terça-feira, 10 de abril de 2012

Galiléia, Brasil: Lágrimas...

Milton Cunha
Jornal O Dia

      Rio - O ator estava se enfocando de verdade, ninguém sabia, provavelmente o público mudo pensava sobre Judas, o padecimento da traição e o arrependimento. Silêncio sepulcral diante da dor do condenado, com luz magnífica e figurino exuberante. Só que o interprete agonizava de verdade, mas era impossível respirar ou gritar pedindo socorro: “Me tirem daqui, me despendurem, eu vou morrer em Semana Santa, diante da plateia lotada”. Que sufoco, meu Deus!
      É assim que estamos, atônitos, hoje, no Brasil: esta Paixão de Cristo às avessas, com risco de morte para inocentes e bem intencionados, é a cena que melhor nos representa como cidadãos que estão mudos, estatelados, observando apáticos o enforcamento real de tantos Judas na política. Vivemos medindo quantidades de verdade e mentira. De tão irreal, não sabemos mais se é vida ou encenação. Fomos traídos pelos grandes atores que interpretaram magnificamente seus papéis. Jamais desconfiamos e, agora que a corda está apertando, ainda aguardamos a cena seguinte, pois sabemos que os atores poderão ou serão levados para a enfermaria e sairão vivos do que era encenado como seus reais enforcamentos. O fiapo de respiração poderá ser revivido, reanimado pela máquinas da engrenagem despudorada. Caifás, Sarneys, Pilatos, Cachoeiras, Demóstenes, Stephans, eu quero ser Betsabé!
      E deles, o único (?) verdadeiro ator, Stephan Nercessian, contraditoriamente levanta a bola: “Não sei se teria cara de pau para pedir votos novamente”. Eu preciso de ajuda, urge que juntos pensemos nesta calamitosa situação onde quem ganha a vida para interpretar, portanto, um mestre profissional de viver outras vidas; é deste enganador por profissão, que cobra para que a gente possa sentar no cinema ou teatro, ou que ganha para que a gente pare diante da TV para assisti-lo sendo o que não é, este ator é o único que declara que não aguentará mais vir a público para interpretar o bom político.
      Porque dói no ator e as centenas de outros políticos não artistas tiram de letra a cara de pau de, depois do escândalo, pedir de novo para que o elejam? Afinal, Stephan só estaria mais uma vez fazendo o que todos fazem (sendo que ele, talentoso, estudou para isto)! Confesso que não entendo mais nada. Estou diante do Judas, que não é Judas, encenando o enforcamento, que não deveria ser, mas é real, porque o truque não deu certo, a corda de suporte soltou da pulia e o gancho que devia sustentar na costa está puxando o pescoço. Inverteram o drama, tinha que parecer mas não ser, só que agora é. Deu pra entender? Nem eu... Jeová, me acode!
      De tão irreal, não sabemos mais se é vida ou encenação. Fomos traídos pelos grandes atores que interpretaram papéis



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Acusado de homicídio recebe medalha
Jornal O Dia, por Fernando Molica

       Rio - Acusado pelo homicídio do policial federal Humberto José Figueira Barrense, o produtor de eventos Pedro Maia Schmitt (esq.) recebeu, no dia 19 de março, a Medalha Pedro Ernesto concedida pela Câmara Municipal.
      Proposta pelo então vereador Marcelo Arar (dir.), do PT, e aprovada por seus colegas, a condecoração, segundo o site da Câmara, é “a principal homenagem que o Rio de Janeiro presta a quem mais se destaca na sociedade brasileira ou internacional”.

Pedro Maia Schmitt recebe medalha | Foto: Divulgação
Pedro Maia Schmitt recebe medalha

Foto: Divulgação

      Barrense foi morto, em 2010, pelo também policial federal Leonardo Schmitt, irmão de Pedro, durante um evento de música eletrônica promovido na Marina da Glória.
      Pedro é acusado de co-autoria
      Leonardo admitiu que atirara em Barrense, mas alegou legítima defesa. Organizador do evento, Pedro Maia foi denunciado como co-autor do homicídio: ele teria induzido o irmão a atirar na vítima. Leonardo discutiu com Barrense porque este teria se recusado a deixar sua arma com os seguranças da festa.
      Os dois irmãos, que chegaram a ser presos, estão em liberdade provisória. Em 2010, o empresário foi considerado foragido, porque demorou três dias para se entregar. Ao apresentar sua proposta de homenagem a Pedro Maia, Arar (que voltou a ser suplente de vereador), contou com o apoio de 17 colegas. O requerimento foi aprovado no dia 1º de março, aniversário do Rio.



segunda-feira, 9 de abril de 2012

A perpetuação da pobreza

Carta Capital
Dráuzio Varella

      As periferias das cidades brasileiras parecem umas com as outras: casas sem reboco, grades de segurança, fios elétricos emaranhados, vira-latas e criançada na rua. Há 13 anos faço programas de saúde para a televisão. Procuro gravá-los nos bairros mais distantes, por uma razão óbvia: lá vivem os que mais precisam de informações médicas.
      Esta semana, como parte de uma série sobre primeiros socorros, gravamos a história de um menino de 2 anos que abriu sozinho a porta do forno, subiu nela e puxou do fogo o cabo de uma panela cheia de água fervente. A queimadura foi grave, passou duas semanas internado no hospital do Tatuapé, em São Paulo. Situada na periferia de Itaquera, a casa ocupava a parte superior de uma construção de dois andares. Subi por uma escada metálica inclinada e com degraus tão estreitos, que precisei fazê-lo com os pés virados de lado.
      A porta de entrada dava numa cozinha com o fogão, a geladeira, as prateleiras com as panelas e uma pequena mesa. Um batente sem porta separava-a do único quarto, em que havia dois beliches, um guarda-roupa e uma divisória de compensado que não chegava até o teto, atrás da qual ficava a cama em que dormiam o pai e a mãe.
      Nesse espaço exíguo viviam dez pessoas: o casal, seis filhos e dois netos. Os filhos formavam uma escadinha de 2 a 17 anos; os netos eram filhos das duas mais velhas, que engravidaram solteiras. O único salário vinha do pai, pedreiro. Por falta de pagamento, a luz tinha sido cortada há dois meses, os 300 reais da dívida a família não sabia de onde tirar.
      No fim da gravação perguntei à mãe, uma mulher de 38 anos que pareciam 60, por que tantas crianças. Disse que o marido não gostava de camisinha, e que a existência dos netos não fora planejada, porque “essas meninas de hoje não têm juízo”.
      Na periferia do Recife, de Manaus, de Cuiabá ou Porto Alegre a realidade é a mesma: a menina engravida em idade de brincar com boneca, para de estudar para cuidar do bebê que já nasce com o futuro comprometido pelo despreparo da mãe, pelas dificuldades financeiras dos avós que o acolherão e pelos recursos que terá de dividir com os irmãos.
      Na penitenciária feminina, quando encontro uma presa de 25 anos sem filhos, tenho certeza de que é infértil ou gay. Não são raras as que chegam aos 30 anos com seis ou sete. Não fosse o tráfico, que alternativa teriam para sustentar as crianças?
      Já escrevi mais de uma vez que a falta de acesso aos métodos de controle da fertilidade é uma das raízes da violência urbana, enfermidade que atinge todas as classes, mas que se torna epidêmica quando se dissemina entre os mais desfavorecidos. Essa afirmação causa desagrado profundo em alguns sociólogos e demógrafos, que a acusam de forma leviana por não se basear em estudos científicos. Afirmam que a taxa de natalidade brasileira já está abaixo dos níveis de reposição populacional.
      É verdade, mas não é preciso pós-graduação em Harvard para saber que as médias podem ser enganosas. Enquanto uma mulher com nível universitário tem em média 1,1 filho, a analfabeta tem mais de 4. Enquanto 11% dos bebês nascem nas classes A e B, quase 50% vêm da classe E, com renda per capita mensal inferior a 75 reais.
      De minha parte, acho que faz muita falta aos teóricos o contato com a realidade. Há necessidade de inquéritos epidemiológicos para demonstrar que os cinco filhos que uma mulher de 25 anos teve com vários companheiros pobres como ela, correm mais risco de envolvimento com os bandidos da vizinhança do que o filho único de pais que cursaram a universidade? Convido-os a sair do ar condicionado para visitar um bairro periférico de qualquer capital num dia de semana, para ver quantos adolescentes sem ocupação perambulam pelas ruas. Que futuro terão?
      A falta de acesso ao planejamento familiar é a mais odiosa de todas as violências que a sociedade brasileira comete contra a mulher pobre.

Pode existir amizade entre o professor e o aluno?

Fonte: http://antoniozai.wordpress.com/

      Pode haver amizade entre o(a) professor(a) e os(as) alunos(as)? Se a amizade pressupõe igualdade, ela não tem espaço onde as relações humanas se pautam por relações de poder. A autoridade do professor pode ser exercida democrática ou autoritariamente, mas não deixa de expressar relação de poder. Ambos, professores e alunos, de certa forma, representam papéis diferentes. Como escreve Vernant (2002, P. 31)*:
      “Um professor age como um ator quando chega numa sala de aula. Mas existem diferentes formas de atuar. Podemos bater na mesa e mostrar toda a distância que separa alunos do professor. Podemos jogar o jogo contrário, e foi o que fiz quando dei aulas no colégio: não só sendo informal com os alunos, mas procurando abolir, até nas roupas e no vocabulário, qualquer indício de autoridade conferida por uma hierarquia social. Evidentemente, o professor sabe muito bem, seja qual for a estratégia que adotar, que não é a mesma coisa ser professor e ser aluno.”

      O aluno também tem plena consciência da realidade que o interpõe ao professor. Ele joga o jogo e pode vislumbrar na postura do professor uma simples manifestação demagógica – como também pode se convencer, simplesmente, de que o professor é um tolo. Faz parte da sua estratégia de sobrevivência diante das regras sociais e burocráticas. É compreensível. Por mais que o professor se mostre democrático e amigo, ambos, ele e o aluno, sabem que: “Aquele que está sentado em sua carteira e aquele que se encontra atrás da mesa não possuem o mesmo estatuto. A estratégia da não-distância pode ser muito eficiente ou, ao contrário, conduzir aquele que a usa para a catástrofe” (p. 31-32).
      Professor e aluno expressam uma relação social. Contudo, a representação democrática implica a idéia de que ambos compartilham do mesmo grupo, constituem uma comunidade. Neste sentido, é possível estabelecer um jogo que questione a hierarquia socialmente definida. Para Vernant, não se trata apenas de uma habilidade, mas de “uma estética, e de uma ética da relação social” (p. 32). O professor ético não tenta iludir seu aluno, até porque este sabe que o poder burocrático-institucional legitima a função professoral.
      “É preciso começar por deixar de ser professor para poder sê-lo”, afirma Vernant. Mas é possível ao professor deixar de sê-lo, abdicar do seu papel e mesmo do seu poder? E ainda que o faça não soará como falso ao seu aluno? A amizade implica um cimento que une os iguais em suas diferenças e permite a constituição da comunidade. A idéia de que professores e alunos constituem uma comunidade, um grupo, indica que, apesar do jogo de poder, eles são cúmplices:
      “Esse elemento fundamental é o sentimento de cumplicidade, de uma comunidade essencial sobre as coisas mais importantes. Na relação do professor com seus alunos, é o fato de compartilhar uma certa imagem do que deve ser uma pessoa, de ter em comum uma forma de sensibilidade e de abertura para o outro, de concordar com a idéia de que ser outro significa também ser semelhante” (Id.).

      É preciso anular a distância que separa professores e alunos, mas é possível? Não se pode ser simultaneamente professor e aluno. Também não se deve perder de vista que “as estratégias igualitárias têm um aspecto hipócrita, demagógico, e podem na verdade reforçar as posições de poder” (Id.). E os limites entre o democrático e demagógico são tênues. Porém, se o ser professor indicar uma atitude fundada em algo mais forte do que a relação de poder. Ou seja, se há ética na relação social e a compreensão de que professor e aluno constituem uma comunidade, então é possível diminuir a distância que os separa e fortalecer a relação fundada no sentimento de amizade. Este sentimento não indica harmonia, mas pertencimento à mesma comunidade. Ao pautarmos a relação por esta ética e sentimento, a amizade nos transforma. Assim, se o professor demonstra amor pelo que faz e respeito aos seus alunos, maior será a possibilidade destes se verem numa relação social formadora de uma comunidade cimentada por laços de solidariedade.
      A amizade “sempre implica afinidades relativas às coisas essenciais” (p. 33). Trata-se de colocar em destaque o que é fundamental na relação professor-aluno para que eles se reconheçam enquanto um grupo constituído, uma comunidade. Pois a amizade também implica em que os diferentes compartilhem para que possam criar algo juntos. Nesta relação, o professor se constrói e também aos seus alunos: na medida em que está aberto ao outro, este outro se reflete nele e ele se transforma; mas, simultaneamente, transforma o outro. Nessa interação, que é conflitante e contraditória, a amizade torna-se possível.
      E você, caro(a) leitor(a), considera possível a amizade entre professores e alunos? Como avalia os argumentos expostos acima?


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* Esta reflexão resulta de notas de leitura da obra Entre Mito e Política, de Jean-Pierre VERNANT (São Paulo: Edusp, 2002). Todas as citações se referem a este livro.


quarta-feira, 4 de abril de 2012

Jovem da periferia de SP passa em Harvard e outras 5 universidades dos EUA

Felipe Oda, do Jornal da Tarde

Tábata Pontes já estava estudando na USP; ela é filha de cobrador de ônibus e uma vendedora de flores



      Uma medalhista olímpica brasileira, vinda da rede pública de ensino, está prestes a trocar o Brasil pelos Estados Unidos. Tábata Amaral de Pontes, de 18 anos, tem mais de 30 medalhas no currículo, entre competições nacionais e internacionais de física, matemática, química e astronomia, como mostrou o Jornal da Tarde em fevereiro. À época, a notícia era a aprovação dela na Universidade de São Paulo.
      Agora, o leque de opções aumentou. Filha de um cobrador de ônibus e de uma vendedora de flores, moradores da periferia de São Paulo, no extremo da zona sul, Tábata foi aprovada em seis universidades norte-americanas: Harvard, Caltech, Columbia, Princeton, Yale e Pennsylvania. Ela concluiu o ensino médio no Etapa, como bolsista.
      A felicidade de Tábata só não é maior porque a confirmação da aprovação em Harvard, na quinta-feira, foi recebida três dias antes do falecimento de seu pai. Por conta disso, a jovem não pôde conversar com a reportagem.
      Em fevereiro, antes de conhecer os resultados das universidades americanas, Tábata disse ao JT que a experiência poderia ajudá-la a contribuir com “a educação no País”. Ela é fundadora do programa Vontade Olímpica de Aprender, (VOA) que dá aulas de matemática para alunos de colégios públicos. À época, chegou a comentar: “parece impossível passar, mas esse é o meu sonho”.

Estudante tem mais de 30 medalhas em olimpíadas escolares - André Lessa/AE-7/2/2012
André Lessa/AE-7/2/2012

Da periferia aos Estados Unidos

      Aos 18 anos, Tábata Cláudia Amaral de Pontes já pode se aposentar. Ela é a rainha de competições internacionais e nacionais que pouca gente conhece: as olimpíadas de física, matemática, química e astronomia. Ganhou mais de 30 medalhas mundo afora, algumas com um gostinho especial.
      Foi por causa de uma delas, por exemplo, que recebeu uma bolsa de estudos do Colégio Etapa, aos 13 anos, quando ainda estava no ensino fundamental, em uma escola pública da periferia da zona sul. Mas o problema não era apenas pagar pelos estudos.
      Tábata levava muito tempo para se locomover entre a escola, na Vila Mariana, e sua casa, na Vila Missionária, região de Cidade Ademar, na zona sul. Além disso, essa era uma despesa que seus pais, uma vendedora de flores e um cobrador de ônibus, não tinham como manter.
      De olho no talento da menina, a escola ofereceu moradia em um hotel próximo, alimentação, passagens e curso de inglês. Neste domingo, dia de sua formatura no ensino médio, ela deixa a escola à espera dos resultados em dez vestibulares de instituições norte-americanas, entre elas Harvard e Stanford.
      E, se a carreira de atleta olímpica terminou, o talento da menina ainda pode render mais frutos. Já aprovada em Física pela Fuvest e no aguardo de respostas das universidades internacionais, ela ministra aulas de olimpíada no Etapa, para futuros competidores.
      Fora da escola Tábata também serve de exemplo: ela fundou projeto social de aulas para alunos da rede pública e ainda incentivou sua mãe a retomar os estudos, concluídos no ano passado, num curso supletivo. No quarto de hotel em que vive hoje, contou ao Jornal da Tarde sobre sua trajetória nos bancos escolares.

      Como começou a sua carreira olímpica?
      Participei de uma olimpíada (da área de exatas) pela primeira vez em 2005. Estava na 5ª série e estudava num colégio estadual. Fiquei com a medalha de prata da primeira Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep) e, como premiação, ganhei um curso de matemática aos sábados no Colégio Etapa. No ano seguinte, ainda como aluna de colégio público, eu ganhei a olimpíada. Sempre tive facilidade e também gosto das matérias de exatas.

      O convite para estudar no Etapa surgiu quando?
      Em 2007 fui convidada para estudar lá. Mas não tinha condições de arcar com os estudos e ganhei uma bolsa integral. O convite foi um reconhecimento do meu esforço, eu acho. Mudei para o Etapa na 7ª série e demorei para me adaptar.

      Como foi a mudança para uma escola particular?
      Não tive dificuldades com as matérias, mas sim para me acostumar com um colégio particular. Tudo é muito diferente. No primeiro ano, fiquei deslumbrada. Tão deslumbrada que, no ano em que entrei no Etapa, acabei deixando as olimpíadas de conhecimento de lado. Imaginava que só de estar num colégio particular estava com o futuro garantido. Só voltei a pensar nas olimpíadas um ano depois, em 2008, já ambientada.

      Quais foram as dificuldades com o novo colégio?
      No começo, era o deslumbramento. Depois, o problema era financeiro. Gastava muito com transporte e alimentação. Também era uma rotina pesada. Saía 22h30 do Paraíso e chegava meia-noite na casa dos meus pais. Foi quando o Etapa começou a pagar um hotel próximo ao colégio para eu morar durante a semana e ajudar nos custos. Mesmo assim, ainda sofri para me acostumar com a distância dos meus pais.

      Por que decidiu retomar as olimpíadas no Etapa?
      Eu não fazia parte da equipe olímpica de conhecimento do Etapa. Mesmo assim, por ser medalhista pelo colégio público, fui convidada no final do ano (em 2007) para participar da confraternização da equipe. Eles vestiam uma camiseta especial e falei para o meu pai que, no próximo ano, eu também estaria vestindo aquele uniforme. Parece bobagem, mas vê-los me despertou a vontade de voltar a competir. Nesse mesmo dia, também assisti a uma palestra de um representante do MIT (Massachusetts Institute of Technology) e decidi que iria estudar no exterior.

      Como se preparou?
      Em 2008 eu descobri as competições de física e me apaixonei. Participei de competições na Turquia, China e Polônia. Foi fácil retomar, porque nas competições você conhece muita gente bacana. É um lugar incrível para fazer amizades. Também entrei na equipe do Colégio Etapa e cumpri a promessa que tinha feito ao meu pai. Passei a estudar e treinar com eles matemática, física, química, robótica e astronomia e a dar aulas num projeto.

      Qual o projeto?
      Há três anos, criei o projeto VOA, Vontade Olímpica de Aprender, com amigas do Etapa. Sabe, me parecia correto retribuir as oportunidades que eu tive. Nós damos aulas aos domingos de matemática e astronomia para alunos de colégios públicos. Funciona assim: buscamos colégios públicos que queiram montar equipes de conhecimento e preparamos o grupo. Hoje, temos apoio do Rotary Clube e do Etapa. Trabalhamos com oito escolas na zona sul e cerca de 200 alunos já passaram pelo projeto.

      As competições internacionais despertaram a vontade de estudar no exterior?
      No dia em que assisti à palestra do representante do MIT, eu soube que queria estudar nos Estados Unidos. Mas sabia que teria dificuldade com a língua inglesa. Ex-aluna de um colégio público, meu inglês era fraco. Há dois anos, pelo Etapa, eu também consegui uma bolsa numa escola de línguas. Fiz o curso intensivo para me preparar para os exames da universidades norte-americanas. Sei que lá fora poderei combinar graduações, algo mais difícil aqui no Brasil. Quero estudar astrofísica e ciências políticas ou sociais.

      Quais vestibulares você prestou lá fora?
      Aguardo o resultado de Harvard, Stanford, MIT, Columbia, Yale, Dartmouth, Caltech, Princeton e Penn (University of Pennsylvania). Prestei Astrofísica e Ciências Sociais e Políticas. Parece impossível conseguir passar, mas é o meu sonho. As melhores cabeças vão estudar nessas universidades. Acho que poderei ajudar depois com a educação no País. É um sonho também.

      Algumas vez você já sofreu com cobranças?
      Não. Meus pais nunca me cobraram. Minha mãe terminou no ano passado o supletivo do ensino médio. Ela é vendedora de flores e decidiu voltar aos estudos com o meu incentivo. Já meu pai é cobrador de ônibus há pelo menos dez anos. Eles sempre me incentivaram, mas nunca exigiram nada. O colégio também não. ::














terça-feira, 3 de abril de 2012

Não existem ateus na Bahia

Cynara Menezes, Carta Capital


      Um ateu baiano é que nem uma pessoa que crê em Deus: ambos têm diante de si a dura missão de convencer o mundo. O crente é desafiado a provar a vida inteira, inclusive a si, que há um Deus. Já o ateu baiano, nascido numa terra cuja capital, reza (ops) a lenda, possui uma igreja para cada dia do ano – sem contar os inúmeros templos evangélicos e terreiros de candomblé –, carrega a sina de provar que ele próprio existe. Que de fato não crê em nada, mas nada mesmo. Está lançado o desafio. Como um São Tomé do ceticismo, só acredito vendo.
      Até o mais célebre ateu baiano, o comunista Jorge Amado, cujo centenário se comemora este ano, tinha sua queda pelos orixás. Todo mundo lá sabe disso: era o ateu que “simpatizava” com o candomblé. Estive no velório do escritor, em 2001. Havia uma cruz atrás do caixão. E uma senhora da Irmandade da Boa Morte, confraria afro-católica do recôncavo, que entoava cânticos, me disse: “Sabemos que ele era ateu, mas também que era do culto afro”. Não é por acaso que o título do famoso romance de sua mulher, Zélia, é “Anarquistas, Graças a Deus”. O casal Amado pertencia a um tipo bastante comum na Bahia: o “ateu-de-todos-os-santos”.
      Jorge Amado chegou a exercer o posto de Obá de Xangô no Ilê Axé Opô Afonjá, o respeitadíssimo terreiro de mãe Stella de Oxóssi, no bairro do Cabula. Ser Obá, um cargo honorífico, significa ser amigo e protetor do terreiro. Ainda moço, o escritor tinha recebido do pai-de-santo Procópio seu primeiro título no candomblé, Ogã, o “guardião das chaves da casa”. Bem a propósito, uma das frases mais belas sobre a fé que conheço, de Caetano Veloso, dizem que foi inspirada em Jorge Amado: “Quem é ateu e viu milagres como eu/ Sabe que os deuses sem Deus/ Não cessam de brotar,/ Nem cansam de esperar”. Ateus baianos enxergam milagres…
      Quando era adolescente, em Salvador, cismei de ser atéia, embora só tenha parado de rezar o “Santo Anjo” antes de dormir já perto dos 30. Vocês não imaginam o tanto de gozação que sofri da família: “Ih, ela agora inventou de não acreditar em Deus”, e dá-lhe risadaria. Logo eu, que era a primeira a entrar na fila dos netos que iam tomar banho de folha no sofá da sala de estar dos avós… Meu pai ainda hoje fala assim: “Sei que você não acredita em nada, mas… Aliás, como uma pessoa consegue viver sem fé nenhuma?”
      Na faculdade, um professor contou a história de um amigo superateu baiano que na hora da morte se agarrou num crucifixo e começou a gritar: “Meu Deus, não me deixa morrer, eu acredito! Eu acredito!” Nestes momentos, meu ateísmo sofria sérios abalos, assim como minha fé na existência de ateus baianos. Com o tempo, fui me tornando cada vez menos atéia e a simpatizar cada vez mais com os santos, católicos e do candomblé. Como Jorge Amado, sou sincrética pacas. Não dou a mínima para Deus, mas adoro São Francisco. E Iemanjá é praticamente uma pessoa da família. Vovó costuma dizer: “Gosto muito dela!”
      Me arrisco a dizer que existe uma fé ou talvez uma dúvida nata no baiano. No máximo, há baianos agnósticos. Na Bahia, mesmo o ateu que se diz ferrenho tem seu quarto dos santos no fundo da casa, carrega consigo uma medalhinha ou um patuá, toma banho de pipoca no dia de São Lázaro, “só de farra”, ou diz para a avó “a bença, vó” – “só por costume”. Como diria outro baiano, Gilberto Gil, “mesmo a quem não tem fé/ a fé costuma acompanhar/ pelo sim, pelo não…”. De onde virá isso, de nossa África ancestral? Não saberia dizer. Mistério.
      Um livro que me impressionou e influenciou profundamente na vida foi uma pequena grande obra de Miguel de Unamuno, São Manuel Bueno, Mártir. É a história de um padre que esconde um segredo: não possui fé. E o martírio que se coloca é fingir aos fiéis, transmitir a eles a existência de Deus sem acreditar nela. O ateu baiano é uma espécie de São Manuel Bueno, Mártir da não-religiosidade. Todos os dias, o ateu nascido na Bahia professa sua não-fé em coisa alguma, mas dentro dele uma fagulha de crença no imaterial, no sobrenatural, no que não está ao alcance dos olhos – chame a isso sorte, acaso ou destino –, insiste em permanecer acesa.
 
      P.S.: Como boa baiana, Semana Santa para mim é sinônimo de caruru, vatapá, moqueca, fritada de bacalhau. Tudo comida de santo! Boa Páscoa a todos.

Um grito preso na garganta

Jandira Feghali, O Dia

      Rio - No último dia 29 de março, cerca de 50 anos depois do golpe militar, fomos surpreendidos por um episódio que chocou o Brasil e o mundo: um ato pró-golpe de 64, um elogio simbólico àquele período brutal. A falta de respeito de alguns setores militares para com a decisão do governo democrático brasileiro, em proibição à comemoração de um dos momentos mais vergonhosos vividos no Brasil, culminou com a ação truculenta da Polícia Militar do Rio de Janeiro em resposta à manifestação pacífica, organizada por jovens que almejam e defendem a liberdade e a verdade. Pulmões que deveriam respirar a liberdade respiraram gás lacrimogêneo. Olhos que deveriam conhecer a verdade foram atacados com spray de pimenta.
      Mais uma vez o grito por liberdade foi contido por aqueles que promoveram a morte, a tortura e a tristeza do nosso povo. Uma cena lamentável que nos envergonha frente ao nosso povo e aos nossos irmãos latino-americanos que vêm dando um exemplo de resgatar os crimes praticados por suas ditaduras.
      São mães que não puderam enterrar os filhos. Filhos que não conheceram os pais. Homens e mulheres que carregam cicatrizes profundas, no corpo e na alma, pela tortura física e psicológica.
      A Comissão da Verdade tem a tarefa de colocar à luz do dia todos os crimes cometidos para que, enfim, as famílias possam enterrar seus mortos com dignidade. Um país sem memória é um país que não respeita seus cidadãos e que retrocede no processo democrático. Verdade é um direito que cabe a todos nós exigir.
      Para que não se esqueça. Para que nunca mais aconteça. Ditadura nunca mais! Pela abertura dos arquivos da ditadura e atuação plena da Comissão da Verdade.

Jandira Feghali é deputada federal pelo PCdoB

sábado, 31 de março de 2012

Indignação em estado bruto

Matheus Pichonelli, Carta Capital


      Meu pai tinha pedido para acompanhá-lo até a chácara num sábado de manhã. Birrento, queria ficar em casa, na tevê ou coisa assim. Todo sábado era a mesma via crucis: pegava a caminhonetezinha, passava por algumas lojas, comprava ração e alguns utensílios e seguia mato adentro numa estradinha de terra, até um descampado onde só havia duas casas, uma trave de madeira e uns pés de carambola azeda.
      Não devia ter mais de seis anos e era a única companhia de meu pai naquele dia. Disse que não queria ir, e meu pai me prometeu que, se eu fosse com ele, me levaria para conhecer o Raul Seixas. Me troquei num pulo e disse: “Vamos!”
      Raul passava naquele tempo pela cidade para fazer um dos seus últimos shows, na famosa turnê com Marcelo Nova (e meu tio se orgulharia até hoje por ter aberto uma latinha de cerveja gelada para ele antes do show, que não conseguiu terminar).
      No caminho para a chácara, ele estacionou na frente de uma casa, onde tinha de buscar alguns papéis, e me deixou sozinho na caminhonete, ansioso por conhecer famoso cantor. Meu pai então veio com toda a cara de pau do mundo e disse: “Não vai dar. Ele está dormindo e não quer ser incomodado”. Obviamente Raul não estava naquela casa. Era um golpe do meu pai, que conseguiu o que queria e me levou para a chácara.
      A infância tem seus cheiros e sensações, e a minha tinha também uma trilha sonora. Raul Seixas foi o primeiro som “adulto” que me pegou, e me fazia cantar sem nem bem entender as letras.
      Um dia, em agosto de 1989, chegávamos com a mesma caminhonete na garagem de casa quando ouvimos pelo rádio que Raul estava morto, em decorrência do alcoolismo. Não lembro o que senti, mas lembro de ver meu pai se trancar no quarto com uma “garrafa de bebida enrustida” – porque minha mãe não podia ver. Só saiu de lá na década seguinte. Do lado de fora, ninguém mais aguentava aquela choradeira que vinha de dentro enquanto ele ouvia, repetidamente, “Canto para Minha Morte”.
      Desde então, deixei de gostar de Raul. Achava tudo aquilo lúgubre demais. Para mim Raul tinha perdido a batalha para ele mesmo, e eu não queria ouvir o som de um sujeito que me mandava tentar outra vez mas falhava ao tentar se salvar.
      Muito tempo depois, numa dessas esquinas entre a infância e a adolescência em que tudo parece truncado, recorri a uma velha fita em K7 e revi os sons da minha infância – que só então fariam sentido. Era como se aquelas músicas tivessem uma frágil proteção de vidro pedindo para ser quebrado em casos de emergência. Como a vida é feita de emergências, muitas, o vidro foi quebrado e consertado muitas e muitas vezes.
      Lembrando de tudo hoje, depois de assistir ao documentário “O Início, o Fim e o Meio” (e tudo o que podia ser dito sobre o filme está NESTE TEXTO, de Cynara Menezes), listei muitos dos sons (e filmes e livros) que me viraram a cabeça até meus quase 30. Das bandas de rock dos 80 à poesia de Caetano, passando pela rebeldia elegante de Chico Buarque, conheci artistas de obras mais elaboradas e completas, que se reinventaram com o tempo e sobreviveram.
      Mesmo assim, nada ainda se compara à pancada certeira de Raul. Sua música é a indignação em estado bruto. Não que lhe falte poesia, mas para ele isso é só um acessório: seu grito é mais agudo, rudimentar, e está em primeiro plano. Por isso, quando bate, derruba. Porque ninguém como ele pegou as regras para se vencer na vida (“uma grande piada”) e virou tudo de ponta-cabeça.
      E colocou em xeque, junto com parceiros notáveis (como Paulo Coelho, destaque no filme), valores sacrossantos como a fidelidade (“o amor a dois profana o amor de todos os mortais”), a lealdade (“porque quando eu jurei meu amor eu traí a mim mesmo”), o sucesso (“eu devia estar contente porque tenho um emprego, sou o dito cidadão respeitado e ganho 4 mil cruzeiros por mês”), a amizade (“hoje eu te chamo de careta e você me chama vagabundo”), a família (“eu calço é 37, meu pai me dá 36. Dói, mas, no dia seguinte, aperto meu pé outra vez”), a sabedoria (“antes de ler o livro que o guru te deu você tem que escrever o seu”), a divisão entre o bem e o mal (“o mais puro gosto do mel é apenas defeito do fel”), o Estado (“e sempre que você dorme de toca ele fatura em cima do inimigo”), a religião (“a madre da escola te ensina a reconhecer o pecado e o que você sente é ruim: mas, baby, Deus não é tão mau assim”), a carreira (“é você olhar no espelho e se sentir um grandessíssimo idiota, saber que é humano, ridículo e limitado e que só usa 10% de sua cabeça animal”), a coerência (“eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”), a obediência (“por que você não para um pouco de fingir e rasga esse uniforme que você não quer? Mas você não quer: prefere dormir e não vê”), a escola (“e o professor não saiu pra lecionar pois sabia que não tinha mais nada pra ensinar no dia em que a Terra parou”).
      O pano de fundo era um só: a derrota cantada num mundo feito para pretensos vencedores. Ele admitia, sem firulas, o tédio, o cansaço, o desencanto. E, em quase todas essas músicas, guardava um questionamento em comum: o que há depois disso tudo? O que realmente importa nessa vida?
      Daí a sua predileção pelas coisas do além, os discos voadores, a magia e a morte (“eu te detesto e amo”), em vez das tolices que nos fazem menos gente a cada dia.
      O fardo, para ele, foi viver tudo o que cantou – e talvez seja isso o que o torne único na “linha evolutiva da música popular brasileira”.
      No filme de Walter Carvalho, essa ideia fica clara quando ele aparece, numa reportagem antiga da tevê, comentando os efeitos de uma ressaca, na orla do Rio, que arremessou seu carro (um Corcel 73?) para longe e provocou estragos na lataria. “A natureza está certa, a onda tá certa: quem não tinha que estar aqui era o homem, é esse aterro, esses prédios aí. Tomara que a onda derrube tudo”. Isso num tempo em que “sustentabilidade” era apenas palavrão.
      Em outra cena, o amigo Sylvio Passos, fundador do Raul Rock Club, conta como conheceu o ídolo: ao receber o jovem, Raul pegou o macarrão na mão e jogou no prato do novo amigo, pedindo que ficasse à vontade.
      Os relatos sobre esse desapego e a noção exata da finitude humana são uma constante em todo o filme.
      Mas nesse encontro entre vida e obra, bebedeiras e abandonos (de sonhos, da família, dos amigos), ainda havia tempo para esperança. Raul se queixava do pessimismo encarnado pelos jornais tomados de “sangue” e garantia: “a gente ainda nem começou”. E, em Ave Maria da Rua, para mim a mais intensa de todas as suas composições, pede: “Segure a minha mão quando ela fraquejar e não deixe a solidão me assustar”.
      Raul morreu às portas do Fim da História, decretado após a queda do muro de Berlim, dos anos Collor, do boom da lambada e do axé. Sorte dele, que já não suportava o que via – e vivia em bebedeira eterna para poder ver tudo claramente, sem dor. Sabia dos tempos que estavam por vir.
      Morreu em pé, como lembrou Marcelo Nova no documentário, aplaudido e adorado, perto de seu público – apesar do esforço para não desabar, ainda restou o último fôlego para fazer seu último, e brilhante, disco “A Panela do Diabo”.
      Raul foi, de longe, o maior nome do rock brasileiro. Mesmo cantando a dúvida num mundo que pedia (e pede) certezas. Um mundo que manda obedecer e não contestar, limpar a bota de quem está em cima e chutar quem está embaixo para um dia se tornar os novos bilionários da Forbes. Para ele, tudo isso era passageiro, inútil. “Um saco”, como passear no jardim zoológico para dar pipoca aos macacos.
      Se alguém perguntar quem era o doido, é bom pegar o espelho: não foi Raul que se deslocou do próprio mundo. O mundo é que não estava (nem está) pronto para entender Raul.




sexta-feira, 30 de março de 2012

Quem É Doutor???

