamento. Agora, surpreendentemente o sujeito tornou-se o produtor da informação que percorre a rede acompanhada de julgamentos que instigam o ativismo social porque elevam os níveis de consciência geral. Como diria o Lula, nunca antes na história deste país vivenciamos algo equivalente. Agora o mover das peças no jogo político recomenda não ignorar a  rapidez de mobilização das massas e seu poder de xeque-mate.
E, se a identidade de um fenômeno social anda colada à identidade de seus representantes, caberia prosseguir perguntando sobre os atributos do sujeito do movimento social baseado em rede que aqui nos interessa. Até onde nos foi permitido notar, trata-se de um sujeito individuado detentor de potencialidades críticas, disposto a manter a si mesmo no contexto da pluralidade das diferenças, mas também interessado em experimentar subjetividade social, mesmo porque é bem isto que o capitalismo faz: produz subjetividade seriadas dóceis ao controle social. Porém, valendo-nos das ideias de Guatarri (1996), é possível notar que a esta nova cartografia política que está em jogo é dada a condição de produção de processos de singularização, uma singularização daquele tipo que: “coincida com um desejo, com um gosto de viver, com uma vontade de construir o mundo no qual nos encontramos, com a instauração de dispositivos para mudar os tipos de sociedades, os tipos de valores que não são os nossos”.
Entendendo revolução, aos modos de Guatarri, como tudo o que comporta um caráter transformador e irreversível, vamos concordar que estamos vivendo um processo revolucionário. Quem estava nas ruas era o sujeito singularizado, aquele que elevava seu cartaz gritando forte; o cartaz que redigiu em sua casa, com sua caneta denunciando aquilo que faz contraponto à sua felicidade particular. Nas avenidas, as diferentes singularidades confluíram, entrelaçaram e amarraram forte um desejo e outro desejo e mais outro até tecer uma nova voz para o país, agora não mais ressabiada ou ressentida pelas crueldades pontiagudas de um Estado leviano, não mais cativa da desesperança do seu poder de agir como catalisador para a artesania de uma sociedade de direitos e justiças assegurados. Ninguém saiu em marcha para pedir, fomos lutar para conquistar o que é de nosso direito.
É preciso, contudo, organização no plano geral a fim de maximizar as vantagens das redes sociais em seu potencial de mobilização e transformação social quando se trata de constituir movimentos com base na pluralidade ideológica de seus participantes. Nestas situações o movimento deve assumir o tom suprapartidário, e todos sabem o que reza a etiqueta para a ocasião: nada de bandeiras. Ali eram mais de um milhão e meio de reclamantes. Todos reacionários? Quem opta por desqualificar o caráter da massa cansada dos sedativos políticos está criando subterfúgios para negar resposta ao que é mais urgente: o que são as esquerdas no Brasil, hoje? Qual o projeto de transformação que defendem para o país e como têm se dado os movimentos de base a partir dos quais tais projetos são construídos e debatidos com o povo?
Agora, quando partidos políticos dão largada à corrida para angariar a simpatia das massas, a grande tarefa passa a ser a apresentação de propostas que traduzam os anseios de povo. O populismo e seus riscos estão respirando no nosso cangote. Um “queremismo” de novo tipo nos ronda. Em 1945, quando o povo gritava “queremos Getúlio” deu-se sua primeira deposição. Mas, aquele não era um tempo de redes sociais e sujeitos singularizados. Esta mania do brasileiro de nunca acreditar em si mesmo precisa ter fim.
O que quer o povo indócil? Não vai ser a Globo quem vai responder isto. Em tempos de redes sociais as análises de textométrica são mais qualificadas para dar as respostas precisas. Os partidos estão acossados pelo povo. Atribuir urgência na resolução da questão da mobilidade social urbana significa afastamento do cerne do problema em direção ao que parece de mais fácil solução. Ninguém quer o ouro de tolos. A massa quer mais que catraca livre, PSOL. Por outro lado, corre a interpretação que o povo enojou-se da política partidária e para este caso a solução seria oferecer a possibilidade de candidaturas de pessoas fora de legendas políticas ou promover a reavaliação funcional dos atuais partidos, algo do tipo trocar nomes antigos para que adquiram novas conotações distantes de seus sentidos originais, assim defende Cristovão Buarque (PDT). De todo modo, quem souber entender os reclames do povo sairá à frente. A reforma política é indiscutivelmente um clamor público. Penso que com bandeiras abaixadas devemos partir para esta luta. Não dá mais para ficar elegendo político de rabo preso.
Este é o tempo em que vivemos a revolução do sujeito singularizado, este que rejeita a serialização da subjetividade, tal como quer o capitalismo com suas perversidades. Trata-se de um sujeito que não abre mão dos seus desejos e não renuncia a conquista de seus objetivos. O sujeito singularizado vai à rua para manifestar o seu desejo porque de posse da liberdade de viver seus processos e compreender sua situação no entremeio de um mundo que tange gente feito gado.
Conforme Piotr Kropotkin: “Nenhuma revolução social pode triunfar se não for precedida de uma revolução nas mentes e corações do povo.” A revolução do sujeito é a mais necessária de todas. Eis-nos, portanto, diante dos novos sujeitos dos movimentos sociais baseados em rede, aqueles capazes de lutar com mesmo vigor, tanto para a qualidade da sua vida pessoal, quanto pela da vida coletiva através da expressão de desejos que abundam em repetições e ecos inteligíveis. O meu desejo é também o seu desejo. E juntos nosso desejo é mais vida, mais direitos e liberdades. Este ganho é revolucionário porque transformador e irreversível. Ninguém mais poderá calar a voz do povo, não neste tempo regido pelo novo paradigma tecnológico. Chegou o tempo de temer o poder do povo.
Referências
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
GUATARRI, Félix. Cartografias do desejo. Petrópolis: Vozes, 1996.
TODOROV, Tzvetan. O medo dos bárbaros: para além do choque das civilizações. Petrópolis: Vozes, 2010.

* novaesMARLENE NOVAES é antropóloga, Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e docente do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá.