sábado, 20 de abril de 2013

Café Literário Antônio Roberto Fernandes

      Confira as fotos do café literário realizado na Casa de Cultura Poeta Antônio Silva, em Conselheiro Josino, no dia 17 de abril de 2013.

       
                     Edinho, presidente da casa de cultura, recebendo os participantes do café literário


Exposição dos trabalhos feitos pelos alunos das aulas de artesanato.







Vera, coordenadora das casas de cultura, e Aldinei, apresentador do evento.


Os músicos Sr. Demerval e Sr. Eduardo.



Participantes do café literário.





quarta-feira, 10 de abril de 2013

Café Literário





        Convidamos a todos para o Café Literário da Casa de Cultura Poeta Antônio Silva, em Conselheiro Josino, que será realizado dia 17 de abril, às 19 horas. 

Passeios perigosos

Maria Lucia Dahl
Jornal do Brasil


Onde é possível  levar um turista estrangeiro pra se divertir no Rio, hoje em dia?
Minha amiga , Jacqueline, me ligou de Paris, onde nos conhecemos quando morei lá.
Quando fui morar em Roma,  Jacqueline também ia me visitar até que muitos anos depois,  seu filho que parece o Alain Delon, de tão lindo, veio pra cá e se casou com uma brasileira que mora numa comunidade onde ele aconheceu.
Muita confusão causou esse casamento depois do filho que tiveram numa hora em que ele teve a proposta de um trabalho importante na França.
Eu tentava  ajudar Jacqueline, ligando pra ele aqui no Rio e dando notícias à sua mãe que continuava na França. 
Agora ela me ligou que queria vir pra cá pra se divertir um pouco no Rio e disse que chegaria no dia seguinte.
Meu carro foi roubado já há algum tempo. Pensei em pegar o carro de uma amiga emprestado para passearmos pelo Parque Nacional da Tijuca pra ver, como fazíamos antigamente, a Cascatinha, a capela Mayrink, o Açude da Solidão e pensei até no Restaurante Esquilo (que nem sei se ainda existe), pra tomarmos uns drinques, lembrando de antigamente. Já estava me animando a fazer um programa completamente diferente, quando vi na TV, que ali, onde eu pretendia me divertir, tinham assaltado um grupo de alemães. Desisti de um lugar tão perigoso, e, em matéria de visitas antigas, do meu tempo de criança, pensei nas Paineiras onde passava algumas férias no hotel Paineiras, que também não existe mais, mas podíamos dar uma volta ali ao redor, onde a coisa mais perigosa que vi quando era pequena, foi uma cobra, parada na minha frente. Como estivesse esticada no meio da estrada, achei que fosse um galho de árvore e fiquei em dúvida se pegava-o ou não.
Mamãe, que estava um pouco atrás de mim, com minha irmã, me olhou com um olhar tão tenebroso, muda, com medo que eu fizesse algum ruído e a cobra pulasse em mim, que pela sua expressão, percebi que aquilo era uma cobra e que eu tinha que ficar como uma estátua até ela passar e me liberar pra sair correndo e ir brincar com minha irmã.
Mas desisti de Paineiras, não por causa da cobra, que hoje seria a coisa mais inocente que pode haver, mas por que o jornal da TV continuou a dar suas  notícias horríveis, dizendo que uma outra van de turistas foi assaltada ali e que estupraram uma americana que estava com eles.
Mesmo assim continuava querendo  aproveitar a ideia de pegar o carro com uma amiga e passear pelo Rio com o pretexto de me divertir com Jacqueline.
Então pensei em Petrópolis, que tem tudo pra um turista: vista, Museu, Palácio de Cristal, Casa de Santos Dumont, Quitandinha, e infância pairando no ar, mas tive que desistir , pois disse a TV que o centro de Petrópolis tinha desabado com a chuva forte e que estragou muito a área perto de Quitandinha.
Depois de contar isso tudo pra Jacqueline no dia seguinte, e ter vontade de jogar pela janela aquele aparelho de TV que só me deu notícias horríveis, ela ficou pasma e sugeriu:
- Então vamos até o Saara comprar tecidos pra eu fazer o figurino da peça que estou trabalhando em Paris.
Tive de contar pra ela, que através da mesma TV tenebrosa que só dá notícias péssimas,  que o Saara tinha pegado fogo.
Então resolvemos tomar um vinho lá em casa, sem carro e sem cidade, e combinar uma ida minha pra Paris.
Será que pode-se, ao menos chegar ao aeroporto, aqui no Rio, sem correr risco de vida?

