quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O fim da tradução

Blog da REA


THORSTEN PATTBERG*
PEQUIM – Pouca gente parece perceber que, bem francamente, a Bíblia desestimula as pessoas a estudarem outras línguas. A história da Torre de Babel informa que há uma única humanidade (os filhos de Deus), mas “as línguas são confusas”. De uma perspectiva histórica europeia, isso sempre significou que, digamos, qualquer filósofo alemão sempre podia saber exatamente o que pensa o povo chinês; o único problema é que não entendia o que diziam. Então, em vez de buscar aprender a língua desconhecida, o filósofo encomendava uma tradução.
Por coincidência ou não, a História, com H maiúsculo, acompanhou a Bíblia. Ao tempo da nação alemã sob o Sacro Império Romano, quando os intelectuais alemães ainda falavam latim, o lógico alemão Christian Wolff pôs as mãos numa tradução latina de Clássicos de Confúcio. Sua reação teve de cômica o que teve de perturbadora: leu Kong Fu Zi ou K’ung-fu-tzu em Latim e concluiu alguma coisa como “Ótimo, a coisa soa-me bem familiar. Acho que entendi perfeitamente o tal de Confúcio!”.
Wolff ficou tão feliz com seus novos poderes mentais que passou a dar aulas sobre os chineses, como se fosse o rei da China. Seria brilhante, não fosse tão engraçado. Dentre suas obras inesquecíveis figuram coisas como “Os motivos dos chineses”, ou “O objetivo final dos chineses” e assim por diante.
E, claro, quando alguém vez ou outra perguntava ao máster por que jamais visitara a China, o maior sinólogo alemão de todos os tempos achava meios para valorizar ainda mais o seu grande triunfo intelectual. Respondia que “a sabedoria dos chineses nunca foi assim tão valiosa, que justificasse a viagem”.
Ficou assim estabelecido, entendo eu, que a “História” parou nesse Wolff, ou, no mínimo, cansou-se, de vez; ou tornou-se cínica demais. Wolff demonstrara satisfatoriamente que praticamente qualquer europeu podia converter-se em “especialista em China” mesmo sem saber sequer uma palavra em chinês.
O mesmo se aplicaria também a qualquer outra língua estrangeira. O suficiente para que o filósofo alemão Immanuel Kant pudesse, sem que ninguém se escandalizasse, anunciar “O fim de todas as coisas” [The End of All Things, 1794]; e Georg Hegel proclamasse o “fim da história”. Ambos homens letrados, sabiam muito bem que não dominavam qualquer idioma não europeu; resolveram então que, com a história, se passaria mais ou menos a mesma coisa.
Essa atitude no hemisfério ocidental não mudou. Resultado disso é que vivemos num mundo perfeitamente enlouquecido. A maioria dos intelectuais europeus e norte-americanos creem que os chineses “falam a nossa língua”. Diferente, só, que eles “conversam” em chinês.
Tome-se por exemplo o caso de “democracia” e “direitos humanos”. Não sei se alguém já pensou nisso, mas são palavras europeias, que absolutamente não existem em chinês. A China bem poderia retribuir a gentileza e exigir da Europa mais wenming [1] etian ren he Yi. [2]
A atitude europeia reflete-se nas traduções europeias. A maioria dos ocidentais simplesmente converte os conceitos-chave chineses, para a terminologia bíblica ou filosófica mais conveniente. Resultado disso, os modernos estados-nação, como a Alemanha em 2012, são virtualmente vedados, à prova de China.
A tradução, é claro, é velho hábito da humanidade. O que não significa que não se deva questioná-lo. Sempre foi hábito da humanidade cortar os oponentes em pedaços, nas batalhas. Nem por isso continuamos o fatiamento (exceto no Afeganistão e no Iraque). Por que insistimos ainda em destruir o vocabulário que nos chegue de idiomas estrangeiros? Bem, acho que fazemos assim, em primeiro lugar, por motivos sociológicos.
Na Alemanha, censuram-se sempre todos os termos significativos que apareçam em idioma estrangeiro. O povo alemão, assim, é levado a crer que só os alemães sabem tudo que é preciso saber no mundo e – metaforicamente falando – age como se soubesse. Esse é o motivo pelo qual a Alemanha produziu tantos “historiadores” e “filósofos” como Georg Hegel, Max Weber ou Karl Marx. Os intelectuais alemães chamam a isso deutungshoheit – que significa “plena soberania para definir o pensamento”.
Talvez soe deprimente, mas é a verdade e tem de ser dita: o ocidente sabe muito pouco sobre a China, e a China cultural jamais é apresentada como verdadeiro fenômeno global. Nem uma mínima porcentagem dos europeus letrados, pelas minhas contas, sabe o que é ruxue, ou um junzi ou shengren. E são alguns dos mais importantes conceitos chineses de todos os tempos.
Dito de outro modo: alguém aí algum dia pensou por que há tantos “filósofos” e “santos” pelo mundo, mas jamais houve um único shengren ou buddha no ocidente? Pensem bem: qual a probabilidade de que surja algum? Quem é o autor da versão de “História” que nos ensinam? O ocidente é presa e vítima e, no momento em que escrevo, está sendo sangrado pela própria noção de originalidade sociocultural.
Frequentemente sinto-me embaraçado, envergonhado, ao ver professores asiáticos (que obtiveram suas “qualificações” no ocidente) e que inauguram novos departamentos de “filosofia chinesa” ou “religião chinesa” na China, quase sempre zombando de empresários, missionários ou agências ocidentais de ajuda humanitária.
“Filosofia” é conceito greco-helênico apropriado pela tradução judaico-cristã. Rujiao,Fojiao e Daojiao são jiao, ensinamentos. E “religião” só há uma: a concepção ocidental de religião. Vivemos no ano 2012 de Nosso Senhor Jesus Cristo. A chamada “liberdade de religião” tem de ser entendida como: “nesse mundo cristão, todos podem crer no que quiserem”. A China é pressuposta evangelizada, precisamente porque “todas as religiões chinesas” seguem a taxonomia judaico-cristã.
A China não é caso isolado. A Índia também, aos poucos, se vai dando conta de que há alguma coisa estranha no ar. A tradição sânscrito-indu inventou dezenas de milhares de conceitos não europeus que estão sendo simplesmente impedidos de entrar na História, por ação da mídia e da universidade ocidentais. Como se bilhões de chineses e indianos, ao longo de 3.000 anos, jamais tivessem inventado coisa alguma – como se lá tivessem ficado, só à espera de verem sua criatividade e sua propriedade intelectual serem roubadas, assaltadas.
Comentaristas ocidentais têm-me respondido, argumentando que precisamos de uma “linguagem global” – e que o inglês seria hoje candidato preferencial ao posto. Costumo responder: “Não sejam doidos! É exatamente o que fizeram os alemães! Hoje, vêm os anglo-saxões, que fecham os livros de história “deles” e declaram “vocês estão decifrados, já conhecemos vocês.”
Não. A verdadeira “linguagem global” será radicalmente diferente do inglês contemporâneo, ou não será nem linguagem, nem global. Terá de incorporar a originalidade de dezenas de milhares de palavras que outros idiomas têm a acrescentar ao patrimônio comum de toda a humanidade.
Qualquer aluno de idiomas ou de tradutologia experimenta, de tempos em tempos, uma espécie de profunda convicção, brotada do subconsciente, de que algo se perdeu na tradução, sempre, em todos os casos. Mas todos temos medo de deixar avançar nossa intuição.
É provável que haja uma espécie de vício na história da Torre de Babel – vício monstruoso, assustador. E se as línguas humanas absolutamente não estiverem confundidas e misturadas? E se aconteceu apenas que nenhum grupo de seres humanos foi jamais suficiente, em número, para explorar todas as possibilidades de todas as línguas humanas? E se os chineses já tiverem inventado conceitos – aos quais chamaram daxuedatongwenmingtian ren he Yi e tantos outros – sobre os quais nenhum norte-americano tem ideia alguma, exatamente como – e, nisso, acho que todos concordamos – o ocidente sempre fez?
Diz-se sempre que a língua é a chave para entender a cultura e as tradições chinesas. O problema é: que língua?

Notas dos tradutores
[1] Em artigo intitulado “Traduções ocidentais distorcem a realidade na China” (1/5/2012, Korea Herald), Thorsten Pattberg discute o uso da palavra “civilização” como tradução do chinês wenming: “Wenming é em geral traduzido como “civilização”, mas há aí distorções graves. Em conferência recente na Universidade de Pequim (Civilization Cessation, Wenming Winning?), o renomado linguista Gu Zhengkun explicou quewenming implica alto padrão ético e extrema gentileza; enquanto a palavra civilization[ing. “civilização”] designa o controle que o povo de uma cidade tenha sobre materiais e tecnologia, algo como a capacidade para construir mísseis e obras arquitetônicas.
[2] Segundo o professor Ji Xianlin, em Harmony of Man with Nature, cada um dos quatro caracteres chineses em tian ren he Yi simbolizam respectivamente “natureza”, “seres humanos”, “compreensão mútua” e “amizade”. Juntos, significam a consciência de que os seres humanos são parte (e pequena) do mundo, conectados ao mundo. É um conceito arraigado na cultura chinesa. Por exemplo, o aparelho tradicional de chá é composto sempre de três itens: o bule tampado, a xícara e a bandeja, simbolizando o céu, as pessoas e a terra.

* Fonte: Thorsten PattbergThe end of translation “Speaking Freely Blog”, Asia Times Online. Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu, publicado emhttp://redecastorphoto.blogspot.com.br/2012/10/o-fim-da-traducao.html

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Milton Cunha: Kizomba, nossa constituição

O Dia


Rio -  Vivo procurando os negros pelo mundo! Quero compartilhar, porque cresci num mundo onde eles eram evitados, separados a uma distância segura. Existir, desde que não se aproximassem. A grande negra de minha infância foi Devergília, a divina professora primária. Em todo aquele universo gigantesco, que durou uma década, pinço-a como destacada. Havia José, o pedreiro, que não chegava perto, só trabalhava. Onde estavam os negros? Como diz Alvinho, Mestre de Mangueira, “livres do açoite da senzala, presos na miséria da favela”.
Pois cheguei na festa da gravadora de música, no Leblon, e, como de costume, passei em revista a tropa: sobrava sapata e faltava negro. “Gente, não tem nenhum preto nesta festa!”, exclamei. “Ai Milton, de novo... Você e sua mania de ficar procurando negros em todos os eventos... Já considerou a possibilidade de que você é que é preconceituoso? Ficar procurando é de uma paranoia sem igual...”. Então tá, ficamos combinados assim: vivo num país miscigenado, edificado no lombo do escravo negro; pelo cais do Valongo, reformado, desembarcaram um milhão de pretos, e é nóia minha estranhar guetos branco-amorenados que nem nos garçons permite a pele negra. “Mas tem aquela morena ali, olha... É filha de negros...” Pois está aí outra deformação minha: quero negros-negros para acalmar meu coração. Vale as Beyoncés da vida, mas o cabelo pixaim, o nariz de batata, se estes não estiverem presentes tem alguma coisa errada, e torna-se imperativo pra mim declarar que não concordo com aquele ambiente esbranquiçado.
Vejo a foto gigantesca das candidatas a Garota Fantástica: “Falta preta!”, exclamo para minha solidão. E por preta entenda-se de Luciana Mello pra lá, e não de Taís Araújo pra cá. Ligo na Ana Maria Braga e assisto às crianças e suas mães que estão participando do ‘Big Brother’ infantil do ‘Mais Você’: “Falta preto”, declaro eu, para meu copo de café da manhã. Claro que é psicose, porque vivo num país democrático onde os negros estão em tudo que é programa, em tudo que é festa. O maluco sou eu, que quando vi a mãe do Joaquim Barbosa, tranças nagôs levantadas em coque, vi as tinas, tanques, fontes públicas onde estas guerreiras cantavam seus cânticos de África, quando foram convidados a deixar suas terras, sua gente, sua cultura, para fazer turismo em terras do novo mundo.
Mais um ano apresentei o Dia de Zumbi com Sirley, a convite do Paulão e do Cedine. Tem poucos, mas não falta branco naquele evento que congraça gente de todas as raças. Fiquei apavorado com o mote deste ano, focado sobre a devastadora ação do crack na juventude negra desabrigada. Falta paz ao meu coração.

sábado, 24 de novembro de 2012

O que está acontecendo na República Democrática do Congo?


José Antonio Lima

Carta Capital

Nos últimos dias, um grupo de rebeldes conhecido como M23 assumiu o controle de Goma, capital provincial no oeste da República Democrática do Congo, e da cidade vizinha de Sake. Nos próximos dias, deve rumar para Bukavu, outra cidade também na fronteira com Ruanda. O M23 exige que o governo do presidente Joseph Kabila aceite participar de diálogos oficiais a respeito da situação dos membros de sua etnia (a tutsi). Caso Kabila não aceite, o grupo promete cruzar o país e chegar até a capital do Congo, Kinshasa. O confronto tem pouca repercussão política, mas pode acabar modificando o mapa da África. Pode fazer com que a RD Congo deixe de existir.
Oficialmente, Kabila conta com o apoio de Ruanda e Uganda, dois vizinhos importantes. Nesta quarta-feira 22, Kabila e os presidentes desses países, Paul Kagame e Yoweri Museveni, respectivamente, divulgaram um manifesto conjunto dizendo que o M23 deveria recuar e cessar as hostilidades. De forma clandestina, no entanto, Ruanda e, em menor medida, Uganda, financiam os rebeldes. Um relatório divulgado pelas Nações Unidas também nesta quarta-feira acusa o governo de Ruanda de criar o braço político do M23, além de dar armas, tropas e facilitar o recrutamento pelos rebeldes. A ligação entre o governo ruandense e o M23 é tão umbilical que o general James Kabarebe, ministro da Defesa de Ruanda, é tido como a autoridade máxima do M23, segundo a ONU.
Mujinga Lokuli Grace se desespera ao encontrar o corpo de seu pai, um médico militar, em Goma, no leste da RD Congo. Ele foi morto por rebeldes durante a tomada da cidade. Foto: Phil Moore / AFP

