segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Quarenta anos de Teologia da Libertação e de "Jesus Cristo Libertador”

Jornal do Brasil
Leonardo Boff


Entre os dias 7-10 de outubro estará acontecendo em São Leopoldo, RS, junto ao Instituto Humanitas, da Unisinos dos Jesuitas, a celebração dos 40 anos do surgimento da Teologia da Libertação. Lá estarão os principais representantes da América Latina, especialmente seu primeiro formulador, o peruano Gustavo Gutiérrez. Curiosamente, no mesmo ano, 1971, sem que um soubesse do outro, tanto Gutiérrez (Peru) quanto Hugo Assman (Bolívia), Juan Luiz Segundo (Uruguai) e eu (Brasil), lançávamos nossos escritos, tidos como fundadores deste tipo de teologia. Não seria a irrupção do Espírito que soprava em nosso continente marcado por tantas opressões? 
Eu, para burlar os órgãos de controle e repressão dos militares, publicava todo mês, no ano de 1971, um artigo numa revista para religiosas Sponsa Christi (Esposa de Cristo) com o título Jesus Cristo Libertador. Em março de 1972 reuni os artigos e arrisquei sua publicação em forma de livro. Tive que me esconder por duas semanas, pois a polícia política me procurava.  As palavras “libertação” e “libertador” haviam sido banidas e não podiam ser usada publicamente. Custou muito ao advogado da Editora Vozes, que fora pracinha na Itália, para convencer os agentes da vigilância de que se tratava de um livro de teologia, com muitos rodapés de literatura alemã e que não ameaçava o Estado de Segurança Nacional. 
Qual a singularidade do livro (hoje na 21ª.edição)? Ele apresentava, fundada numa exegese rigorosa dos evangelhos, uma figura do Jesus como libertador das várias opressões humanas. Com duas delas ele se confrontou diretamente: a religiosa, sob a forma do farisaísmo da estrita observância das leis religiosas. A outra, política, a ocupação romana que implicava reconhecer o imperador como “deus” e  assistir à penetração da cultura helenística pagã em Israel. 
À opressão religiosa a Jesus contrapôs uma “lei” maior, a do amor incondicional a Deus e ao próximo. Este para ele é toda pessoa da qual eu me aproximo, especialmente os pobres e invisíveis, aqueles que socialmente não contam.
À política, ao invés de submeter-se ao Império dos Césares, ele anunciou o Reino de Deus, um delito de lesa-majestade. Este Reino comportava uma revolução absoluta do cosmos, da sociedade, de cada pessoa e uma redefinição do sentido da vida à luz do Deus, chamado de Abba, quer dizer,  paizinho bondoso e cheio de misericórdia fazendo com que todos se sentissem seus filhos e filhas e irmãos e irmãs uns dos outros.
Jesus agia com a autoridade e a convicção de alguém enviado do Pai para libertar a criação ferida pelas injustiças. Mostrava um poder que aplacava tempestades, curava doentes, ressuscitava mortos e enchia de esperança todo o povo. Algo realmente revolucionário iria acontecer: a irrupção do Reino que é de Deus mas também dos humanos por seu engajamento.
Nas duas frente criou um conflito que o levou à cruz. Portanto, não morreu na cama cercado de discípulos.  Mas executado na cruz, em consequência de sua mensagem e de sua prática. Tudo indicava que sua utopia fora frustrada. Mas eis que aconteceu um evento inaudito: a grama não cresceu sobre sua sepultura. Mulheres anunciaram aos apóstolos que ele havia ressuscitado. A ressurreição não deve ser identificada com a reanimação de seu cadáver, como o de Lázaro. Mas como a irrupção do ser novo, não mais sujeito ao espaço-tempo e à entropia natural da vida. Por isso atravessava paredes, aparecia e desaparecia. Sua utopia do Reino, como transfiguração de todas as coisas, não podendo realizar-se globalmente, se concretizou em sua pessoa mediante a ressurreição. É o Reino de Deus concretizado nele.
A ressurreição é o dado maior do cristianismo, sem o qual ele não se sustenta. Sem esse evento bem-aventurado, Jesus seria como tantos profetas sacrificados pelos sistemas de opressão. A ressurreição significa a grande libertação e também uma insurreição contra este tipo de mundo. Quem ressuscita não é um César ou um Sumo Sacerdote, mas um crucificado. A ressurreição dá razão aos crucificados da história da justiça e do amor. Ela nos assegura que o algoz não triunfa sobre a vítima. Significa a realização das potencialidades escondidas em cada um de nós: a irrupção do homem novo.
Como entender essa pessoa? Os discípulos lhe atribuíram todos os títulos, Filho do Homem, Profeta, Messias e outros. Por fim, concluíram: humano assim como Jesus só pode ser Deus mesmo. E começaram a chamá-lo de Filho de Deus.
Anunciar um Jesus libertador no contexto de opressão que existia  ainda persiste no Brasil e na América Latina era perigoso e subversivo. Não só para a sociedade dominante mas também para aquele tipo de Igreja que discrimina mulheres e leigos. Por isso, seu sonho sempre será retomado por aqueles que se recusam aceitar o mundo assim como existe. Talvez seja este o sentido de um livro escrito há 40 anos.
*Leonardo Boff, teólogo e filósofo, é escritor. - lboff@leonardoboff.com


domingo, 7 de outubro de 2012

Você tem Alzheimer?

Rogério Tuma
Carta Capital


Uma pesquisadora e um aluno da Universidade Georgia Tech desenvolveram um método clínico para diagnosticar déficit cognitivo em idosos antes mesmo de levá-los a uma consulta médica. O que os pesquisadores fizeram foi transformar um método já comumente usado por neurologistas para screening, diagnóstico de demência, em um software que pode ser aplicado mesmo em casa. O método é simples: é só pedir para um indivíduo desenhar em papel um relógio de ponteiros apontando um determinado horário, por exemplo, 1h50. O indivíduo normal desenhará um círculo com todos os números do relógio e apontará o ponteiro menor para o número 2 e o maior para o 10. Um indivíduo com déficit cognitivo terá dificuldades, de acordo com a gravidade da doença, desde não conseguir diferenciar os ponteiros e colocá-los na indicação correta até ser incapaz de desenhar o círculo da borda do relógio.
Tablet. Um software permite que o teste seja feito com mais precisão. Foto: IstockPhoto
O software, desenvolvido pela doutora Ellen Yi-Luen Do, acompanha em um tablet com tela sensível ao toque como o indivíduo desenha o relógio. Um outro soft­ware analisa 13 itens do desenho desde a forma do círculo até o tempo que o paciente demorou para fazê-lo. O sistema chamado ClockMe foi aplicado na Emory Alzheimer’s Center em Atlanta com sucesso, e mesmo os idosos que não tinham familiaridade com computadores não encontraram dificuldade em praticar o teste. Enquanto o sistema não é liberado para uso, você pode treinar no papel; então mãos à obra, faça o desenho e mostre a alguém. Se ficar feio, não faz mal, mas, se você esquecer os detalhes, marque uma consulta com seu médico.
Moral espelhada
Um estudo desenvolvido por Andrew Weaver e Nick Lewis, da Indiana University, analisou a resposta emocional de jogadores de videogames em relação a suas escolhas durante os jogos. O que os pesquisadores descobriram é que a maioria das pessoas tende a fazer escolhas moralmente corretas, e se no jogo precisar roubar, trair ou ter uma atitude antissocial, ela é acompanhada de uma sensação de culpa. Mesmo assim, isso não reduz o prazer de jogar. O estudo publicado na revista Cyberpsychology, Behavior and Social Networking indica que jogos podem ser utilizados como ferramentas para a formação do indivíduo, além de ser um instrumento de análise de seu comportamento moral.

Sotaque atrapalha?
Um estudo da especialista em Linguística Aplicada da Concordia University e de Taia Isaacs, da Universidade de Bristol, analisou a fala em inglês de estrangeiros com sotaque para entender se o jeito das pessoas pronunciarem as palavras interfere muito na compreensão do discurso. A pesquisa publicada na revista Bilingualism: Language and Cognition mostra que o sotaque é uma forma muito particular de cada indivíduo e tem mínima interferência na compreensão da fala, quando comparada com a gramática e o vocabulário. O sucesso do diálogo entre duas pessoas depende da compreensão dela. No estudo foram avaliadas gravações de 40 adultos cuja primeira língua era o francês. Sessenta voluntários e três professores de inglês ouviram as gravações e as pontuaram de acordo com 19 características, incluindo sotaque, vocabulário, gramática e fluência. O que menos teve valor foi o sotaque. Portanto, se você tem medo de falar outra língua, mas tem bom vocabulário, liberte-se, o sucesso está com você.

Claudio Weber Abramo: Vítimas e culpados

O Dia


Rio -  Faz muito tempo que o anúncio dos resultados de eleições no Brasil é acompanhado da constatação de que os eleitos, em particular para o Legislativo, formam contingente de baixa qualidade. Não são poucos aqueles que (como este que escreve) julgam que a qualidade esteja decrescendo. A isso costumam seguir-se considerações sobre a responsabilidade de quem leva políticos desclassificados ao Legislativo — a saber, os eleitores. Daí a se engatarem lamentações a respeito da consciência (ou falta dela) do eleitor é um passo. Ora, o que acontece com os diagnósticos baseados na consciência do eleitor é que transformam a vítima em culpado.
O eleitor é vítima por vários lados. Há o lado da informação. Para votar direito, o sujeito precisa ter informação adequada a respeito da política e dos políticos. Isso não está presente para a vasta maioria do eleitorado. ONGs também contribuem: existem aquelas que dizem defender certos pontos de vista ou interesses, mas que, apesar disso, não geram informação necessária para fazer suas posições conhecidas, inteligíveis e capazes de mobilizar os pretensos beneficiários. Para a desinformação, também concorre a verdadeira multidão de candidatos. É literalmente impossível coletar e divulgar informação objetiva a respeito de todos.
Um segundo aspecto importante que vitimiza o eleitor é a inoperância a que foi reduzido o Legislativo. Devido ao poder desmesurado que os governantes têm de nomear pessoas para ocupar cargos, o Executivo usa essa prerrogativa para comprar o silêncio dos partidos. Tal aquisição é às vezes feita com propinas, como no Mensalão, mas não é a isso a que me refiro. O preço que o prefeito (e o governador, etc.) cobra por lotear a administração entre sua ‘base’ é a neutralização da principal função do Legislativo — a qual não é legislar, mas fiscalizar o Executivo. Como vereadores (e deputados) deixam de exercer seu papel, o que lhes resta para fazer? Gastar dinheiro público para tentar a reeleição.
O eleitor sabe que o Legislativo é basicamente inoperante e a ele dedica a falta de estima que se constata em qualquer pesquisa de opinião. O mesmo não acontece com os candidatos a prefeito — o escolhido é lembrado por quem votou anos depois. Ao contrário do que dizem os comentaristas do facilitário, o eleitor não é inconsciente em relação à distribuição de poder. O que acontece é que ele sabe perfeitamente bem onde reside o poder.
Diretor-executivo da Transparência Brasil

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Francisco de Assis


Facebook e indução ao voto

Fernando Reinach
O Estadão


Ninguém duvida de que as redes sociais alteram crenças e comportamentos humanos. Desde que nossos ancestrais andavam em bandos pelas estepes africanas, as redes sociais serviam para trocar ideias, homogeneizar crenças e influenciar atitudes.
Nessas populações, as redes operavam por conversas face a face, em volta de uma fogueira. Mais tarde, nas cidades, eram as discussões em praça pública, conversas nos mercados e discursos de políticos. Foram essas redes sociais que moldaram o pensamento e as ações das civilizações antigas e das nações modernas.
Mas na última década surgiu a comunicação digital e parte das interações sociais se tornou virtual, por sistemas como o Facebook, o Twitter e outros, que nada mais são que as velhas redes sociais, agora na forma digital. Muitos cientistas se perguntam qual o seu poder real. Exemplos recentes, como a Primavera Árabe, sugerem que as novas redes sociais influenciam o comportamentos e as crenças, mas é difícil distinguir e medir separadamente a contribuição das redes tradicionais e da das digitais. Como teria sido a Primavera Árabe sem e-mail, Twitter e Facebook?
Agora, cientistas de universidades da Califórnia, colaborando com o Facebook, fizeram um experimento para medir o efeito de uma rede social sobre mais de 61 milhões de pessoas. Tanto a maneira como o experimento foi feito quanto os resultados são interessantes. Para entendê-lo, é preciso lembrar que nos EUA o voto não é obrigatório e os políticos têm dois desafios: o primeiro é levar a população às urnas; o segundo é convencê-la a votar neles.
Em 2 de novembro de 2010, quando ocorreram eleições para o Congresso, o Facebook dividiu seus usuários de mais de 18 anos em três grupos. O primeiro, quando abriu o Facebook, viu uma mensagem dizendo: "Hoje é dia de eleição, vote". A postagem possuía mais três informações. A primeira era um "link" dizendo "Clique aqui para saber o posto de votação mais próximo"; a segunda era um botão dizendo "Eu votei"; e a terceira, um contador em que aparecia o número de usuários do Facebook que haviam clicado no "Eu votei".
O segundo grupo recebeu postagem com um elemento a mais: apareciam as fotos de seis "amigos", com seus nomes, dizendo: "Eles já votaram". O terceiro grupo não recebeu nenhuma das mensagens e serviu como controle. O impressionante são os números envolvidos: no primeiro grupo foram colocadas 611.044 pessoas; no segundo, 60.055.176; e no terceiro, 613.096.
No dia seguinte começou o trabalho de análise. Como nos EUA a lista de quem votou é pública, os cientistas cruzaram a lista de votantes com os usuários do Facebook e descobriram quem tinha e quem não tinha votado. Esses dados foram cruzados com as pessoas que apertaram o botão "Eu votei" e com as que acessaram o link que indicava o posto de votação mais próximo. Foi possível determinar o efeito de cada uma das postagens sobre o aumento no interesse anônimo no ato de votar (os que acessaram o link), a propagação para amigos da afirmação de que votaram (os que apertaram o botão) e, entre todos esses, os que realmente votaram.
Os resultados mostram que as pessoas que receberam a mensagem com as fotos apresentaram tendência maior de apertar o botão "eu votei" que as que receberam a mensagem sem as fotos (20,04% versus 17,96%). Os que receberam a mensagem social procuraram mais os locais de votação. Isso demonstra que saber que os amigos votaram estimula as pessoas a dizer que votaram - mas não significa que elas votaram.
Usando dados dos votantes reais, demonstrou-se que a parcela dos votantes reais era 0,39 ponto porcentual maior no grupo que recebeu a mensagem com fotos quando comparada com o grupo que recebeu a mensagem sem fotos. O surpreendente é que a mensagem sem fotos não alterou a porcentagem dos que votaram quando comparados com o grupo que não recebeu mensagem, ou seja, a mensagem sem o nome dos amigos não alterou a participação dos eleitores.
Esses porcentuais são pequenos, indicando que a rede social não tem influência enorme no comportamento, mas como os grupos estudados são grandes, foi possível demonstrar que são estatisticamente significativos. Só esse experimento contribuiu com 886 mil votantes a mais, um aumento de 0,60% em relação às eleições anteriores.
O estudo também descreve o efeito da proximidade do amigo sobre a tendência de votar. Se amigos próximos (aqueles com que mais se interage no Facebook) "votam", a pessoa tem maior tendência de votar.
É o primeiro estudo científico do efeito do Facebook sobre intenções e atos políticos de seus membros. Ele demonstra que o Facebook pode alterar o comportamento das pessoas, mas que essa alteração depende do endosso dos amigos mais próximos.
Ou seja, nosso cérebro continua funcionando como sempre. Confiamos e somos mais influenciados por quem conhecemos. O que me impressionou é que o Facebook recrutou 61 milhões de usuários para participar de um experimento sem pedir autorização. Se por uma lado esse resultado demonstra que as redes sociais podem ser usadas para divulgar campanhas úteis, também abre a possibilidade de uma rede social digital endossar uma candidatura. Será que uma empresa tem o direito de postar nas páginas dos eleitores um pedido direto de voto para um único candidato?