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Papa Francisco: inaugura o terceiro milênio?

Jornal do Brasil
Leonardo Boff


O primeiro milênio do Cristianismo foi marcado pelo paradigma da comunidade. As igrejas possuíam relativa autonomia com seus ritos próprios: a ortodoxa, a copta, a ambrosiana de Milão, a moçárabe da Espanha e outras. Veneravam seus próprios mártires e confessores e tinham suas teologias como  se vê na florescente cristandade do norte da África com Santo Agostinho, São Cipriano e o leigo teólogo Tertuliano. Elas se reconheciam  mutuamente e, embora em Roma já se esboçasse uma visão mais jurídica, predominava a presidência na caridade.
O segundo milênio foi caracterizado pelo paradigma da Igreja como sociedade perfeita e hierarquizada: uma monarquia absolutista centrada na figura do Papa como suprema cabeça (cefalização), dotado de poderes ilimitados e, por fim, infalível quando se declara como tal em assuntos de fé e moral. Criou-se o Estado Pontifício, com exército, com sistema financeiro e legislação que incluía a pena de morte. Criou-se um corpo de peritos da instituição, a Cúria Romana, responsável pela administração eclesiástica mundial. Esta centralização gerou a romanização de toda a cristandade. A evangelização da América Latina, da Ásia e da África se fez no bojo de um mesmo processo de conquista colonial do mundo e significava um transplante do modelo romano, praticamente anulando a encarnação nas culturas locais. Oficializou-se a separação estrita entre o clero e os leigos. Estes, sem nenhum poder de decisão (no primeiro milênio participavam na eleição dos bispos e do próprio Papa), foram juridicamente e de fato infantilizados e mediocrizados.
Firmaram-se os costumes palacianos dos  padres, bispos, cardeais e Papas. A títulos de poder dos imperadores romanos, a começar pela de Papa e a de Sumo Pontífice, passou ao bispo de Roma. Os cardeais, príncipes da Igreja, se vestiam como a alta nobreza renascentista e isso permaneceu até os dias de hoje para escândalo de não poucos cristãos habituados a ver Jesus pobre e homem do povo, perseguido, torturado e executado na cruz.
Este modelo de Igreja, tudo indica, se encerrou com a renúncia de Bento XVI, o último Papa deste modelo monárquico, num contexto trágico de escândalos que afetaram o núcleo da credibilidade do anúncio cristão.
A eleição do Papa Francisco, vindo “do fim do mundo” como ele mesmo se apresentou, da periferia da cristandade, do Grande Sul, onde vivem 60% dos católicos, inaugurará o paradigma eclesial do Terceiro Milênio: a Igreja como vasta rede comunidades cristãs, enraizadas nas diferentes culturas, algumas mais ancestrais que a ocidental como a chinesa, indiana e japonesa e nas culturas tribais de África e comunitárias da América Latina. Encarna-se também na cultura moderna dos países tecnicamente avançados, com uma fé vivida também em pequenas comunidades. Todas estas encarnações têm algo em comum: a urbanização da humanidade pela qual mais de 80% da população vive em grandes conglomerados de milhões e milhões de habitantes.
Neste contexto será praticamente impossível de se falar em paróquias territoriais mas em comunidades de vizinhança de prédios ou de ruas próximas. Esse cristianismo terá como protagonistas os leigos, animados por padres, casados ou não ou por mulheres-sacerdotes e bispos ligados  mais à espiritualidade do que à administração. As Igrejas terão outros rostos.
A reforma não se restringirá à Cúria Romana em estado calamitoso mas se estenderá a toda a institucionalidade da Igreja. Talvez somente com a convocação de um novo Concílio com representantes de toda a cristandade dará ao Papa a segurança e as linhas mestras da Igreja do Terceiro Milênio. Que não lhe falte o Espírito. 

sexta-feira, 29 de março de 2013

Legalidade ou impunidade?

Marcelo Pellegrini
Carta Capital


Para os delegados, é a PEC da Legalidade. Para os promotores, a PEC da Impunidade. A forma como a Proposta de Emenda Constitucional (PEC 37/2011) tem sido tratada fora do Congresso dá o tom do embate entre as policias civis e federal, encabeçados pela Adepol (Associação dos delegados de Polícia), e os integrantes do Ministério Público. O receio destes é justificado: o projeto, de autoria do deputado Lourival Mendes (PTdoB-MA), pretende retirar os poderes de investigação de promotores e procuradores da República. Por causa da proposta, têm circulado pelo Congresso cartilhas sobre as atribuições constitucionais da Polícia e do MP. Ao mesmo tempo, palestras dentro e fora das categorias interessadas são organizadas pelo País.
Foto: José Cruz/Agência Brasil
Debate sobre se o Ministério Público deve ter poderes investigatório suscita teorias de um possível conta-ataque de parlamentares denunciados pelo órgão. Foto: José Cruz/Agência Brasil
De acordo com a Constituição, os únicos órgãos com permissão para tocar as investigações criminais são a Polícia Civil e Federal. No entanto, a exigência do Ministério Público se apoia em um tratado internacional do qual o Brasil é signatário e assegura seus direitos de investigação. Em uma carta assinada por diversas entidades ligadas ao MP defende-se que “sendo o Brasil subscritor do Estatuto de Roma, que criou o Tribunal Penal Internacional, fez opção no plano internacional por um modelo de Ministério Público investigativo, sendo impensável que no plano interno seja (…) impedido de investigar”.
De acordo com a carta, a PEC significaria, se aprovada, um desrespeito a princípios do direito internacional e isolamento brasileiro em relação aos demais 120 países subscritores do estatuto.
Para o vice-presidente do Ministério Público Democrático, Roberto Livianu, a PEC indica que os interesses que inspiram o Poder Legislativo nem sempre são democráticos. “A proposta é produto da reação de pessoas investigadas e processadas pelo Ministério Público e que querem cercear e enfraquecer a atuação do órgão”, argumenta Livianu. Segundo ele, a PEC é uma forma de reconhecimento, mesmo que distorcida, do trabalho do MP. Como exemplos, o promotor relembra grandes casos investigados pelo Ministério Público como o “mensalão”, os bicheiros do Rio de Janeiro e o Esquadrão da Morte, em São Paulo.
Em resposta, Paulo D’Almeida, presidente da Adepol, argumenta que acima de qualquer tratado internacional deve-se assegurar o que diz a Constituição Federal. Segundo ele, muitas vezes a Promotoria atravessa as investigações policias visando um retorno midiático. “O Ministério Público trabalha de forma seletiva e midiática nas escolhas das investigações”, afirma. “Além disso, a polícia deve ser fiscalizada pelo MP, mas quem fiscaliza a atuação e os procedimentos dos promotores?”, indaga.
Por lei, o Ministério Público deve agir como o fiscalizador da lei, titular da ação penal e o responsável pelo controle externo da polícia. As investigações sobre o MP, prevê a lei, devem ser averiguadas por uma comissão interna do próprio órgão.
Uma polícia fraca
Um dos principais pontos de atrito entre as entidades diz respeito à capacidade da polícia em cuidar dos processos investigatórios sozinha. Para Livianu, hoje não há recursos humanos e financeiros para a Polícia Civil e Federal tocarem as investigações sem o auxílio do Ministério Público. Por isso a proposta é chamada de PEC da Impunidade pelos promotores.
Outra questão-chave é a dependência da polícia em relação ao Poder Público local, em particular nos pequenos municípios. “A polícia não tem a força necessária para realizar os trabalhos investigatórios porque é um organismo que em seu estatuto não tem as garantias que o Ministério Público tem, como a vitaliciedade e a estabilidade profissional de ser um agente do Estado e não um servidor público”, explica o vice-presidente do Ministério Público Democrático.
A realidade de dependência dos promotores é admitida pelos delegados. No entanto, no entendimento da Adepol, um órgão não pode ser fortalecido em detrimento de outro. “O MP deve respeitar a atribuição da polícia e trabalhar para fortalecer o órgão e reivindicar nossas necessidades. Isso sim é trabalhar em cooperação”, diz o delegado D’Almeida.
Para ele, com o fortalecimento da polícia o Ministério Público trabalharia melhor e menos sobrecarregado. “Temos que fazer uma polícia de Estado e não de governo por meio do fortalecimento de nossas corregedorias. Concomitante a isso, o MP deve investigar improbidades e omissões da polícia”, defende. “Assim, cada um faz sua parte e todos cumprem o que a Constituição diz.”
Outro temor em relação à proposta é a possibilidade de todas as condenações obtidas por meio de investigações do MP serem cassadas após a investigação da PEC 37. No entanto, de acordo com D’Almeida, a PEC 37 assegura que, junto à sua aprovação, seja adicionado o artigo 98 ao Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal. Este artigo garantiria o respeito às decisões jurídicas anteriores, baseadas em investigações do Ministério Público.
Tramitação
Até o momento, a PEC 37 já obteve o número mínimo de votos em uma Comissão Especial para ser votada no Plenário da Câmara, embora siga sem uma data estabelecida para a apreciação. A proposta ainda precisa ser votada em dois turnos no Plenário da Câmara antes de seguir para o Senado.
Caso seja aprovada na Câmara, o Ministério Público promete entrar com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) no Supremo Tribunal Federal (STF).
O deputado federal Lourival Mendes (PTdoB-MA) não respondeu à reportagem até o fechamento da reportagem. A assessoria do parlamentar orientou a reportagem a obter eventuais esclarecimentos sobre a proposta com a Adepol, uma das partes interessadas do texto.

sexta-feira, 22 de março de 2013

A igreja de D. Paulo Evaristo

Mino Carta
Carta Capital


A rivalidade notória entre Brasil e Argentina não me emociona, embora avalie em toda a sua imponência o dissabor (digamos assim) dos torcedores nativos ao constatarem que, no confronto com a Seleção argentina, esta tem uma vitória a mais. Comparações me parecem descabidas em quaisquer outros gramados: trata-se de países profundamente diferentes, por história, formação, cultura, tradições, condições geográficas e econômicas. Não escapo a uma, contudo, a respeito do comportamento da Igreja Católica dos dois países durante suas ditaduras.
Dom Paulo. Personagem admirável por bravura e compaixão. Foto: Mabel Feres/AE
Dom Paulo. Personagem admirável por bravura e compaixão. Foto: Mabel Feres/AE
A igreja de Paulo Evaristo Arns, Aloisio Lorscheider, Helder Câmara, Ivo Lorscheiter, Pedro Casaldáliga, e de outros, foi de clara e desabrida contestação ao nosso exército de ocupação a serviço da casa-grande e de Tio Sam. A igreja de padre Bergoglio foi conivente. Papa Francisco era então um jovem prelado, mas cometeu seus pecados, como se lê nesta edição no texto assinado por Eric Nepomuceno, grande conhecedor das histórias da América Latina, e da Argentina, especificamente.
Faz pouco tempo, em duas entrevistas, o ditador Videla, velho, arrogante e condenado, manifestou seu agradecimento ao apoio recebido da igreja do seu país. Era o tempo em que o Núncio Apostólico, Pio Laghi, se opunha ao almirante Massera, da trinca golpista, integrada também pelo próprio Videla e pelo brigadeiro Agosti, nas quadras de tênis do clube mais elegante de Buenos Aires. No mais, endosso total.
No Brasil, até Eugênio Salles, conservador convicto que privava da intimidade de Antonio Carlos Magalhães, protegeu perseguidos políticos. Notável, entre as figuras de batina encarnada daquele tempo, dom Paulo Evaristo. Destemido, firme, determinado. Costumava visitá-lo no seu sobrado modesto do Sumaré e o encontro era sempre de muito alento para mim, tocado por sua fala pacata, fiel à verdade dos fatos, mas capaz de inflexões esperançosas.
De fato, imaginávamos um país bem diferente do Brasil pós-ditadura, entregue a uma pretensa redemocratização até hoje bastante discutível. Recordo o cardeal arcebispo de São Paulo, que oficiou o culto ecumênico na Sé, no sétimo dia da morte de Vlado Herzog, e me chamou à sacristia para me apresentar a Helder Câmara, lá estava ele à espera da função, ao lado do rabino Sobel e do pastor Wright, os outros dois oficiantes.
O desafio à ditadura é fato indelével, envolveu milhares de pessoas dispostas a alcançar a catedral, apesar da tentativa da Polícia Militar de estrangular o trânsito paulistano. A Praça da Sé recebeu uma multidão imprevista. As paredes dos palácios que a cercam eram riscadas pela sombra oblíqua dos fuzis dos atiradores de elite, postados atrás de cada janela.
No livro que acabo de publicar pela Editora Record, O Brasil, dom Paulo é personagem relevante e ali relato também uma conversa que tivemos, ele já aposentado, no fim dos anos 90, “em um casarão entre árvores murmurantes”, na periferia de São Paulo. E conto: “Falamos do passado, ele guarda uma boa lembrança do general Golbery que lhe levou uma lista de sumidos nas mãos de algozes do terror de Estado, e o chefe da Casa Civil de Geisel chorou”. De verdade, ele fez três visitas ao Mago Merlin do Planalto, todas com o mesmo propósito.
E mais: “De improviso, põe-se a imitar o papa João Paulo II, descreve-o quando da sua última visita a Roma, curva-se e projeta a cabeça como se, eliminado o pescoço, saísse diretamente do meio do peito, e dali extrai a voz do polaco na tonalidade e no ritmo precisos, arrastada, manquitolante e imperativa. Papa Wojtyla, pontífice estadista dos crentes da religião como garantia de um jogo que, intacto e permanentemente igual a dogma, mantém as coisas como estão, inalteradas. O papa da reação e do inextinguível fingimento, de inegável grandeza do mal, perdão, do Mal, ao se apresentar, sem admitir a dúvida da plateia, como representante do Bem”.
Paulo Evaristo, e alguns ainda, personagem de outra e admirável têmpera, em relação aos colegas argentinos.
P.S.: Reflexão de encerramento
Quando Ratzinger renunciou, a mídia nativa criticou asperamente a presidenta Dilma,
ré por não ter emitido nota oficial a respeito, tanto mais grave o pecado porque o Brasil é o maior país católico do mundo.

Agora a presidenta vai a Roma, e a mídia investiga febrilmente a respeito dos gastos da sua comitiva. Tudo bem, tudo muito bem, estamos no Brazil, zil, zil.
E haja isenção de um lado, do outro resignação. Sinais inequívocos da tradicional geleia geral.

segunda-feira, 18 de março de 2013

É possível um exercício do papado diferente

Leonardo Boff
Jornal do Brasil


A grave crise moral que atravessa todo o corpo institucional da Igreja fez com que  o Conclave elegesse alguém que tenha autoridade e coragem para fazer profundas reformas na Cúria romana e inaugurar uma forma de exercício do poder papal que seja mais conforme ao espírito de Jesus e adequado à nova consciência da humanidade. Francisco é o seu nome. 
A figura do papa é talvez o maior símbolo do sagrado  no mundo ocidental. As sociedades que pela secularização exilaram o sagrado, a falta de líderes referenciais e a nostalgia  da figura do pai como aquele que orienta, cria confiança e mostra caminhos, concentraram na figura do papa  estes ancestrais anseios humanos que podiam ser lidos nos rostos dos fiéis na Praça de São Pedro. Por isso é importante analisar o tipo de exercício de poder  que o papa Francisco vai exercer. Disse em sua primeira fala que vai “presidir na caridade” e não como os anteriores com poder judicial sobre todas as igrejas. 
Para os cristãos é irrenunciável o ministério de Pedro como aquele deve “confirmar os irmãos e as irmãs na fé” segundo o mandato do Mestre. Roma, onde estão sepultados Pedro e Paulo, foi desde os primórdios referência de unidade, de ortodoxia e de zelo pelas demais igrejas. Esta perspectiva é acolhida também pelas demais igrejas não católicas. A questão toda é a forma como se exerce tal função. O papa Leão Magno (440-461), no vazio do poder imperial, teve que assumir a governança de Roma. Tomou o título de papa e de sumo pontífice, que eram do imperador, incorporou o estilo imperial de poder, monárquico, absoluto e centralizado, com seus símbolos, as vestimentas e o estilo palaciano. Os textos atinentes a Pedro que em Jesus tinham um sentido de serviço e de primazia do amor foram interpretados como  estrito poder jurídico. Tudo culminou com Gregório VII, que com o seu “Dictatus papae” (a ditadura do papa) arrogou para si os dois poderes, o religioso e o secular. Surgiu a grande Instituição Total, obstáculo ao caminho da liberdade dos cristãos e da sociedade. 
A partir daí o papa emerge como um monarca absoluto com a plenitude de todos os poderes como o cânon 331 bem o expressa.  Levanta a pretensão de subordinar ao seu poder toda as demais igrejas. Esse exercício absolutista foi sempre questionado, especialmente, pelos Reformadores. Mas nunca foi amenizado. Como reconhecia João Paulo II, este estilo de exercer a função de Pedro é o maior obstáculo ao ecumenismo e à aceitação pelos cristãos que vem da cultura moderna dos direitos e da democracia. Para suprir esta falta, os últimos dois papas organizaram uma espetacularização da fé, com viagens e eventos massivos,  como a dos jovens a se realizar  no Rio. 
Esta forma monárquica e absolutista representa um desvio da intenção originária de Jesus, e agora com Francisco deve ser repensada à luz da intenção de Jesus. Será um papado pastoral e de serviço à caridade e à unidade e não mais um papado do poder jurídico absolutista. O Concílio Vaticano II estabeleceu os instrumentos para uma reformulação no governo da Igreja: o sínodo dos bispos, esvaziado e feito até agora apenas consultivo, quando foi pensado para ser deliberativo. Criar-se-ia um órgão executivo que com o papa governaria a Igreja. Criou-se pelo Concílio a colegialidade dos bispos, quer dizer, as conferências continentais e nacionais ganhariam mais autonomia para permitir um enraizamento da fé nas culturais locais, sempre em comunhão com Roma. Representantes do Povo de Deus, cardeais, bispos, clero e leigos e até mulheres ajudariam a eleger um papa para toda a cristandade. Faz-se urgente uma reforma da Cúria na linha da descentralização. Certamente o que fará o papa Francisco. Por que o Secretariado para as Religiões não Cristãs não pudesse funcionar na Ásia? O Dicastério da unidade dos cristãos em Genebra, perto do Conselho Mundial de Igrejas?  O das missões, em alguma cidade da África? O dos direitos humanos e justiça, na América Latina? 
A Igreja Católica poderia se transformar numa instância não autoritária de valores universais, do cuidado pela Terra e pela vida sob grave ameaça, contra a cultura do consumo, em favor de uma sobriedade  condividida, enfatizando a solidariedade e a cooperação a partir dos últimos contra a exacerbação da concorrência. A questão central não é mais a Igreja mas a Humanidade e a civilização que podem desparecer. Como a Igreja ajuda em sua preservação?  Tudo isso é possível e realizável, sem renunciar em nada à substância da fé cristã. Importa que o papa Francisco seja um João XXIII do Terceiro Mundo, um “Papa buono”. Só assim poderá  resgatar a credibilidade perdida  e ser um luzeiro de espiritualidade e de esperança para todos. 
* Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor. - lboff@leonardoboff.com