A ofensiva de Ruanda e Uganda contra o governo Kabila parece ser a repetição de uma história recente. Paul Kagame, um líder tutsi, mesma etnia do M23, assumiu o governo de Ruanda em 1994, quando suas tropas acabaram com o genocídio de tutsis e hutus moderados realizado por hutus radicais. Em 1996, Kagame invadiu o então Zaire (nome antigo da RD Congo) para combater as milícias que haviam promovido o genocídio. Com apoio de Uganda e outros seis países africanos, Ruanda derrubou o ditador Mobutu Sésé Seko e colocou em seu lugar o líder rebelde Laurent-Désiré Kabila (pai de Joseph Kabila). Em 1998, a guerra na RD Congo foi retomada. Desta vez, no entanto, Ruanda e Uganda se voltaram contra Kabila. O conflito, oficialmente encerrado em 2003, é o mais mortífero desde a Segunda Guerra Mundial. As mortes provocadas pelo conflito e doenças e fome que se seguiram passam de 5 milhões.
Como conta Anjan Sundaram em artigo no site da revista Foreign Policy, Ruanda é a grande força desestabilizadora do leste do Congo. O governo Kagame financiou diversos grupos rebeldes no Congo, entre eles o de Laurent Nkunda, antecessor do M23, responsável por inúmeras atrocidades, entre elas o estupro coletivo de 16 mil mulheres em uma semana em Bukavu. Por trás das ações de Ruanda estão dois interesses: os riquíssimos recursos minerais do leste do RD Congo e uma reivindicação histórica dos territórios que fazem parte do leste do Congo. Segundo muitos em Ruanda, essas regiões foram retiradas de Ruanda durante a colonização realizada pela Bélgica, país que também inventou a separação entre tutsis e hutus.
A instabilidade no leste da RD Congo pode ser apenas o início da fragmentação do país e de mais violência. A insatisfação com a fraqueza demonstrada por Kabila é crescente e há risco de que os militares tentem realizar um golpe militar com o objetivo de combater o M23. Seria algo semelhante ao que ocorreu no Mali recentemente. Soma-se a isso o possível separatismo de outras regiões. Segundo reportagem do jornal The New York Times, a região sul da RD Congo, rica em cobre e cuja maior cidade é Lubumbashi, também pode deixar a república uma vez que o governo central comece a ruir.
O tenente-coronel Vianney Kazarama, porta-voz do M23, fala a um estádio lotado em Goma na terça-feira 21. O líder rebelde estava tentando acalmar a população após a tomada da cidade. Foto: Phil Moore / AFP

E por qual motivo a comunidade internacional não faz nada? Por uma mistura de pragmatismo e peso na consciência, como afirma Timothy Longman, diretor do Centro de Estudos Africanos da Universidade de Boston, à agência Associated Press. O genocídio em Ruanda, que matou 800 mil pessoas em apenas três meses, ocorreu sob o silêncio das grandes potências. O Conselho de Segurança da ONU não autorizou uma intervenção para evitar o massacre e o governo da França, então comandado pelo socialista François Miterrand, apoiava os hutus radicais que cometeram os assassinatos em massa.
Foram as tropas de Kagame que acabaram com a tragédia (também cometendo graves crimes). Mais importante que isso é o papel que Ruanda passou a desempenhar no cenário africano. Sob Kagame, que se tornou uma espécie de ditador, o país africano virou modelo de desenvolvimento e passou a contribuir com missões internacionais, como a que atua em Darfur, no Sudão. Em troca, Ruanda recebe cerca de 1 bilhão de dólares em ajuda externa das grandes potências e de instituições multilaterais.
Outro impedimento de críticas a Ruanda é o fato de o país ocupar hoje uma das dez cadeiras rotativas no Conselho de Segurança da ONU. Recentemente, a entidade fez críticas ao M23, mas nem citou o governo de Paul Kagame. Dificilmente a comunidade internacional buscará uma solução militar para a crise. Está na RD Congo a maior missão de paz da ONU, com mais de 22 mil soldados. Apesar de grande, ela é insuficiente para cuidar do imenso país, o 12º maior do mundo, com área equivalente à dos estados do Pará e do Amazonas juntos ou à de toda a Europa Ocidental. Não há vontade política e econômica para fazer um investimento deste tipo. Ao que tudo indica, os problemas serão resolvidos como sempre são naquela região: por violentos combates, marcados por execráveis violações aos direitos humanos e uma paz provisória que servirá apenas para marcar o tempo até uma nova guerra.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Tortura como cisão de corpo e mente

Jornal do Brasil
Leonardo Boff


Com o funcionamento da Comissão Memória e Verdade vem à tona com toda a sua barbárie a tortura como método sistemático do Estado ditatorial militar de enfrentar seus opositores. Já se estudaram detalhadamente os processos de desumanização do torturado e também do torturador. Este precisa reprimir sua própria humanidade para  praticar seu ato desumano. Não sem razão que muitos torturadores acabaram se suicidando por não aguentarem tanta perversidade.
Quero, entretanto, destacar um ponto nem sempre suscitado na discussão que foi muito bem analisado pelos psicanalistas, especialmente na Alemanha pós-nazista e entre nós por Hélio Peregrino, já falecido. O mais terrível da tortura política é o fato de que ela obriga o torturado a lutar contra si   mesmo. A tortura cinde a pessoa ao meio. Coloca a mente contra o corpo.  A mente quer ser fiel à causa dos companheiros, não quer, de forma alguma, entregá-los. O corpo, submetido à extrema intimidação e aviltamento, para ver-se livre da tortura, tende a falar e assim a fazer a vontade do torturador. Essa é a cisão. 
Mas há um ponto a se ressaltar: a pessoa torturada quando levada ao pânico e ao pavor pode ser vítima de mecanismos inconscientes de identificação com o agressor. Ao identificar-se com ele, consegue psicologicamente exorcizar, por um momento, o pânico e assim sobreviver. 
O torturado, que sucumbiu a esta desesperada contingência de autodefesa, incorpora sinistramente a figura do torturador. O torturador consegue abrir uma brecha na alma do torturado, alcança penetrar naquela última intimidade, lá onde moram os segredos mais sagrados e onde a pessoa alimenta seu mistério. Ultrapassa, portanto, os umbrais derradeiros da profundidade humana, para possuir a vítima e fazê-la um outro, alguém que acaba reconhecendo ser de fato subversivo, inimigo da pátria e da humanidade, um traidor da religião, um amaldiçoado por  Deus, um excomungado da Igreja, alguém da parte do demônio. Os  torturadores Albernaz e Fleury eram peritos nesta perversidade. Fleury disse diretamente ao frei Tito, como aparece no terrificante filme de Ratton Batismo de sangue, baseado no livro de Frei Betto com o mesmo nome, que deixaria nele marcas que jamais esqueceria. Efetivamente, conseguiu cindir-lhe a mente e o corpo e penetrar na sua mais profunda intimidade a ponto de ele, no exílio na França, sentir a todo momento a presença de seu algoz. Deixou um bilhete antes de tirar-se a vida: “Prefiro tirar minha vida a morrer”. 
Este tipo de tortura é especialmente perverso porque faz da desumanização o eixo de uma prática sistemática de agentes do Estado. Se a categoria anti-Cristo ainda significa alguma coisa, ela deve ser configurada dentro deste quadro infernal. Trata-se da completa subversão do humano e de suas referências sagradas. É seguramente um dos maiores crimes de lesa-humanidade que possam existir. Tais perversidades não podem cair sob anistia nenhuma. Os torturadores carregam em sua alma e em sua mente-testa o estigma de Caim. Por onde andarem, a vida os acusará porque violaram a sua suprema sacralidade.
E há ainda a tortura dos desparecidos, crucificando seus entes queridos. Por exemplo, houve uma guerrilha do Araguaia, até hoje não reconhecida totalmente pelos militares. Lá se cometeram todos os excessos: cortaram a cabeça e os dedos dos guerrilheiros mortos e os enviavam a Brasília para reconhecimento. Sumiram com seus cadáveres. Fizeram desparecer as vidas e pretendem agora apagar as mortes. E as famílias carregam  um pesadelo que não tem fim. Cada campainha que toca em casa funciona como um vento  a soprar as cinzas e reanimar a brasa da esperança, seguida de amarga decepção: ”Será que não é ele que está chegando?" Outros dizem: “Não mudemos de casa porque ele pode ainda chegar... e se nós não estivermos mais aqui para o abraço, o beijo, as lágrimas...que será dele?” 
Os torturadores e seus mandantes estão aí, agora ameaçados pelo esculacho do movimento Levante Popular da Juventude, que não lhes deixa a consciência descansar. A estes, quisera eu, como teólogo, perseguido mas não torturado, gritar-lhes ao ouvido o clamor de Jesus Cristo:”Da vossa geração será pedida a conta do sangue de todos os profetas, dos perseguidos e dos torturados, sangue derramado desde o princípio do mundo. Sim, vos asseguro que vos será pedida a conta deste sangue” (Lc 11,50-51). 
Poderá haver anistia pactuada dos homens. Mas não haverá anistia perante a consciência  e perante aquele que se apresentou sob a figura de um preso, torturado, executado na Cruz, Jesus, o Nazareno, feito Juiz Supremo, que julgará especialmente aqueles que violaram a humanidade mínima. Chegará o dia, supremo dia, em que todos os desparecidos aparecerão. Eles virão, como diz o Apocalipse, da grande tribulação da história. Sim, eles voltarão junto com o Vivente. E então não haverá mais espera nem palpitação dos corações. O Vivente, também um dia torturado,  anulará todas as distâncias, enxugará todas as lágrimas e inaugurará o Reino dos sacrificados e desaparecidos, agora vivos, libertos e encontrados. Então será definitivamente verdadeiro: ”Nunca mais uma ditadura. Nunca mais desaparecidos. Nunca mais a tortura”.
* Leonardo Boff, teólogo e filósofo, é escritor. -  lboff@leonardoboff.com

Que luta é essa, que partido é este, que desperta tanto ódio de classe da burguesia?

Blog da REA


MILTON PINHEIRO * **

Para Neide Alves Santos, comunista morta pela ditadura

Só vos peço uma coisa: se sobreviverdes a esta época, não vos esqueçais!

Não vos esqueçais nem dos bons, nem dos maus.
Juntai com paciência as testemunhas daqueles que tombaram por eles e por vós.
Um belo dia, hoje será o passado, e falarão numa grande época 
e nos heróis anônimos que criaram a história.
Gostaria que todo mundo soubesse que não há heróis anônimos.
Eles eram pessoas, e tinham nomes, tinham rostos, desejos e esperanças, 
e a dor do último entre os últimos não era menor do que a dor do primeiro,
cujo nome há de ficar. 
Queria que todos esses vos fossem tão próximos como pessoas que tivésseis
Conhecido como membros da sua família, como vós mesmos.
Julius Fuchik


No dia quatro de novembro, como faço desde 2009, acordei cedo para reunir-me àqueles que comparecem a Alameda Casa Branca, ao local onde foi assassinado o líder comunista Carlos Marighella, para prestar-lhe mais uma homenagem. É um ato coberto por um grande simbolismo, com a presença de históricos militantes da causa revolucionária em nosso país, mas também, com a presença daqueles que representam, nos dias atuais, a luta e o desejo da nossa classe em prosseguir fazendo história e perseverando na luta pela revolução socialista.
Marighella, heróico combatente contra a ditadura burgo-militar, tombou nesta data pela cilada covarde da repressão, em 1969. No entanto, não tombaram seus sonhos e idéias. Homens e mulheres, juventude aguerrida e trabalhadores, continuam em marcha para confeccionar no palmilhar do dia-a-dia, a esperança do mundo emancipado da exploração do homem pelo homem.
Mas, ao voltar-me neste dia para Carlos Marighella, nesta justa homenagem, desperto para a luta sem trégua dos seus camaradas do Partido Comunista Brasileiro (PCB), operador político no qual Marighella foi militante, parlamentar e dirigente durante 33 anos da sua vida, saindo dele, por divergência na forma de enfrentar a ditadura burgo-militar, dois anos antes de ser assassinado.
O ódio de classe exercitado pela burguesia durante todo o século XX contra o PCB foi levado às últimas consequências pela ditadura militar: eles prenderam, torturaram e mataram os militantes mais destacados de um operador político que teve seus erros no pré-1964, mas que resolveu articular uma ampla luta de massas contra a ditadura burgo-militar, e por isso pagou um gigantesco preço, que foi regado com sofrimento e sangue de seus militantes.
Logo no primeiro momento, quando se estabeleceu as trevas golpistas que cortaram as luzes da democracia em construção, no último dia de março de 1964, a burguesia e seu aparato militar/policial repressivo partiu para cima dos comunistas. Era a bota de chumbo pisando o sol da liberdade, começaram a ceifar as vidas da vanguarda comunista. E a primeira vítima foi o estivador e sindicalista, Antogildo Pascoal Viana (AM), assassinado no dia 08 de abril de 1964, seguiram-se a ele, ainda em 1964, os seguintes camaradas: o operário eletricista e sindicalista Carlos Schirmer (MG), no dia 1º de maio; Pedro Domiense de Oliveira (BA), sindicalista e líder dos posseiros urbanos, assassinado no dia 07 de maio; Manuel Alves de Oliveira (SE), militar assassinado no dia 08 de maio; o gráfico e sindicalista Newton Eduardo de Oliveira (PE) foi morto em 1º de setembro; o líder camponês João Alfredo Dias (PB), conhecido como “nego fubá”, sapateiro e ex-vereador, foi sacrificado pela repressão em 07 de setembro; ainda no dia da pátria, também foi assassinado o líder camponês e presidente das ligas camponesas de Sapé, Pedro Inácio de Araújo (PB); no dia 15 de novembro a ditadura matou o gráfico, Israel Tavares Roque (BA) e no final do ano de 1964 e/ou começo de 1965, o marítimo catarinense Divo Fernandes D’oliveira.
Ao todo, em 1964, a ditadura matou 29 militantes que lutavam contra o arbítrio, sendo nove do PCB. Esses dados podem não conter desaparecimentos e algumas mortes estranhas, não computadas diretamente à repressão. Mas, com certeza, em virtude da ação criminosa do estado ditatorial naquele momento.
Em 1965, a sanha assassina da ditadura matou o ex-militar, que havia participado das lutas dos tenentes com Luiz Carlos Prestes, Severino Elias de Melo (PB). E em 10 de outubro de 1969, matou João Roberto Borges de Souza (PB), que era líder estudantil e vice-presidente da UEE da Paraíba.
O recrudescimento da ditadura avançou após o AI-5 em 1968, uma parte importante da esquerda brasileira, rompida com o PCB, enfrentava as trevas de armas na mão, sofrendo o massacre da ditadura. O PCB, consciente da necessidade de colocar as massas no processo de resistência, desenvolvia seu trabalho.
No decorrer de 1971, o terror da ditadura matou muitos revolucionários. Novamente voltou a eliminar comunistas do PCB. Já no dia 02 de fevereiro era assassinado o sindicalista José Dalmo Guimarães Lins (AL); o ex-militar, ex-bancário e funcionário da Embratel Francisco da Chagas Pereira (PB) está desaparecido desde 05 de agosto; e o sapateiro comunista, organizador de trabalhadores do garimpo em Jacundá (PA),Epaminondas Gomes de Oliveira (MA) foi assassinado em 20 de agosto.
Em 1972 foram mortos pela repressão, o militante secundarista Ismael Silva de Jesus (GO) no dia 09 de agosto (torturado até a morte) e Célio Augusto Guedes (BA), dentista de histórica família de comunistas baianos (irmão de Armênio Guedes), que trabalhou diretamente com Prestes e exerceu várias funções dentro do partido. Foi morto em 15 de agosto, sob tortura, após ser preso na fronteira do Brasil com o Uruguai.
O herói da segunda guerra José Mendes de Sá Roriz (CE), líder dos combatentes, e que salvou da morte no campo de Batalha o marechal Cordeiro de Farias, teve seu filho e neta seqüestrados pelo Exército, que exigiam, sob tortura do filho, a prisão dele para liberar os reféns. O comunista se entregou ao marechal Cosme de Farias. No entanto, foi assassinado na mais cruel tortura no dia 17 de fevereiro de 1973.
Mas o pior ainda estava por vir. A ditadura fascista iria caçar os comunistas brasileiros, aprofundava-se em 1974 uma longa perseguição, planejada para liquidar o PCB, cuja política de resistência democrática se consolidava na frente ampla contra o regime. No começo do ano, em 19 de março, foram assassinados Davi Capistrano da Costa (CE)José Roman (SP). O primeiro era um importante dirigente comunista, militar, havia participado do levante de 1935, quando foi preso por sua participação. Fugiu de Ilha Grande e foi lutar, em 1936, na Espanha ao lado dos republicanos como brigadista internacionalista. Participou de forma heróica na batalha de Ebro, que ocorreu entre julho e outubro de 1938. Ainda em 1938, foi para a França onde lutou na resistência a ocupação do nazismo. Foi preso pelos nazistas e por ser estrangeiro, não foi executado no primeiro momento, mas foi levado para o campo de Gurs, na Alemanha hitlerista. Quando foi libertado pesava 35 quilos. Voltou ao Brasil, foi preso novamente em Ilha Grande, e com a democratização se elegeu deputado estadual por Pernambuco, em 1947. David Capistrano foi eleito para o CC no IV congresso em 1954. Com a instalação da ditadura saiu do Brasil e ao voltar, foi preso e assassinado.
O metalúrgico José Roman era um destacado militante operário, foi preso ao ir buscar David Capistrano em Uruguaiana.
O massacre continuava em 1974. O dia 03 de abril seria marcado por uma grande tragédia, foram mortos três heróis do povo brasileiro. O operário metalúrgico João Massena Melo (PE) foi preso em São Paulo e assassinado pela repressão. O dirigente metalúrgico foi vereador pelo Distrito Federal, em 1947, e deputado estadual pelo estado da Guanabara, em 1962. Era membro do CC do PCB e seu corpo continua desaparecido.