Aristóteles Drummond: O dever do voto

O Dia


Rio -  Domingo vamos votar para prefeito e vereador. O voto, que é obrigatório, precisa ser encarado com mais responsabilidade pelo cidadão. Afinal, fica-se criticando os políticos, mas eles só conseguem mandatos através do eleitor-cidadão. Logo, se são ruins, é porque as pessoas votam sem saber o que fizeram, o que defendem e se têm conceito entre seus pares. Honestidade não basta. Precisam ter equilíbrio e bom-senso.
A Lei da Ficha Limpa, que está prevalecendo, foi boa ajuda ao eleitor. Mas precisa ser bem regulamentada e, em alguns casos, com o auxílio do Judiciário, no sentido de que os que respondem na Justiça e estejam no exercício de mandato eletivo tenham prioridade na tramitação de seus processos e recursos. E poderia valer para os candidatos que pedissem com seis meses antes das convenções a mesma prioridade. Também a Justiça Eleitoral precisa ser mais célere, voltando ao que prevalecia até os anos 80, quando os prazos de impugnação e julgamento antecediam as diplomações dos eleitos. E diplomados, só atos cometidos na vigência dos mandatos poderiam provocar o afastamento das funções. Temos assistido a um festival de equívocos, com dois políticos dividindo o mesmo mandato, inclusive nos executivos, prejudicando a todos.
A reeleição foi boa medida, embora aprovada de maneira questionável, pois não deveria valer para aqueles mandatos, mas para os subsequentes. A manobra, aliás, mancha a biografia de Fernando Henrique Cardoso, que se deixou levar por um conselheiro de comportamento ético questionável. Agora, a lei ajuda o povo a avaliar os gestores. Por isso, tem sido normal a reeleição dos que cumprem com eficiência e probidade suas funções. O povo, neste particular, parece dotado de sentido pragmático de ‘não mexer em time que está ganhando’. É preciso muito cuidado com os que só sabem criticar e disputam eleições com a vantagem de serem pouco conhecidos e de intenções indefinidas.
Vamos votar com responsabilidade. E não na base do disse me disse, que ilude e contraria os fatos.

Lei da Ficha Limpa estreia nas eleições municipais

Jornal do Brasil
Renan Almeida


Legislação nasceu da mobilização popular contra candidatos 'sujos'

No próximo domingo (7), quando eleitores de todo o país escolherão novos prefeitos e vereadores em todos os municípios brasileiros, estará valendo pela primeira vez a Lei da Ficha Limpa. 
Nem por isto, contudo, os eleitores brasileiros se viram livres dos chamados candidatos com a ficha suja. Um levantamento feito pelo site Congresso em Foco junto a todos os tribunais regionais eleitorais mostrou que há centenas de candidatos com alguma irregularidade que  se enquadra na lei da Ficha Limpa. 
O maior número de candidatos com problemas foi registrado no Ceará, com 209 impugnados. A decisão final sobre alguns desses casos será dada pelo Tribunal Superior  Eleitoral, responsável pela análise dos recursos apresentados pelos candidatos. Estes podem continuar suas campanhas enquanto não houver uma decisão definitiva sobre o assunto.
Iniciativa popular
O projeto da Ficha Limpa surgiu em 2010, fruto de iniciativa popular contra a candidatura de pessoas condenadas pela Justiça ou que renunciaram a seus mandatos para escapar de punições.
Em 1999, o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) se mobilizavam pela aprovação de iniciativa popular nº 9840/99 (Lei da Compra de Votos) que tornou a compra de votos crime possível de cassação.
Cinco anos depois, o desembargador Marcus Faver, então presidente do Tribunal Regional Eleitoral do RJ, buscou impedir que pessoas respondendo por processos criminais se candidatassem no Rio. A tentativa de Faver foi vetada pelo Tribunal Superior Eleitoral por falta de respaldo legal.  "Os homens de bem continuarão a viver com criminosos nas casas legislativas”, lamentou à época o ex-deputado federal Antonio Biscaia.
Para transformar o projeto de combate a corrupção eleitoral na Lei da Ficha Limpa, foi preciso uma grande mobilização nacional iniciada por entidades da sociedade civil (MCCE, CNBB, OAB) e outras instituições. Cerca de 46 entidades participaram da iniciativa que recolheu mais de 1,3 milhão de assinaturas e, então, o Projeto de Iniciativa Popular foi levado ao presidente da Câmara, em setembro de 2009.
Depois disso seria necessário a conferência de cada uma das assinaturas, o que demandaria no mínimo mais seis meses. Para agilizar o trâmite, parlamentares de diferentes partidos o encamparam. O ex-deputado Biscaia foi o primeiro a assinar o PLP nº518/2009 que institui a chamada Ficha Limpa: “Essa intolerável realidade precisa ser radicalmente extirpada do mundo político”, observou o ex-deputado no livro Biscaia, insistindo na necessidade de mudança.
O jornalista Moacir Assunção é autor do livro Ficha Limpa – A Lei da Cidadania e durante sua trajetória como repórter político acompanhou de perto toda a mobilização até a aprovação da lei. “Já conhecia o pessoal do MCCE e fiquei sabendo da história da Ficha Limpa. Ninguém acreditava que pegaria e acho que fui um dos primeiros a escrever sobre isso”, conta.
Assunção, que também é professor universitário, diz que percebe uma mudança no comportamento dos eleitores, aparentemente mais atentos aos políticos. Lembra ainda que a lei assume um papel que deveria ser do próprio partido político: “Percebo que os jovens estão mais preocupados. Agora temos um instrumento legal para retirar os corruptos, os picaretas da política. Tarefa que os partidos políticos evidentemente não fazem”, explica.
Durante o recolhimento das assinaturas Moacir Assunção viu situações curiosas que revelam um lado sombrio da política em algumas regiões. Ele revela que na Baixada Fluminense e em algumas cidades de São Paulo o MCCE não conseguia recolher assinaturas de moradores por conta do medo de políticos: “Entrevistei pessoas que diziam claramente que não assinavam por medo do prefeito, do deputado. Nem sempre vemos nos políticos exemplos de democracia”, lamenta.
O jornalista lembra ainda que apesar da lei ter recebido emendas que enfraqueceram um pouco o seu impacto, também houve avanços. No Maranhão, com base na Lei de Acesso à Informação, o juiz Márlon Reis determinou que o nome dos financiadores de campanha e valores fossem divulgados pelos candidatos antes da votação. A decisão motivou juízes de estados como Paraná, Tocantins, Amazonas e Mato Grosso a exigir a medida de transparência em suas Zonas de competência. No Rio, os financiadores são revelados somente após o resultado.
“Seria muito interessante essa determinação de que os políticos revelem quem está financiando. Quero saber se o cara que eu vou eleger é apoiado por figuras estranhas”, comenta Assunção.
Candidatos barrados
No levantamento do site Congresso em Foco não abrange os candidatos de oito estados pois os tribunais do Acre, Alagoas, Bahia, Goiás, Paraná, Piauí, Rio de Janeiro e Rio Grande do Norte não enviaram as informações.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Campanha Eleitoral


Blog do Kledir

As campanhas eleitorais têm muitas histórias folclóricas. No entusiasmo dos palanques, alguns candidatos perdem o bom senso, usam frases de efeito, prometem até a lua e, muitas vezes, dizem um monte de besteiras.
Ponta Grossa, PR. Uma longa fila de autoridades desfilava pelo palco. Deputado Estadual, candidato a reeleição, pegou o microfone e com uma voz rouca gritou: “O povo está cansado de tanto político macarrão!”. Ficou um silêncio, pois ninguém entendeu onde ele queria chegar. Resolveu então explicar a analogia: “Político macarrão! No começo são duros, cheios de princípios. Depois, quando entram na panelinha, começam a amolecer”.
Tem a história daquele senhor idoso de uma cidade do interior do RS, lançado candidato a Senador. Era uma figura querida por todos e resolveram fazer um evento para promover a candidatura. No dia da festa, recebeu uma lista das pessoas importantes que estavam presentes e resolveu saudá-los, um a um: “Saúdo Fulano de Tal, meu querido amigo. Obrigado ao Beltrano, pela presença ilustre...”. E por aí foi, naquela lenga-lenga quilométrica até chegar ao nome de um tradicional político de outro partido: “Sr Fulano, meu querido eleitor...”. Um assessor puxou-o pela manga do casaco e cochichou: “Doutor, esse aí é adversário”. Como já não escutava muito bem, pegou a deixa e arrematou na hora: “E ainda por cima está de aniversário! Eu convido a todos para cantarmos o Parabéns a Você!”. E puxou o coro.
Famoso político paulista, já meio velho e cansado, não agüentava mais a estressante rotina de viagens de uma campanha eleitoral. Depois de vários dias na estrada, num fim de noite, foi carregado para mais um palanque. Subiu de má vontade e foi direto ao microfone: “Meus queridos amigos de São Carlos...”. O prefeito cochichou no seu ouvido: “Aqui não é São Carlos, é São Caetano”. Já de saco cheio o velho resmungou: “Ah! É tudo a mesma merda!”. Só que o microfone estava aberto e o comentário soou em alto volume pela praça lotada. Conclusão, não levou nenhum voto no município e teve de sair sob escolta policial.
Interior do Ceará. Candidata à vereadora, discursando entusiasmada em praça pública, soltou o chavão: “O voto é um instrumento da democracia, não pode ser vendido”. A platéia veio abaixo com uma salva de palmas. Empolgada com os aplausos, ficou ainda mais inflamada e arrematou: “Voto é que nem bunda. A gente só dá pra quem a gente quer!!!”.

Alienação política de jovens é tendência mundial

Jornal do Brasil
Alana Gandra/Agência Brasil


Embora o número de eleitores aptos ao voto facultativo, com 16 e 17 anos de idade, tenha aumentado em relação à última eleição, em 2010, a percepção é que há um desinteresse dos jovens nessa faixa etária em relação à eleição deste ano. 
A avaliação é do cientista político Eurico de Lima Figueiredo, da Universidade Federal Fluminense (UFF). Para ele, essa percepção não é só restrita ao Brasil. ''A desmotivação é mundial'', disse. ''Parece que nós vivemos uma época em que os jovens encontram soluções que já estão dadas'', completou. 
Figueiredo acredita, no entanto, que principalmente agora, na Europa, haverá um recrudescimento da participação juvenil na tentativa de encontrar soluções para os novos problemas colocados pela crise econômica. ''A tradição mostra que são os jovens que mais reagem a situações de crise, inclusive porque eles trazem dentro de si o futuro e reconhecem nas situações críticas do presente o que não deve ser feito e o que precisa ser mudado''.
 No caso do Brasil, analisou que a última participação forte da juventude na política ocorreu com a geração dos ''caras pintadas'', que foram às ruas pelo impeachment de Fernando Collor, da Presidência da República (1992). Por isso, reiterou que a desmotivação é uma tendência geral do mundo, que vive uma situação que, ''para o jovem, é relativamente confortável''.
 Segundo o professor de pós-graduação em ciência política da UFF, há uma ideologia espalhada no ar, que se denomina pós-modernismo, onde se cultiva muito o individualismo, em vez das preocupações coletivas e sociais. E isso tudo influencia o comportamento juvenil. ''Por isso, não é de se estranhar que haja essa desmotivação'', declarou.
Vinicius de Sá Machado foge a essa regra. Morador de São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro, o estudante de 17 anos lamentou ter perdido o prazo para tirar o título de eleitor para poder votar no próximo domingo (7). Ele se definiu motivado. ''Os candidatos todos despertam o interesse. Mas muitos prometem e não fazem nada'', disse à Agência Brasil. ''Eu queria votar para ajudar a minha cidade'', acrescentou. 
O presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Daniel Iliescu, chamou a atenção para o fato que apesar de o número percentual de jovens entre 16 e 18 anos incompletos com inscrição eleitoral não ser tão expressivo, ''ano a ano, nas eleições, nunca tantos jovens estiveram aptos a votar''. 
De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o número de brasileiros de 16 e 17 anos que têm inscrição eleitoral subiu de 2.391.092, em 2010, para 2.913.627 este ano. O mesmo ocorreu em relação ao estado do Rio de Janeiro, onde o número de eleitores nessa faixa etária evoluiu de 103.948, na eleição de 2010, para 117.988, em 2012. Iliescu observou que ao mesmo tempo é grande o número de candidatos jovens. ''No geral, vai ser uma eleição que tem recorde de participação de jovens, tanto em eleitores, como em candidatos''. 
Por essa razão, definiu como relativo o dado que aponta uma desmotivação dos eleitores de 16 e 17 anos para o pleito deste ano. Destacou que o voto para menores de 18 anos foi um direito conquistado na Constituição de 1988. ''É um direito caro para o país e uma forma importante de os jovens entrarem em contato com a cidadania e com seus deveres enquanto cidadãos para opinarem sobre a política em seu país''. 
A UNE pretende trabalhar para que os jovens ''agarrem esse direito com mais expressão''. A impressão do presidente da entidade estudantil é que existe um certo desencanto, uma rejeição à política, diante do atual cenário político nacional. ''Mas, por outro lado, existe cada vez mais entre os jovens a noção que a política ajuda a mudar as coisas''. Entre as políticas públicas que obtiveram sucesso nos últimos tempos, citou como exemplo a questão das cotas.
 A percepção, explicou Iliescu, é que o jovem, ao prestar mais atenção no debate eleitoral, pode mudar as coisas no Brasil, ''devido à vigilância da sociedade contra a corrupção''. ''Se por um lado existe uma certa rejeição à política, eu entendo que ela vai cedendo espaço, cada vez mais, a uma vontade do jovem de participar mais das coisas''. O presidente da UNE estimou, porém, que serão necessárias mais algumas eleições para que essa participação da juventude na política possa se tornar mais nítida''. 
02 de outubro de 2012  18h01

O Astro...


Fonte: Folha da Manhã

Carla Machado e Alexandre Rosa presos em SJB

O deputado federal Anthony Matheus, o Garotinho (PR), tem mesmo uma bola de cristal infalível sobre as ações da Polícia Federal (PF) na região que domina politicamente. Exatamente de acordo com suas previsões, feitas aqui, no último dia 30 de junho, durante a convenção do PR de São João da Barra, uma operação da PF acabou de ser realizada, entre às 20h30 e 23h de ontem, na qual foram presos por agentes federais a prefeita Carla Machado (PMDB) e o vice na chapa governista, o vereador Alexandre Rosa (PMDB).
Até o presente momento sem ter o motivo da prisão revelado, nem no local, nem na delegacia regional da PF em Campos à qual os dois foram em seguida encaminhados e se encontram incomunicáveis, até do contato com seus advogados, Carla e Alexandre foram detidos após o comício de Neco na noite passada, em Grussaí. Segundo a última pesquisa, do insituto GPP, feita entre os dias 26 e 27 de setembro e divulgada aqui, a chapa Neco/Alexandre lidera com folgas a corrida eleitoral em São João da Barra, com 55,1% das intenções de voto, contra 33,5% do ex-prefeito Betinho Dauaire (PR), candidato de Anthony Matheus, o Garotinho.
Quando Garotinho fez sua “previsão” sobre operação da PF, contra seus adversários políticos em São João da Barra, que só agora, a cinco dias da eleição, finalmente aconteceu, o blog do advogado Cláudio Andrade, assessor do deputado estadual Roberto Henriques (PSD), divulgou um vídeo que circulava no Youtube, com trechos do discurso do ex-governador e, no final, com imagens do documento da nomeação do dentista Paulo Cassiano para a superintendência da secretaria de Saúde de Campos, no governo Rosinha Garotinho (PR). Ele é pai do delegado titular da Polícia Federal (PF) em Campos, Paulo Cassiano Júnior.
Ouvido à época pela repórter da Folha Suzy Monteiro, Paulo Cassiano Júnior classificou o discurso de Garotinho como “bravata”, dizendo:
— Faz parte do processo eleitoral e todos conhecem o estilo do ex-governador, que usa discursos desse tipo para intimidar ou conquistar as pessoas. Nos três anos e meio que estou em Campos não houve vazamento de informações em nenhuma de nossas operações. Ele está jogando, se acontecer estava certo. Se não, poderá justificar de outra maneira.
Na matéria, Cassiano Júnior também ressaltou que seu pai é funcionário da Prefeitura de Campos há quase 37 anos, passando pelos governos de Rockfeller, Garotinho, Sérgio Mendes, Arnaldo Vianna, Mocaiber e agora Rosinha: “Ele sempre cumpriu expediente normal, foi chamado pelo secretário para a superintendência, um serviço burocrático e não é ordenador de despesas como colocaram ali”, garantiu, não sem assegurar que investiga denúncias que chegam à delegacia sem se importar com “cor partidária”.
Postado aqui no Youtube, quem foi condenado como quadrilheiro (aqui) pela Justiça Federal, acusa a prefeita sanjoanense como “chefe de quadrilha”, no vídeo reproduzido abaixo…
Atualização às 3h15: A primeira divulgação da notícia da prisão de PF de Carla Machado e de Alexandre Rosa, foi feita (aqui) pelo portal sanjoanense de notícias OZK.
Atualização às 3h24: Segundo o blog “Quatro elementos” (aqui), da jornalista Thais Aguiar, primeira hospedada na Folha Oline a divulgar a notícia, advogados de Carla Machado classificaram a prisão da prefeita como “ilegal e abusiva”.