domingo, 17 de março de 2013

A cultura na lata de lixo

Blog da REA


MARCELO GRUMAN*
    Na última terça-feira, dia 05 de março, a cidade do Rio de Janeiro foi atingida por um temporal que, em poucos minutos, a mergulhou, literalmente, num caos. Quase instantaneamente, ruas e avenidas transformaram-se em rios imundos, compostos de uma mistura fétida de lama, esgoto, galhos de árvores arrancados com a força do vento, lixo de todo tipo (garrafas pet, latas de todos os tamanhos, ferro-velho de modo geral), animais mortos. Dois dos principais túneis da cidade foram fechados, o prefeito recomendou que a população permanecesse onde estivesse até que a situação se “normalizasse” (como se o carioca, mesmo que quisesse, pudesse sair do lugar). As consequências do dilúvio foram conhecidas na manhã seguinte, carros largados no meio da rua, montanhas de lixo acumulado nas esquinas, toneladas de vegetação espalhadas por todo lado, porteiros tirando da frente dos prédios a sujeira que impedia a livre circulação da população pelas calçadas. Cinco pessoas morreram, em diferentes pontos da cidade. Aparentemente, fenômenos climáticos não têm relação com “fenômenos” culturais, mas, neste caso, há.
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Quando tragédias deste tipo acontecem, logo tentamos apontar culpados. Geralmente, o algoz preferido é o Estado ou, mais comumente, seus representantes, governador, prefeito, vereadores, invariavelmente “pegos para Cristo”, incorporando o Mal absoluto. É verdade que o poder público é poder exatamente por ter sido investido da prerrogativa de legislar e executar tudo aquilo que beneficie os responsáveis pela investidura, a cada quatro anos, a população. O Estado tem a obrigação de elaborar e bem executar políticas públicas, dentre elas, o planejamento urbano, fundamental em momentos de crise como o vivido na noite do dia 05 de março. Gestão de riscos, diriam os especialistas. Os representantes do Estado não admitem falhas no planejamento, preferem culpar São Pedro, e insistem que a estrutura dos órgãos públicos responsáveis pela contenção ou redução dos danos materiais e morais funcionou dentro do esperado. Concorde-se ou não com estas afirmações, é fato que o poder público é apenas parte do problema, devendo compartilhar responsabilidades com a própria população.
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A primeira constatação que se tem ao caminhar pelas ruas do Rio de Janeiro é a da total falta de educação das pessoas com relação ao espaço público. Carros avançam o sinal vermelho como se estivessem em vias expressas, pedestres atravessam as ruas fora da faixa, ziguezagueando entre os carros, flertando com acidentes fatais. Homens (mulheres, excepcionalmente) assoando o nariz e descartando a sujeira nas calçadas, ou escarrando a secreção fruto de um resfriado mal curado ali mesmo. Restos de comida, de embalagens plásticas e de um sem-número de objetos são largados, mesmo que “inconscientemente”, nas calçadas, apesar de cestos de lixo espalhados por todos os cantos. Isto sem falar nos mijões. Muros de propriedades privadas, de prédios públicos, monumentos históricos, a própria paisagem natural transformada em patrimônio cultural, é vandalizada com pichações muitas vezes disfarçadas de arte gráfica. Não é de admirar, portanto, que o escoamento da água, em chuvas torrenciais, fique prejudicado ou, simplesmente, inviabilizado. Os bueiros estão, via de regra, entupidos. É um círculo vergonhoso: a empresa pública de limpeza os desobstrui, a população dá o mau exemplo e o entope novamente, num processo de enxugar o gelo.