Nas mesmas condições também foi preso e morto Luiz Ignácio Maranhão Filho (RN). Jornalista, deputado estadual eleito em 1958 pelo Rio Grande do Norte, visitou Cuba a convite de Fidel Castro, era membro do CC do PCB. O jornalista e dirigente comunista esteve preso em vários momentos da história republicana. E o oficial do Exército Walter de Souza Ribeiro (MG), ativo militante das lutas pela paz, era membro do CC do PCB e atuava na estrutura interna do partido.
O professor de História, Afonso Henrique Martins Saldanha (PE), foi morto em 08 de dezembro em virtude das torturas que sofreu na cadeia. Foi presidente do sindicato dos professores da cidade do Rio de Janeiro por dois mandatos, sendo cassado no segundo mandato, antes mesmo de tomar posse. Era um militante destacado das bandeiras comunistas no movimento docente.
No ano de 1975, a repressão seria mais violenta ainda com o PCB. Logo no dia 15 de janeiro, dois lutadores da causa dos trabalhadores são eliminados em São Paulo. Elson Costa (MG), membro do CC do PCB e líder da greve dos caminhoneiros em Minas Gerais foi preso e assassinado, até hoje seu corpo continua desaparecido. E Hiran de Lima Pereira (RN), preso e assassinado nas mesmas circunstâncias. Membro do CC do PCB foi importante quadro da vida pública, sendo secretário de Administração de Miguel Arraes na prefeitura de Recife. Em seguida, no dia 04 de fevereiro, era preso e assassinado no Rio de Janeiro, o jornalista e advogado Jayme Amorim de Miranda (AL). Grande organizador das lutas operárias e de massas pelo Brasil, foi preso várias vezes e sofreu tentativa de homicídio. Esteve na URSS e exerceu intensa atividade na imprensa comunista, seu corpo até hoje não foi encontrado.
Em abril, foi preso e assassinado o líder camponês Nestor Veras (SP). Organizador das lutas camponesas que teve intensa presença entre os trabalhadores sem terra, foi fundador e responsável pelo jornal Terra Livre e dirigente da ULTAB. Era membro do CC do PCB e seu corpo está desaparecido até hoje. No mês de maio, no dia 25, era preso e assassinado o operário da construção civil, Itair José Veloso (MG). Líder operário foi primeiro sapateiro e depois passou a atuar na construção civil, sendo eleito dirigente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de Niterói e Nova Iguaçu, e foi eleito secretário-geral da Federação dos Trabalhadores da Construção Civil. Itair Veloso esteve através de delegações sindicais na URSS e China. Membro do CC do PCB, seu corpo continua desaparecido.
No segundo semestre, em 07 agosto morria Alberto Aleixo (MG) em virtude da tortura. Estava preso desde janeiro e não resistiu aos maus tratos, foi um militante gráfico, sendo responsável pela gráfica do partido e exerceu uma longa jornada de trabalho na imprensa comunista. Era irmão do vice-presidente de Costa e Silva, Pedro Aleixo. No dia seguinte, 08 de agosto, era assassinado sob tortura o tenente da PM de São Paulo,José Ferreira de Almeida (SP). Policial militar da reserva exercia uma intensa atividade na PM paulista e integrava o grupo interno de militares do PCB. No dia 18, ainda no mês de agosto, morria em virtude das torturas o coronel reformado da PM/SP,José Maximino de Andrade Netto (MG), que havia sido cassado em 1964. O militante comunista foi preso em 11 de agosto de 1975 e sofreu intensa tortura, até morrer em um hospital de Campinas. Também fazia parte do coletivo de militares do partido.
A repressão continuava caçando o PCB. No dia 17 de setembro, o dirigente do partido no estado do Ceará, Pedro Jerônimo de Souza (CE), comerciário que se encontrava preso desde 1975, foi morto sob tortura. Pouco tempo depois, no dia 29 de setembro era preso e assassinado o dirigente da juventude comunista, José Montenegro de Lima (CE). Ativo dirigente estudantil, foi diretor da UNETI, contribuiu para formular as posições do PCB na área juvenil. Teve grande participação na articulação de organismos da juventude internacional no Brasil (FMJD). Seu corpo não foi localizado até hoje.
Quando chegou o mês de outubro a ditadura fez outra vítima, agora, o destacado dirigente comunista Orlando da Silva Rosa Bomfim Júnior (ES). Foi preso e assassinado sob tortura no dia 08, seu corpo ainda não foi encontrado. Orlando Bomfim foi jornalista e advogado, tendo sido vereador do PCB por Belo Horizonte, em 1947. Era membro do CC e exerceu intensa atividade jornalística. Para fechar o ano de 1975, a repressão assassinou, sob tortura, Vladimir Herzog (Croácia), no dia 25 de outubro. Herzog era professor da USP e jornalista, militante da base cultural do PCB em São Paulo, foi assassinado após se apresentar no DOI-CODI para prestar depoimento.
A ditadura dava sinais de exaustão, as eleições municipais de 1976 corriam risco de ser canceladas e a política do PCB começava a ser vitoriosa na ampla frente democrática. Mas a repressão ainda ceifaria as vidas de comunistas naquele ano. No dia 07 de janeiro era morta a militante comunista Neide Alves Santos (RJ). Essa mulher de convicção profunda foi a única comunista, do PCB, morta pela ditadura. Era militante do setor de propaganda e atuava juntamente com Hiran de Lima Pereira. Ela havia sido presa em 06 de fevereiro de 1975 e encaminhada para DOI-CODI/SP e depois para o DOPS/RJ, foi encontrada morta em via pública com sevícias por todo o corpo. Dez dias depois da morte de Neide, era assassinado sob tortura, no dia 17, o operário metalúrgico Manoel Fiel Filho (AL), que era responsável pela distribuição da Voz Operária nas fábricas da Mooca. Foi preso no dia 16, levado para o DOI-CODI/SP e assassinado em seguida.
No dia 29 de setembro, ainda em 1976, era assassinado sob tortura o operárioFeliciano Eugênio Neto (MG). Histórico militante comunista realizou tarefas com Maurício Grabois e Carlos Danielli, foi operário da CSN e vereador em Volta Redonda. Após ser cassado foi ser operário no ABC paulista. Era responsável pela distribuição daVoz Operária no estado de São Paulo, até ser preso em 02 de outubro de 1975.
Em 1977, o PCB teve seu último militante assassinado pela ditadura. No dia 30 de setembro era morto sob tortura, nas dependências da 1ª CIA da PE do Exército no Rio de Janeiro, o professor Lourenço Camelo de Mesquita (CE). Ativista muito conhecido, exercia sua militância no comitê do partido na Estação Ferroviária da Leopoldina.
O PCB foi massacrado de 1973 a 1976 por uma operação realizada pelo Exército, tratava-se da “Operação Radar”, que tinha como objetivo liquidar o histórico operador político dos comunistas brasileiros. Essa era uma das medidas impostas pela geopolítica arquitetada por Golbery do Couto e Silva, para flexibilizar a ordem política brasileira.
Foram 39 militantes assassinados, nas mais diversas modalidades, desde o primeiro momento do golpe até o começo da chamada “distensão” do regime militar. Para além dessas mortes, o PCB teve centenas de presos que passaram pela mais atroz tortura, sem falar nas dezenas de exilados que foram viver o desterro em várias partes do mundo.
Porque tanto ódio da burguesia a este partido? Talvez seja possível responder: o PCB luta ao lado da nossa classe, não tem nenhum acontecimento que diga respeito aos interesses dos trabalhadores na história do Brasil que não tenha tido a participação decidida dos comunistas. O sangue dos militantes do PCB tingiu de vermelho as bandeiras das lutas operárias de 1922 até 1977. A luta do PCB é pela revolução socialista no Brasil. Superados os equívocos da sua formulação, pois errou porque lutou, o PCB quer estar ao lado de todos aqueles que lutam pela emancipação humana na vanguarda da revolução brasileira. O ódio da burguesia é contra as ideias do socialismo e contra o partido que luta para operar essa tarefa histórica.
Vida longa aos heróis da revolução brasileira que tingiram com seu sangue a bandeira da liberdade.