      Eu tive oportunidade de ter aulas com excelentes professores de direito que faziam questão de frisar que não eram doutores, e que não gostariam de serem tratados assim. Pois lembrei-me desta clareza de pensamento dos meus nobres mestres ao receber este email, que aqui reproduzo.

      LEMBRAM DO JUIZ QUE ENTROU NA JUSTIÇA CONTRA O CONDOMÍNIO EM QUE MORA, POR CAUSA DO TRATAMENTO DE "'VOCÊ" DADO PELO PORTEIRO? POIS É, SAIU A SENTENÇA. LEIAM ABAIXO. OBSERVEM A BELA REDAÇÃO, SUCINTA, BEM ARGUMENTADA, ATÉ SOLIDÁRIA DO JUIZ ALEXANDRE EDUARDO SCISINIO PARA COM O JUIZ QUE SE QUEIXA, MAS.... UMA VERDADEIRA AULA DE DIREITO E DE PORTUGUÊS!

      Processo distribuido em 17/02/2005, na 9ª vara cível de Niterói - RJ
      PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO - COMARCA DE NITERÓI - NONA VARA CÍVEL
      Processo n° 2005.002.003424- 4

      S E N T E N Ç A

      Cuidam-se os autos de ação de obrigação de fazer manejada por ANTONIO MARREIROS DA SILVA MELO NETO contra o CONDOMÍNIO DO EDIFÍCIO LUÍZA VILLAGE e JEANETTE GRANATO, alegando o autor fatos precedentes ocorridos no interior do prédio que o levaram a pedir que fosse tratado formalmente de "senhor".

      Disse o requerente que sofreu danos, e que esperava a procedência do pedido inicial para dar a ele autor e suas visitas o tratamento de ' Doutor, senhor" "Doutora, senhora", sob pena de multa diária a ser fixada judicialmente, bem como requereu a condenação dos réus em dano moral não inferior a 100 salários mínimos. (...)

      DECIDO: "O problema do fundamento de um direito apresenta-se diferentemente conforme se trate de buscar o fundamento de um direito que se tem ou de um direito que se gostaria de ter." (Noberto Bobbio, in "A Era dos Direitos", Editora Campus, pg. 15).

      Trata-se o autor de Juiz digno, merecendo todo o respeito deste sentenciante e de todas as demais pessoas da sociedade, não se justificando tamanha publicidade que tomou este processo. Agiu o requerente como jurisdicionado, na crença de seu direito. Plausível sua conduta, na medida em que atribuiu ao Estado a solução do conflito.

      Não deseja o ilustre Juiz tola bajulice, nem esta ação pode ter conotação de incompreensível futilidade. O cerne do inconformismo é de cunho eminentemente subjetivo, e ninguém, a não ser o próprio autor, sente tal dor, e este sentenciante bem compreende o que tanto incomoda o probo Requerente.

      Está claro que não quer, nem nunca quis o autor, impor medo de autoridade, ou que lhe dediquem cumprimento laudatório, posto que é homem de notada grandeza e virtude. Entretanto, entendo que não lhe assiste razão jurídica na pretensão deduzida.

      "Doutor" não é forma de tratamento, e sim título acadêmico utilizado apenas quando se apresenta tese a uma banca e esta a julga merecedora de um doutoramento. Emprega-se apenas às pessoas que tenham tal grau, e mesmo assim no meio universitário. Constitui-se mera tradição referir-se a outras pessoas de 'doutor', sem o ser, e fora do meio acadêmico. Daí a expressão doutor honoris causa - para a honra -, que se trata de título conferido por uma universidade à guisa e homenagem a determinada pessoa, sem submetê-la a exame.

      Por outro lado, vale lembrar que "professor" e "mestre" são títulos exclusivos dos que se dedicam ao magistério, após concluído o curso de mestrado. Embora a expressão "senhor" confira a desejada formalidade às comunicações - não é pronome -, e possa até o autor aspirar distanciamento em relação a qualquer pessoa, afastando intimidades, não existe regra legal que imponha obrigação ao empregado do condomínio a ele assim se referir.

      O empregado que se refere ao autor por "você", pode estar sendo cortês, posto que "você" não é pronome depreciativo. Isso é formalidade, decorrente do estilo de fala, sem quebra de hierarquia ou incidência de insubordinação. Fala-se segundo sua classe social. O brasileiro tem tendência na variedade coloquial relaxada, em especial a classe"semi-culta" , que sequer se importa com isso.

      Na verdade "você" é variante - contração da alocução - do tratamento respeitoso "Vossa Mercê". A professora de linguística Eliana Pitombo Teixeira ensina que os textos literários que apresentam altas freqüências do pronome "você", devem ser classificados como formais. Em qualquer lugar desse país, é usual as pessoas serem chamadas de "seu" ou "dona", e isso é tratamento formal.

      Em recente pesquisa universitária, constatou-se que o simples uso do nome da pessoa substitui o senhor/a senhora e você quando usados como prenome, isso porque soa como pejorativo tratamento diferente. Na edição promovida por Jorge Amado "Crônica de Viver Baiano Seiscentista", nos poemas de Gregório de Matos, destacou o escritor que Miércio Táti anotara que "você" é tratamento cerimonioso. (Rio de Janeiro, São Paulo, Record, 1999).

      Urge ressaltar que tratamento cerimonioso é reservado a círculos fechados da diplomacia, clero, governo, judiciário e meio acadêmico, como já se disse. A própria Presidência da República fez publicar Manual de Redação instituindo o protocolo interno entre os demais Poderes. Mas na relação social não há ritual litúrgico a ser obedecido. Por isso que se diz que a alternância de "você" e "senhor" traduz-se numa questão sociolingüística, de difícil equação num país como o Brasil de várias influências regionais.