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Ainda há muita dificuldade, na sociedade brasileira, em se reconhecer a especificidade do espaço público. Os péssimos exemplos descritos acima mostram que, para boa parte da população, o público é confundido com a expressão “de ninguém”, oposto ao espaço privado. Para ela, a existência enquanto indivíduo moral acontece apenas em “casa”, nas relações afetivas com a família e amigos, para além da qual nada lhe importa porque a proteção está deste lado do muro. Como se a dengue e a leptospirose fossem exclusividade daqueles que não tem acesso a saneamento básico, e que o direito de ir e vir não lhe atingisse, por exemplo, nas caóticas horas do temporal carioca.
O desprezo pelo espaço público também é um sintoma de que o conceito de cidadania moderna ainda não faz parte do vocabulário diário da população. Na realidade, ouvimos cada vez mais a exigência de “cidadania” para os marginalizados sociais, mas a compreensão do que isto significa é capenga porque pressupõe apenas a atuação do Estado, sem prever a contrapartida do cidadão, dotado de direitos e, no que importa aqui, deveres. Dever, por exemplo, de jogar o lixo no lixo, de guardar o papel de bala no bolso da calça até encontrar uma lata de lixo, respeitar para ser respeitado. O espaço público é de todos, compartilhado por todos, onde são estabelecidas relações sociais específicas, nem mais nem menos importantes daquelas do âmbito privado. Público e privado são complementares, não opostos e inimigos.
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Acusar o Estado de todos os males é típico de sociedades patriarcais, paternalistas e autoritárias, onde o “pai” é responsável pela resolução de todos os problemas. O autoritarismo funciona para cima e para baixo: submissão àqueles consideradas superiores na hierarquia social, arrogância e opressão àqueles considerados inferiores na mesma hierarquia. É comum a justificativa da má educação dos que jogam lixo na rua de que “o gari é pago para limpar a rua”. O sentido da frase é “ele é meu empregado, eu lhe pago e posso exigir dele o que bem entender”, como um senhor de engenho fazia com seu escravo.
Estamos diante de um desafio colossal, qual seja, o de transformar a própria forma que a sociedade pensa a si mesma, como vê o mundo, quais os valores que utiliza para dotá-lo de sentido, quais as categorias que utiliza para classificar a realidade, o que é certo e o que é errado, o que é público e o que é privado, o que é lixo e o que não é. Em resumo: trata-se de transformar sua cultura em seu sentido mais básico e genérico, seu sistema de representações.
É urgente enfrentarmos a resignação dos pessimistas que equivalem “cultura” a uma espécie de atavismo genético irrecuperável, incorrigível. Para isso, a educação formal tem papel fundamental, porque é desde cedo que os indivíduos devem aprender o significado da cidadania, do respeito ao outro. Precisamos urgentemente jogar na lata do lixo esta cultura, individualista, egoísta, sob pena de inviabilizarmos a médio e longo prazo a vida nas grandes cidades.

* MARCELO GRUMAN é Antropólogo e Especialista em Gestão de Políticas Públicas de Cultura.