* Artigo elaborado a partir de pesquisas realizadas nos arquivos do IEVE, CEDEM/UNESP, AEL/UNICAMP, no Arquivo Público do Estado de São Paulo e nos dados da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos.
** MILTON PINHEIRO é Professor de Ciência Política da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), diretor do Instituto Caio Prado Jr. (ICP) e editor da revista Novos Temas.

sábado, 17 de novembro de 2012

Confira seis dicas para encobrir seus rastros online

Jornal do Brasil


Confira seis dicas para encobrir seus rastros online


Pensar sobre a quantidade de informações que se deixa para trás na internet soa como uma passagem sem volta em direção à paranoia. Seu navegador está cheio de cookies. O smartphone é como um farol, transmitindo sua localização a cada momento. Motores de busca rastreiam cada pesquisa, sabem de todas as suas curiosidades. E-mails pessoais arquivam coisas demais. E esses são apenas alguns serviços comuns à maioria das pessoas. Quem sabe, por exemplo, o que acontece dentro dos roteadores?
Essa preocupação é plenamente justificável, explica o site Computer World, que listou seis dicas básicas para ocultar os dados e vestígios deixados online. Enquanto algumas "falhas" - como variações sutis na energia consumida pelos nossos computadores - podem ser apenas exploradas por especialistas com um orçamento considerável, muitas técnicas simples têm sido utilizadas por ladrões de identidade, chantagistas e spammers, além de criminosos ainda piores.
Atualmente, apenas pessoas que têm pouca familiaridade com o mundo online se arriscam a entrar no site de um banco através de uma conexão pouco segura, vender um computador sem apagar o disco rígido ou clicar em links suspeitos de um e-mail. Ainda assim, o cibercrime permanece afetando muitos usuários desprevenidos - que podem ser prejudicados tanto em sua vida pessoal quanto profissional. Aprender a encobrir os rastros online é uma forma prudente de se defender.
1) Gestão de cookies
O mecanismo padrão de rastreamento online é armazenar cookies no navegador. Cada vez que você retorna a um site, seu browser silenciosamente envia cookies de volta ao servidor, que então relaciona os dados às suas visitas anteriores. Esses pedacinhos de informação individual são salvos por bastante tempo, a não ser que você se programe para deletá-los.
A maioria dos navegadores conta com ferramentas para analisar os cookies, lendo seus valores e deletando determinados arquivos. Fazer uma limpeza neles de vez em quando pode ser de grande valor, apesar de as empresas de publicidade - além, é claro, de internautas mal-intencionados - terem encontrado diversas formas de inserir novos cookies e relacioná-los aos antigos.
2) Tor
Uma das maneiras mais simples de rastrear sua máquina é através de seu endereço IP, o número que a internet utiliza como um telefone para que solicitações de dados possam encontrar seu caminho de volta para o computador. Esses endereços costumam mudar com o tempo, em alguns sistemas, porém costumam ser bastante estáticos, permitindo que malwares identifiquem os rastros do usuário.
Uma ferramenta conhecida para evitar esse tipo de ameaça se chama Tor, acrônimo de The Onion Router. O projeto cria meios de comunicação anônima na internet. Apesar de ser uma técnica relativamente complexa, alguns programas - como extensões e plugins em alguns navegadores - facilitam o aproveitamento do Tor, garantindo o anonimato de quem navega na web.
3) SSL
Um dos mecanismos mais simples capazes de proteger o conteúdo pessoal online é a conexão encriptada SSL. Se você utiliza um site que começa com o prefixo "https", os dados trocados com esse endereço são provavelmente codificados com algoritmos sofisticados. A maioria dos serviços de e-mails atuais encorajam os usuários a utilizarem uma conexão HTTPS para garantir a privacidade no nível mais seguro possível.
Se configurada corretamente, uma conexão SSL embaralha as informações que você envia a um site e aquelas que são recebidas de volta. Quando se lê ou manda um e-mail, a conexão esconde seus dados de olhos curiosos escondidos em quaisquer computadores ou roteadores existentes entre o usuário e o endereço eletrônico. A cautela em usar esse tipo de mecanismo é ainda mais necessária no caso de uma conexão sem fio pública.
4) Mensagens encriptadas
Enquanto o Tor é capaz de esconder seu endereço IP e SSL pode proteger seus dados de criminosos, apenas e-mails criptografados podem proteger suas mensagens até que elas chegam ao destinatário. Os algoritmos responsáveis por essa encriptação embaralham o conteúdo, fazendo-o parecer uma sequência de caracteres aleatórios. Esse pacote viaja até o receptor da mensagem, que deveria ser o único capaz de entender o e-mail.
Os softwares responsáveis por esse tipo de criptografia são muito mais complicados de utilizar - e bem menos diretos - que a conexão SSL. Ambos os usuários envolvidos - ou ainda mais pessoas - devem utilizar programas compatíveis, criar códigos específicos e compartilhá-los. A tecnologia, em si, não é muito complexa, no entanto exige muito mais trabalho do que as alternativas anteriores.
5) Bancos de dados criptografados
Sites e bases de dados tradicionais são alvos fáceis para cibercriminosos porque toda a informação é armazenada de maneira clara nesses locais. A solução típica encontrada é criar senhas fortes para proteger essas informações, porém, ao atravessar essa "fortaleza", os dados se tornam facilmente acessíveis.
Outra técnica é não apenas encriptar as informações, mas também garantir que toda a criptografia digital seja feita antes que os produtos sejam publicados na internet. Sites assim podem fornecer a maior parte dos serviços que endereços tradicionais ou bancos de dados, embora garantam vantagens contra o vazamento de informações.
6) Esteganografia
O termo, geralmente aplicado ao processo de esconder uma mensagem, também dá nome a uma das técnicas mais evasivas e sedutoras da informática no que tange à segurança online. Se mecanismos tradicionais trancam dados em um cofre, a esteganografia faz o cofre desaparecer - ou, melhor, disfarça o cofre de maneira a fazê-lo parecer algo inócuo, camuflando-o a fim de mascarar o seu verdadeiro sentido.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Se fosse um filme