      Ao Judiciário não compete decidir sobre a relação de educação, etiqueta, cortesia ou coisas do gênero, a ser estabelecida entre o empregado do condomínio e o condômino, posto que isso é tema interna corpore daquela própria comunidade.

      Isto posto, por estar convicto de que inexiste direito a ser agasalhado, mesmo que lamentando o incômodo pessoal experimentado pelo ilustre autor, julgo improcedente o pedido inicial, condenando o postulante no pagamento de custas e honorários de 10% sobre o valor da causa. P.R.I.

      Niterói, 2 de maio de 2005.
ALEXANDRE EDUARDO SCISINIO
/Juiz de Direito/



quinta-feira, 29 de março de 2012

Só Não Pode Ser Otário

Carta Capital

Matheus Pichonelli

      Não falta muito para chegar o tempo em que você correrá o risco de receber multa se abrir uma latinha de cerveja e andar a pé na rua. Se acender um cigarro debaixo de um toldo, vai tomar tapa de amigos e do dono do bar. Melhor se esconder no banco de trás do carro: lá, poderá encher a lata à vontade, fumar o que quiser, e sair por aí rodopiando, confundido as luzes das ruas com as imagens psicodélicas que a bebedeira produz.


Campanha de prevenção contra a bebida em Brasília. Em vão.? Foto: Agência Brasil

      Em nenhum ponto da legislação brasileira o automóvel é citado como “área sem lei”, mas é nisso que foi transformado após o Superior Tribunal de Justiça (STJ) considerar inúteis os relatos de testemunhas e autoridades do trânsito sobre crimes cometidos a quatro rodas.
      A Lei Seca funcionava desde 2008 e era clara em relação aos limites para se dirigir. Quem bebesse além de seis decigramas de álcool por litro de sangue (o equivalente a dois chopes) seria multado, perderia pontos na carteira, e poderia responder a processo criminal. Ficou determinado, pelo decreto do governo, que os excessos seriam medidos por coleta de sangue ou dos chamados bafômetros, nome popular do etilômetro.
      Faltou pensar no resto. A primeira grande questão era: como municiar policiais e guardas do trânsito se faltavam equipamentos em todo canto? Até então, a única fábrica brasileira autorizada a fabricar os equipamentos ficava em Tremembé, no interior de São Paulo. Faltava bafômetro em praticamente todas as praças do País.
      Não demorou muito e o motorista percebeu que as blitzes também não eram tão comuns. E as que tinham podiam ser comunicadas em alertas distribuídos por uma rede de solidariedade no Twitter. “Não pega a Rebouças que lá os ‘homi’ estão fechando o cerco”. Com um iPhone na mão e uma cachaça na cabeça, estava livre da eventual punição. Numa cidade como São Paulo, em que a corrida de táxi é mais cara que a conta do restaurante, as linhas de metrô são limitadas e a circulação de ônibus públicos à noite é mais rara do que unicórnios, parecia um risco interessante de se correr.
      A cada efeméride da edição da norma um mundo de especialistas dizia: a Lei Seca não pegou. Não pegou sobretudo porque, além de ser fácil driblá-la, o Brasil gosta de colecionar leis. E umas anulam as outras. Neste caso, como provar cientificamente, por meio de aparelhos certificados, que o motorista dirigia embriagado, se no mesmo País a lei diz que o mesmo motorista não é obrigado a produzir prova contra ele mesmo?


O Departamento de Trânsito do Distrito Federal e a Secretaria de Segurança Pública divulgam dados de dois anos de vigência da Lei Seca. Foto: Agência Brasil

      Até então, valiam, a depender das instâncias responsáveis por julgar cada caso, o relato de testemunhas. Com base nas evidências, e no recurso chamado de culpa presumida, o motorista podia, sim, ser incriminado. De uma lei mal formulada, que não previa a própria anulação em outras regras, valia o fundamento do relato e o bom senso do juiz – até onde cabe recurso, o acusado tem o direito de se defender.
      Agora, ao desconsiderar os relatos como provas válidas, a lei se enfraqueceu de vez – e, nas palavras do promotor Evandro Gomes, representante do Ministério Público no caso analisado pelo tribunal, só será punido quem for “otário” a ponto de fazer o teste do bafômetro, produzindo, assim, provas contra si mesmo.
      Algo diferente do que acontece em outros países. Na Inglaterra, um amigo foi parado numa blitz policial às 23h50 do dia 31 de dezembro de 1999 – a dez minutos, portanto, para o ano 2000. O teste do bafômetro, obrigatório, acusou que ele havia tomado metade de uma garrafa de champanhe antes de seguir para a festa em sua própria casa, a duas quadras de onde foi parado. Tentou negociar, pediu para estacionar o carro e terminar o roteiro a pé; diante da negativa, se exaltou e teve de comemorar o Revéillon na prisão. Mais tarde, respondeu a um processo, levou um belo carimbo na carteira e foi proibido de dirigir durante um ano. Foi tratado, segundo conta, como ladrão de carteira.
      No Brasil, onde Executivo, Legislativo e Judiciário batem cabeça sobre normas aparentemente simples (que não deveriam se anular), não importa o potencial de destruição que o álcool somado à direção poderá causar em espaços públicos. O desfecho já estará sacramentado: “Doutor, eu vi com meus próprios olhos: o sujeito bateu aqui, saiu arrastando meio mundo, só parou no poste e desceu do carro rindo, trançando as pernas. Está tudo filmado, postado no YouTube, a tevê mostrou. Só um milagre evitou a tragédia”; “Mas ele fez o teste?”; “Fez não, senhor”; “Então não posso fazer nada: é a lei”.
      Em outras palavras, o STJ, ao julgar um caso (e uniformizar os demais), decidiu que no Brasil o sujeito pode e deve ser perdoado quando coloca a vida de meio mundo em perigo. A leitura que se tira é: ser imprudente por aqui vale a pena e é até compreensível. O que não pode é ser otário. Portanto, se um dia te proibirem de beber ao ar livre, entre e beba no carro e saia dirigindo. Lá você estará protegido da lei.