VERISSIMO - O Estado de S.Paulo
Confesso que foi com um certo sadismo que fiz questão de acompanhar a confirmação da vitória do Barack Obama na rede de televisão Fox, que chama seu próprio noticiário de "justo e equilibrado" mas é escancaradamente de direita, e fez campanha contra o Baraca desde o seu primeiro dia como candidato a presidente, na eleição anterior. A Fox até que foi justa e equilibrada ao anunciar antes da rival CNN que os números asseguravam a vitória do democrata, mas lutaram contra a realidade até o último minuto. A cena mais cômica da resistência à derrota eu perdi: Karl Rove, um dos cérebros do partido republicano, estrategista e eminência nada parda do governo Bush, transformado em comentarista político da rede, recusou-se a aceitar os cálculos dos próprios tabuladores da Fox e foi protagonista do grande vexame da noite, exigindo que as contas fossem refeitas, até ser convencido de que não havia mesmo mais esperança.
Se as eleições americanas fossem um filme do Frank Capra o enredo seria simples e cativante: mais uma vez políticos sem escrúpulos e os lóbis do dinheiro eram derrotados pelo homem comum, no caso minorias que não se deixaram levar por campanhas milionárias e mesmo com muito menos recursos reelegeram o candidato da solidariedade e da justiça. O filme poderia terminar com o Karl Rove - que além de tudo tem o físico para o papel de "gato gordo" - vociferando contra o resultado. Mas o Frank Capra já morreu e não fazem mais filmes como os dele. Romney mobilizou uma quantidade fabulosa de dinheiro, mas parece que o Obama mobilizou ainda mais. Desde que a justiça americana permitiu que empresas doassem dinheiro para campanhas eleitorais como se fossem pessoas físicas, sem limites, o que havia de disponível para gastar ultrapassava qualquer divisão entre dinheiro bom e ruim, ou nosso e deles. Nunca se gastou tanto numa eleição americana como nesta, e as campanhas foram sujas de lado a lado. Mas o vexame do Karl Rove compensou tudo o que os democratas gastaram.
No dia seguinte, na Fox, um figurão do partido republicano - sim, o Karl Rove de novo, sem nenhum sinal aparente de ter sentido o golpe - analisava a derrota do Romney e recomendava ao seu partido o óbvio, que tentasse conquistar as minorias que deram a vitória ao Baraca. Ele deve continuar como comentarista do "justo e equilibrado". No filme imaginário do Frank Capra ele talvez terminasse com uma banca de frutas.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Por Fora da Moda

Zuenir Ventura

    A gente vê que está ficando velho (ficando?) quando descobre que não sabe mais o que é moda e resiste a aceitar, por exemplo, o fenômeno UFC-MMA, que é hoje uma febre entre crianças e adolescentes, moças e rapazes, venerandas senhoras e senhores (há previsão de que daqui a pouco vá ultrapassar o vôlei e a Fórmula-1 em popularidade, perdendo apenas para o futebol). A minha rejeição é por não admitir como esporte esse vale-tudo em que um pontapé bem dado pode desfigurar o rosto do adversário, como ocorre frequentemente. Se isso é permitido, como condenar o mesmo tipo de agressão numa briga de trânsito ou de dois alunos numa escola? Quando manifestei essa opinião há tempos, recebi mensagens dizendo que eu parecia desconhecer que essas lutas existem desde a antiguidade greco-romana. Respondi que era verdade, mas que também já foi divertido jogar cristãos vivos na arena para leões famintos, e que pelo menos nisso a civilização avançou. Os leitores que me gozavam por não entender nada do "esporte" até que tinham razão. Entendo tão pouco que, na véspera da disputa do cinturão dos pesos-pesados do UFC, eu achava que Galvão Bueno é que ia lutar contra Júnior Cigano, por causa do destaque dado pela imprensa ao nosso grande narrador esportivo, que, como disse seu filho Cacá, "acha que entende de tudo", e parece que entende mesmo. Não vi a transmissão, mas fiquei imaginando Galvão atualizando um de seus famosos bordões- "Vai que é tua, Cigano"- e senti saudades dos tempos em que, em vez de gritar "Júnior Cigano do Brasil", ele dizia "Ayrton Senna do Brasil". Sua proposta de herói nacional já foi melhor.
    Tenho um sobrinho-neto que adora essas lutas e não se conforma com meu reacionarismo. Tento explicar que me incomoda a violência sob qualquer forma, mesmo a simbólica, que nem é bem o caso, já que os golpes desferidos por esses chamados "gladiadores do século XXI" não são fingidos, como os beijos "técnicos" das novelas, mas pra valer. Contei que fiquei traumatizado quando vi fotos de faces de lutadores completamente deformadas, e um deles chegou a ser impedido de lutar por 180 dias em consequência de "fratura craniana e facial". O sobrinho acha graça da minha ignorância e alega que os chutes no rosto só são permitidos quando os lutadores estão em pé, e eu digo, como Ancelmo Gois, "ah, bom!"
    Não adianta, não tem jeito, sou um caso perdido. Vou me juntar a meus colegas jurássicos e me recolher ao parque dos dinossauros mais próximo. Agora estou me preparando para quando minha neta Alice, de 2 anos, me obrigar a correr atrás de autógrafos desses campeões. O pior vai ser quando ela quiser rolar pelo chão comigo brincando de luta e gritando pra mim: "Vai que é tua, Minotauro." Posso não acreditar em milagres, mas em castigo acredito.

Do livro "Crônicas Para Ler na Escola", seleção de Marisa Lajolo, Ed. Objetiva.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Com o fogo no coração


Rosane Pavam

Carta Capital

Carlos marighella exercia a esperança à força. “O comunista deve ser um coração de fogo e uma cabeça de gelo”, escreveu em 1955, depois de lutar contra o Estado Novo e passar sete de seus 44 anos de vida preso, sob forte porrada ou até metido em banhos de mar. Fiel aos tamancos, mas fraco para a dança, adepto da paródia e forte para a ação, mesmo se ela se restringisse à limpeza da cozinha, o guerrilheiro de péssima mira parecia entender a lição de Che Guevara sobre a ternura. Em 1968, a meses de seu assassinato a tiros em uma emboscada paulistana, quando a ditadura brasileira teimava em jamais abrandar, ele fora o único a praticar com Rose Nogueira os exercícios respiratórios para um parto sem dor. O estudante de Engenharia que se veria alcunhado Inimigo Público Número Um dera à militante grávida um conselho enigmático como a vida: “Responda sempre com poesia”.
No início da ação. Marighela, em 1940, na prisão de Fernando de Noronha, um Brasil a conhecer
Fazedor de versos, Marighella penava com as respostas. Nos 57 anos em que viveu, procurou por elas nos livros e na esquerda centralista, embora parecesse encontrá-las mais facilmente no próprio corpo grande de mulato, filho sem a beleza óbvia dos que o originaram, a neta de escravos Maria Rita e o empreendedor Augusto, da Emilia-Romagna. Carlos, o Carrinho, era o querido das mulheres e da família. Seu pai lhe deu grande biblioteca. Carrinho não aprendeu com ele o ofício de mecânico, mas a coragem para o enfrentamento, além da capoeira. Que não levasse dos outros sem retrucar, mas que respeitasse os outros.
“Não foi um pensador, mas a ação para ele era quase um fetiche”, acredita o jornalista Mário Magalhães, 48 anos, nove deles mergulhado na vida do baiano para a composição do monumentalMarighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo (Companhia das Letras, 736 págs., R$ 56,50), a ser lançado na Livraria Cultura, em São Paulo, na segunda-feira 29. Quando fala aCartaCapital por telefone, desde o Rio de Janeiro, onde nasceu, o pai de três filhos não segura o excitamento em relação ao personagem. Sobre sua dificuldade em narrar a história, expõe só a de seu protagonista, com o qual deparara na juventude de militância trotskista e durante as pesquisas para Chatô, de Fernando Morais, realizadas em 1987 enquanto trabalhava em O Globo. “Marighella é um dos cinco brasileiros mais conhecidos do mundo, junto com Pelé”, crê, ele que cita o futebolista para também adjetivar seu introdutor na arte de biografar.
Ainda que do estilo de Fernando Morais esta obra tenha pouco, sua envergadura histórica permitiu a tiragem inicial de 12 mil exemplares. “Jamais pensei neste livro como uma hagiografia. E embora entendesse ser preciso lograr uma vida de tirar o fôlego, não abri mão das ideias a cercar o personagem.” Ex-repórter e ombudsman da Folha de S.Paulo, ele mantém na mesa de trabalho uma das epígrafes do livro, de François Truffaut: “Não esqueçamos jamais que as ideias são menos interessantes do que os seres humanos que as inventam, modificam, aperfeiçoam ou traem”. A segunda epígrafe é de J. W. Goe-the: “Ao princípio era a Ação”.
Agir norteou Magalhães nessa pesquisa. Ele entrevistou diretamente 256 fontes, compôs 2.580 notas e uma bibliografia de 600 volumes. O livro é grande por necessidade. O autor se prefere sintético na redação para surgir extensivo nos informes. Por isso não se pode chamar o texto de estrita biografia. É uma reportagem histórica que se abre a cada evento em torno de Marighella, revelando fatos e personagens essenciais, como o parceiro Joaquim Câmara Ferreira. Ou curiosos, como o pai e o tio de Fernando Henrique Cardoso, em luta pelo petróleo como monopólio estatal.
A obra não se pretende literária, porque Magalhães jamais se entende como escritor, antes um “catador de informação” e “um contador de histórias”. Haja então a revelar ao país que nunca mostrou Marighella na escola. O “santo ateu”, como o definiu Antonio Candido, surge ali em combate ao autoritarismo, indignado com ações terroristas que atingissem inocentes. Como não se trata de bajulação, saiba o leitor, por exemplo, que foi Marighella o responsável por expulsar do PCB Patrícia Galvão, a Pagu. O guerrilheiro que encantou Glauber Rocha e Jean-Luc Godard, tido como o Che das cidades por seu mundialmente traduzido Minimanual do Guerrilheiro Urbano, culpara Pagu pelas “atitudes escandalosas de degenerada sexual”, quando, em verdade, ela agira sob ordens partidárias.
Eis o PCB a receber dinheiro de Adhemar de Barros e, entre outras narrativas em paralelo, a do primeiro desaparecido da luta armada, Virgílio Gomes da Silva, trucidado pela polícia a quem se declarou patriota e brasileiro. O personagem é redimido depois de ter sido tratado por Bruno Barreto com o vilão Jonas em O Que É Isso, Companheiro? A mulher do militante, integrante da Aliança Libertadora Nacional (ALN), Ilda, foi torturada. Três de seus filhos, um deles com 4 meses, levados a um juizado. Vlademir, com 8 anos, e Virgilinho, de 6, furtavam leite na geladeira para dar à caçula Isabel, e dormiam no chão, amarrados uns aos outros e abraçados ao berço pela roupa, para não se dispersarem. Todos salvos, hoje Virgilinho é geógrafo da Petrobras, tendo se formado em Cuba. E Ilda, após as fotos do marido morto obtidas por Magalhães, insistiu na investigação sobre o paradeiro do corpo.
O autor. Magalhães, nove anos dedicados à vida do militante Foto: Adriana Lorete
Todo o heroísmo que há nos insuspeitos descobertos por Magalhães, como Jacques Breyton, um resistente na França para quem a prisão de Klaus Barbie era mais amena do que as brasileiras da época, é negado neste livro ao Cavaleiro da Esperança, Luiz Carlos Prestes. Restou-lhe a Coluna. De resto, diz Magalhães, contestou Getúlio Vargas apenas quando este promovia reformas importantes, a dois dias da morte. Garantiu aos soviéticos ter aparato para fazer a revolução nos anos 1960. Passou escondido por 1964. Acumulou cadernetas que, descobertas, levaram à prisão de militantes. Do livro, o personagem sai machucado pelo burocratismo e pelo culto à personalidade.
E é também um outro Brasil o presente nesse texto, o horror pleno patrocinado pelo golpe, erroneamente lembrado como “revolução” por alguns contemporâneos. Nesse Brasil sem democracia figurava o legista Harry Shibata, que “batizou” o corpo de Marighella, quando ele fora nascido de mãe católica fervorosa e convertido na vida adulta a filho de Oxóssi, como o livro revela, sem o conhecimento da segunda mulher, Clara Charf. Sondado para uma versão cinematográfica, Magalhães diz não ter recebido propostas. No Brasil, seu Marighella ideal seria Lázaro Ramos. Entre Wesley Snipes e Denzel Washington, brinca preferir Snipes. São muitos os personagens irresistíveis no livro, como o companheiro de ALN Marquito ou o comunista Diógenes Arruda Câmara. Magalhães não pensa agora em se embrenhar neles. Mas não estranharia se seu livro levasse a muitos outros.